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Fotografia: Robert Abbott Sengstacke/Getty Images

O génio foi moldado, refinado, precisou de tentativa e erro, mas quando finalmente acertou o mundo ganhou uma nova diva que durante meio século foi uma inspiração permanente.

Aretha: a construção de uma genial voz americana

Fotografia: Robert Abbott Sengstacke/Getty Images

É importante perceber que Aretha foi tanto a consequência directa de uma cultura como o resultado apurado de uma indústria. A ideia de que as grandes vozes populares do século XX, de Frank Sinatra e Billie Holiday a Nina Simone, Amália Rodrigues, Carlos Gardel, Edith Piaf, Jacques Brel ou, claro, Aretha Franklin, são uma extraordinária condensação de circunstâncias especiais — sobretudo culturais e históricas — e que se apoiam em superlativos dotes naturais apurados por vivências muito particulares, dos palcos reclamados por igrejas baptistas às vielas em torno de portos marítimos como os de Buenos Aires ou Lisboa, é apenas parcialmente correcta. Aretha é a prova definitiva disso.

Se, por um lado, esta cantora nascida em Memphis em 1942 e educada pelo pastor baptista C.L. Franklin — uma estrela no circuito gospel, sobretudo na década de 50, quando chegava a cobrar 4 mil dólares por uma presença num serviço e por um dos seus intensos sermões — cresceu num ambiente tão culturalmente rico a que dificilmente teria conseguido ficar imune — a mãe saiu de casa ainda na sua infância, morrendo pouco depois e deixando espaço para que na sua esfera doméstica passassem a estar presentes estrelas gospel como Mahalia Jackson ou Clara Ward —, por outro, formou-se artisticamente num tempo em que com os desportos ainda bastante segregados a via musical era quase a única escapatória possível para uma geração de negros “young and gifted”.

Claro que por cada Sam Cooke, por cada Dinah Washington, Lou Rawls, Ray Charles, James Brown ou Nat King Cole havia hordas de pretendentes a um dos raros lugares no topo da pirâmide pop e por isso talento natural apurado por uma qualquer vivência mais específica e especial — como a de Aretha, que expandiu o seu inicialmente incipiente pianismo com uma paleta de acordes ensinada directamente por James Cleveland, outra estrela gospel que durante algum tempo viveu na casa do seu pai — não eram argumentos suficientes para se triunfar.

A ideia que bastas vezes passa nos retratos “pintados” a traço mais grosso é a de que Aretha era “uma num milhão”, uma “predestinada”, um brilhante diamante lapidado pela vivência na igreja e revelado ao mundo na era muito particular do movimento dos direitos civis. A sua voz, escreve-se com frequência, traduzia de uma forma autêntica o lamento colectivo da experiência afro-americana. Tudo verdade, mas há mais. Inspirada por Sam Cooke, o homem que deu esperança a uma nação negra prometendo uma transformação com uma voz capaz de inflamar o mundo com o calor da esperança (“A Change is Gonna Come”, prometeu ele em 1964), Aretha trabalhou e moldou-se antes de conseguir reclamar o seu espaço no concorrido tabuleiro da pop, aquele em que a Chess, a Stax, a Motown, a Atlantic, a Columbia e várias outras etiquetas procuravam impor os seus produtos.

Por isso mesmo, a futura rainha da soul, como qualquer rainha aliás, precisou de se educar: não nas boas maneiras, nos rituais protocolares de uma qualquer corte europeia, mas na arte de singrar na pop. Em Nova Iorque, para onde foi viver quando contava apenas 18 anos, procurando então libertar-se da pesada sombra lançada pelo seu pai, Aretha teve aulas de representação, de moda e de dança — com o coreógrafo Cholly Atkins, um dos expoentes do tap dancing — e, obviamente, de canto, com Leora Carter. Esta foi a preparação a que se submeteu para poder enfrentar da melhor maneira o contrato de cinco anos que assinou com o grande John Hammond da Columbia, um dos maiores “caça-talentos”de sempre, homem que descobriu Count Basie, Lionel Hampton, Charlie Christian ou, mais tarde, Bob Dylan e Bruce Springsteen. Mas que, no entanto, não conseguiu, durante a vigência do seu contrato, fazer de Aretha a estrela que o futuro haveria de conhecer.

Descrita pelo próprio Hammond como “an untutored genius” — “a melhor voz que ouvi depois de Billie Holiday” (outra das suas descobertas, aliás…) —, ou seja um “talento natural”, Aretha começou por ser “vendida” ao mundo como uma voz autêntica, quase como um produto de um certo folclore tipicamente afro-americano e essencialmente inofensivo ou neutro, expresso em reportório tranquilamente aceite, como “Over The Rainbow” e muitas outras peças do universo dos musicais, material produzido em série na Tin Pan Alley. Perante a profundidade que haveria de revelar mais tarde, muitos biógrafos, como ressalva o grande Peter Guralnick no fundamental Sweet Soul Music (Harper Collins, 1986), optaram por encarar esta fase inicial da carreira de Aretha como uma imposição, com as escolhas menos acertadas de reportório a resultarem da falta de visão dos responsáveis pelos gabinetes de A&R da Columbia, mas, argumenta o autor, não se pode excluir a própria Aretha dessa equação inicial. Aretha cantava o que lhe impunham, claro, mas também o que ela própria escolhia cantar.

O contrato que ligava Aretha à Columbia chegou ao fim sem que se registassem hits significativos. Jerry Wexler, visionário ao leme da Atlantic, tinha a certeza de que podia fazer diferente e orquestrou tudo para conseguir reescrever a história. A cantora, a braços com problemas pessoais no seu casamento com Ted White, que era seu manager e um marido violento e abusivo, tinha obviamente uma bagagem emocional para carregar. Wexler, com o mítico produtor Tom Dowd ao seu lado, pensou imediatamente nos estúdios de Rick Hall, Fame, em Muscle Shoals, no Alabama. E preparou uma sessão com notáveis como Spooner Oldham e Dan Penn, músicos experimentados que respeitavam e reconheciam o potencial de Aretha.

Em 1967, o mundo estava a mudar: vozes como as de Martin Luther King, Jr. inspiravam as massas, a guerra do Vietname ensombrava o futuro de toda uma geração e Lyndon B. Johnson tentava gerir tensões internas a partir de uma Casa Branca ainda ensombrada pelo assassinato de JFK. Numa única canção — a monumental “I Never Loved a Man (The Way I Love You)” — registada nessa primeira sessão orientada por Wexler, Aretha colocou, finalmente, em prática o que tinha demorado a vida a aprender. A cantora “de 26 anos e a caminho dos 65”, como ela mesmo se descreveria a um repórter da Time, tinha vivido e sofrido às mãos de homens abusivos, procurava orientar-se numa indústria dominada por outros homens, controladores no mínimo, e rodeada de rapazes brancos. Sentada ao piano, juntou nalguns gloriosos minutos a igreja e as lições aprendidas em Nova Iorque, a tradição gospel e a pop transgressora que inundava as rádios. Nesses minutos, Aretha anunciou a chegada do futuro, mostrou o caminho às próximas estrelas soul e revelou de forma plena o génio que sempre habitou a sua garganta, sob a forma de uma inteligência vocal singular, capaz de se elevar a um patamar inédito, sem comparação possível. Nada ali foi, nesse momento, natural. O génio foi moldado, refinado, precisou de tentativa e erro, mas quando finalmente acertou o mundo ganhou uma nova diva que durante meio século foi uma inspiração permanente.

A mudança que Sam Cooke anunciou continua em marcha, a América procura ainda resolver-se e a rainha Aretha, que sempre exigiu e recebeu respeito, foi uma das obreiras do sonho que continua a sobreviver, ainda que ameaçado. A sua música, fonte de inspiração para tantas outras vozes, para outros génios mais ou menos naturais, mais ou menos criados nesse grande e fascinante laboratório chamado indústria musical, há-de continuar a fazer-se ouvir muito para lá deste tempo. A imortalidade já ninguém lha tira.


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