Ariana Grande // thank u, next

[TEXTO] Miguel Alexandre

Em “needy” Ariana abre-se no que parece ser um dos muitos desabafos que tem consigo mesma ao longo deste novo disco. É um resultado sincero e crescido, mas ao mesmo tempo fatigante e monótono. “Lately I’ve been on a roller coaster/ Trying to get a hold of my emotions”, canta. A verdade é que os últimos anos da cantora têm-lhe servido como um derradeiro teste de superação, não só a nível profissional, mas principalmente a nível emocional. Os atentados em Manchester, a morte do ex-namorado, e o rompimento do casamento com Pete Davidson colocaram-na no centro dos holofotes, e também nas manchetes de jornais por todo o mundo. Afinal, não é fácil ser-se uma estrela pop, mas Grande, de alguma maneira, conseguiu dar a volta. Em 2018, lançou Sweetener, uma doce afirmação pós-tragédia que a obrigou a pensar primordialmente no seu bem-estar. Foi uma ponte necessária construída em complicações, frágeis detrimentos e assentada em feridas que ainda hoje custam sarar. Em Outubro do mesmo ano, a cantora decidira fazer uma pausa na música com o intuito de se concentrar mais em si mesma. Seis meses depois, thank u, next chegou a nº1 em vários países com um total de vendas astronómico. Ariana voltou a quebrar.

Thank U, Next é direito ao assunto: sem colaborações de meias medidas, sem singles feitos somente para a rádio e sem aquelas fastidiosas baladas de piano que enchiam os alinhamentos de álbuns passados. No entanto, há algo que sempre se salvaguardou e parece permanecer assim: a voz de Grande — variando agora entre gentis assobios e bravosas declarações de independência. Este novo trabalho foca-se muito mais no presente da cantora do que nas vivências pessoais do passado. É claro que há espaço para relembrar relacionamentos (noivados, neste caso) que acabaram amargos — como acontece na música que dá título a este disco — e até mesmo aqueles que ainda não aconteceram, mas que estão no horizonte do seu pensamento, como na arejada e delicada “imagine”.

Ariana vive entre duas personagens: a femme-fatale, que descaradamente afirma que isto é só uma curte e nada mais, que a felicidade está no preço daqueles sapatos Louboutin, e que não lhe deves ligar amanhã de manhã. Por outro lado, existe também a Ariana dos tempos de Yours Truly, que ainda acredita na bondade das pessoas e que o amor verdadeiro é uma penosa, mas gratificante batalha.

Embora estas 12 canções sejam inspiradas numa libertação sexual e emocional, são ainda afirmações sobre ela própria. Ariana, em comparação com os seus outros quatro álbuns, é o centro da sua narrativa, colocando todos os seus interesses amorosos em segundo plano. Não são, na verdade, tão diarísticas como as de Taylor Swift, ou identicamente assertivas às de SZA: são um compromisso sereno entre querer ser tomada a sério enquanto mulher, mas especialmente enquanto compositora. Se olharmos para a “NASA” percebemos que a pessoa em que está a pensar é ela mesma. Ariana gosta do rapaz com quem está, mas sabe perfeitamente que tem de se amar em primeiro lugar: “Just makin’ sure I’m good on my own tonight/ Even though there isn’t nothing wrong tonight”. A música é como um enquadramento arranjado e detalhado entre um trabalho de The-Dream e Rihanna de “If It’s Lovin’ That You Want”, a caminho também de um “High Horse”, de Kacey Musgraves: cativante, provocante, mas tudo executado em boa fé. “fake smile”, por sua vez, é o centro do novelo existencial deste disco e a tese do recorrente estado de Ariana nos dias de hoje: “I can’t fake another smile/ I can’t fake like I’m alright/ And I won’t say I’m feeling fine/ After what I been through, I can’t lie”, reclama. O sample de “After Laughter (Comes Tears)”, de Wendy Rene, é posto em jogo e acaba por tornar a canção ainda mais atraente, tornando este sentimento universal e apaziguante.



Numa recente entrevista à revista Billboard, Ariana disse que queria lançar música tal e qual como os rappers fazem – sem o incómodo de responder a um mercado ou a um público-alvo específico e sem ter a total responsabilidade das suas palavras em geral. Sendo assim, e tendo em conta toda a espontaneidade do álbum, thank u, next foi recebido quase como um evento cultural no final de 2018, e aclamado por críticos e fãs no dia do seu lançamento em Fevereiro deste ano. Grande gabou-se de o ter escrito em apenas uma semana, e, ao percorrermos todas as faixas, percebemos que a falta de consistência pesa em alguns momentos em que a escrita não deixa de ser desleixada. Em “bad idea”, o enredo é o de uma noite sem exemplo, o de um erro inevitável de acontecer; e enquanto nos faz regressar, contra a nossa vontade, aos tempos de Stripped, de Aguilera, os vocais principais são descontrolados, especialmente quando se chega ao refrão.

O mesmo acontece com “7 rings”, tema em que Ariana tenta ter uma aproximação vangloriosa à balada “My Favorite Things”, de Rodgers e Hammerstein, enquanto veste a pele dos rappers que mencionou anteriormente. Aqui gaba-se da riqueza que tem, do cabelo perfeitamente grumado, das pestanas arranjadas, dos diamantes que pesam no relógio e das borbulhantes garrafas de champanhe. A premissa, por si só, é inofensiva, mas acaba por ser forçada e não se alia adequadamente à personalidade de auto-reconciliação que a artista tem ao longo do disco. Ainda faltam alguns degraus para chegar à mentalidade disruptiva e envaidecida de que fala, mas a música não deixa de lhe dar uma falsa vantagem.

Contudo, esta ideia mais imprudente e hedonística é replicada com precisão em “break u with your girlfriend, i’m bored”. A escolha desta canção para finalizar o álbum é pertinente. A mão pesada de Max Martin e a interpolação de “It Makes Me Ill”, dos N’SYNC, pintam uma imagem diferente daquele que se começa em “imagine”: Grande chorou tudo o que tinha para chorar e sai em direcção à discoteca com o coração gelado. Lá, entre as luzes ofuscantes da pista de dança e as bebidas trocadas entre estranhos, sabe que está prestes a cometer o erro de se envolver com alguém que está comprometido. Em 2012, Marina Diamandis disse que, nestas situações, a culpa é igualmente partilhada por quem seduz e por se deixa seduzir. Mas Grande não está preocupada com isso e, tal e qual como em “bloodline”, a atenção dirige-se mais para o estado de espírito dela e não para as justificações que o rapaz terá de dar à namorada na manhã seguinte. Mas ela não é má pessoa: claro que certas acções são dificilmente desculpadas; no entanto, servem para restaurar a Ariana que se perdeu em traumas e em promessas não cumpridas. No final desta jornada, a humildade dela está intacta, o talento é inegável, a imagem dela está completamente renovada. thank u, next é um álbum com defeitos, mas é um perfeito capítulo de passagem para o que vem a seguir.


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