“Arnold Palmer”: um endless Summer no novo single dos Ratking

[TEXTO] Ricardo Miguel Vieira

 

O Verão é a época do ano em que as cidades se tornam cadernos rascunhados com estórias de rua que brotam nas esquinas, nas avenidas ou nas intersecções. Mais ainda se estivermos a falar da baixa de Manhattan, tecido urbano desenhado a avenidas e rios e habitado por gentes desse mundo fora que lhe dão uma composição orgânica em constante movimento. A cidade não dorme, com tanto para observar, por absorver, e a malta também não tem sono depois de um Inverno em que hibernou. É tempo de rolar no skate e queimar uns parpalhos com os manos no parque e viver a vida lá fora.

“Arnold Palmer”, o mais recente single do álbum 700-Fill (clicar para download gratuito) do colectivo noise-rap de Nova Iorque Ratking, é uma espécie de postal dos dias mais longos, lembrança de quando o pessoal não parava em casa e bebia da vida que acontecia nas ruas antes do regresso a nova temporada fria no Hemisfério Norte. Mas, acima de tudo, é uma malha que expõe uma intricada desconstrução social do speedy-spitter Wiki, sustentada pelas divagações de Hak e por um beat de pesados graves, drumpads cortantes e rendilhados saxofónicos de Sporting Life.

A faixa arranca com o MC originário de Upper West Side a recordar o dia em que interceptou um tipo aprumado, de caddie bag às costas, como se fosse um golfista (“dressing fucking fresh like he was playing golf”), numa avenida adjacente a Brooklyn – uma visão pouco habitual para a zona, portanto; ou talvez sinal dessa guerra de classes chamada “gentrificação”? Seja como for, o indivíduo foi logo apelidado de Arnold Palmer, pela dupla referência que este nome transporta: é um refresco à base de uma mistura de ice tea com limonada que se tornou famoso por ser a bebida favorita de… Arnold Palmer, um dos melhores golfistas de todos os tempos que é reconhecido por ter quebrado barreiras elitistas ao demonstrar como uma pessoa da classe baixa consegue somar tantos holes in one como um gabarolas no topo da pirâmide social.

Driblando rimas com essa dualidade, a narrativa de Patrick ‘Wiki’ Morales extrapola o simples tributo ao Verão e reaviva os tempos em que as responsabilidades da renda e do job não pesavam sobre os seus ombros, o que significa que também não confrontava com olhos de adulto a pesada realidade de um latino-irlandês nascido e criado nos EUA (ice tea com limonada… mistura… estão a ver?) que procura safar-se em terras do tio Sam – seja em busca de um emprego digno ou do respeito entre seres da mesma espécie. “All the time we spent getting fucked up, now we paying rent / But we won’t forget where we from, from, where we went / Where we, where we from, we some mutts, we some, we some mutts.” (Mutts é aqui uma adenda para “Remove Ya”, do explícito So It Goes, em cuja entrada se ouve um jovem negro [Hak, o outro MC do colectivo] a interrogar um polícia sobre o porquê da sua detenção. A resposta? “ ‘For being a fucking mutt.”) “Arnold Palmer” é, por isso mesmo, um “era uma vez…” cuja primeira linha são os tempos em que Wiki girava despreocupadamente Nova Iorque com os amigos e o parágrafo final remata com o desabafo das batalhas diárias enfrentadas por quem ousou ter nascido noutro país que não a América e por uma geração que testemunha a supressão de comunidades e culturas nos ambientes urbanos em que cresceram. “The skies ain’t golden / Anywhere you go“. Dos Estados Unidos à Europa; do Oriente Médio até onde o Sol nasce.

Desde o lançamento de So It Goes, em 2013, que o perfil do grupo hip hop alternativo de NY amadureceu. Andaram em tour com os Run The Jewels e recentemente partilharam o palco (e, no caso de Wiki, o estúdio) com Earl Sweatshirt, que lhes enviou um valente props pelo single via Twitter. Individualmente, os seus status também mudaram: o produtor Sporting Life lançou há semanas a impressionante cassete 55’5s; Wiki, a preparar um disco a solo, destaca-se cada vez mais nas rimas – “it’s crazy how advanced he is at rapping in comparison to most people”, disse dele Sporting Life à RBMA; e Hak, mais recatado, continua nas suas barras viajantes (não me impressionava se enveredasse pelo spoken word ou explorações em territórios mais experimentais).

Mais um “Arnold Palmer”, por favor.

 

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.