Armand Hammer // Paraffin

[TEXTO] Rui Correia 

Numa busca por refrões crípticos e flows clínicos chegámos até à dupla Armand Hammer. Embrenhados em Nova Iorque, o vernáculo da cidade reside na mente dos rappers Elucid e billy woods de uma forma algo distorcida e conturbada: munido de versos abstractos, o duo coloca as mentes dos ouvintes numa dimensão psicadélica, seguindo a linhagem de nomes como Company Flow e Cannibal Ox – falamos do universo El-P, incluindo a sua extinta editora Def Jux –, mas também de grupos mais distantes na geografia dos EUA, como é o caso dos Shabazz Palaces, que estão baseados em Seattle.

Nas profundezas do comercialismo, o mais dedicado dos mergulhadores musicais encontra pérolas sonoras de valor incalculável, como é o caso do álbum Paraffin, trabalho que sucede aos registos discográficos Race Music (2013), Furtive Movements EP (2014) e Rome (2017), e que coloca o duo norte-americano no topo da lista de candidatos a futuro projecto de culto. Ao quarto lançamento, a dupla revela-se mais unida, quase a um nível telepático, tanto pelas escolhas de beats cavernosos, como pelas sequências de histórias em que mostram o seu profundo conhecimento literário.

Mal entramos no disco, somos confrontados pelos samples abrasivos de “Sweet Mickey”, capazes de nos remeter para um ambiente industrial. Elucid, sozinho na faixa, vai-se derretendo em pensamentos ofegantes de quem absorve demasiada informação negativa:

“Don’t get gas
The ancient of days
Escape for a slave
Roots unrestrained
Straight through the swamps
Burrowed a cave
Drip the maniac, delayed react
Let me process how you fake adapts
That’s on the board in the year of our lord
Weapons of war
The proof is our nuke
Banish the law
We only distort
Right up the court
We call a system
Algorithm that applies pressure to achieve desired results”

A partir daqui, as rimas nunca mais abrandam na decadência sistémica: em “Alternate Side Parking”, o duo relaciona controlo policial excessivo com factos alternativos e em “No Days Off”, rugem-nos, repetindo “You don’t work/ you don’t eat”, aludindo a um ensaio de Jonathan Crary intitulado 24/7, um livro que explica os fins do sono como (possível e derradeira) conquista do capitalismo sobre a humanidade. A repetição serve aliás de um processo hipnótico, sendo recorrente em várias faixas, como em “Rehearse with Ornette”:

“All that he seen burnt a hole in his brain
only came back to tell ‘em ‘bout them fuckin’ flames”

Ou a terminar em “Root Farm”:

“Black men or white men? Too inconvenient
Speak it like you mean it
And I never grab the mic without grabbing my
Ima read, ima read, ima read, ima read, ima read, ima read right”

Coberto de parafina, estamos perante um produto icónico e magnetizante, mas rapidamente inflamável, em que as palavras se esfumam, deixando no ar a sua essência. Elucid e billy woods completam-se em versos que pintam um mundo fantasmagórico e distópico, não muito distante do mundo (sur)real americano a descoberto, que de forma viral se vai espalhando pelo planeta. Uma epopeia de descontentamento que merece imersão completa e do qual, caro e fiel leitor, não sairá indiferente.

 


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