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Ao vivo n’O Sol da Caparica: Sam The Man & Mundo Maduro

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Mariana Júdice

 

Momentos antes de arrancar no palco Blitz a prestação de Mundo Segundo e Sam The Kid, Cristina Branco e Mário Laginha cantavam, no palco SIC/RFM, a “Construção” de Chico Buarque. É um poema admirável entregue com rigor jazz e alma desmedida à multidão que começa a crescer. Nele há algumas palavras que se podiam aplicar tanto a Samuel como a Edmundo: “Subiu a construção como se fosse máquina / ergueu no patamar quatro paredes sólidas / tijolo com tijolo num desenho mágico”. E por aí.

No Quarto Mágico ou no Segundo Piso, também estes homens feitos ergueram, com “olhos embotados de cimento e lágrima”, uma obra admirável. Se hoje o hip hop português se apoia em quatro paredes sólidas em muito o deve a Sam The Man e Mundo Maduro: dois veteranos com um percurso longo, tortuoso, trilhado bastas vezes contra a corrente, ou em “contramão”, como canta Chico, sem apoios e sem visibilidade. Por isso, agora, ambos podem sentar-se “para descansar como se fosse sábado”. Vive-se um admirável novo dia. E ontem, n’O Sol da Caparica foi dada mais uma prova disso mesmo.

 


sam the kid


Em palco, Sam The Kid e Mundo Segundo honram a cultura por terem ao seu lado dois DJs que desde sempre – “1993” foi uma data ouvida algumas vezes… – lhes forneceram a lenha das batidas que alimentaram a chama das suas rimas: DJ Cruzfader e DJ Guze, veteranos eles mesmos que entendem na perfeição a arquitectura de agudos, médios e graves de que se faz esta “construção”. Houve ainda espaço para pintar refrões com a alma de NBC e a classe de Maze, uma vez mais dois homens com o peso da experiência bem vincado nos seus ombros largos.

Mas é em Sam e Mundo que as atenções se focam. Com um alinhamento telegráfico ao dispor – a actuação foi concentrada em 45 intensos minutos – que pode ser conferido aqui mesmo em foto da setlist assinada para o Rimas e Batidas por todos os que estiveram em palco – houve espaço para matéria comum – “Tu Não Sabes”… – e clássicos de cada um dos gigantes que se perfilavam em palco: Mundo Segundo a fincar os pés na sua era com “Sou do Tempo”, Sam The Kid a eliminar a torto e a direito tudo o que são “Poetas de Karaoke”. E “Sofia” ou “Brilhantes Diamantes”, tudo com intenso brilho próprio e eco alargado a cargo do público.

 


mundo segundo


Por esta altura, o encaixe que cada um destes MCs revela ter no reportório alheio é perfeito, com cada um a ter igualmente a humildade para que em determinados momentos possa ser o “hype man” do companheiro que assume a dianteira. Mundo e Sam, certamente, já comunicam de forma telepática e isso sente-se na apresentação sem falhas em que cada palavra atirada ao ar aterra exactamente onde é suposto. Parece fácil, mas é preciso ter capacidade de subir “a construção como se fosse máquina” para que o “desenho mágico” feito de batidas e cortes cirúrgicos, de palavras e flows, de sentidos, segundos sentidos e metáforas e alegorias se ilumine dentro dos nossos ouvidos.

 


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Houve outra coisa que concorreu para que o momento fosse especial: o público. Esta gente canta aquelas palavras como quem se canta a si mesmo. Aquelas são as suas histórias, as suas marcas de identidade e de cada vez que aquelas gargantas se sincronizam o que acontece, na verdade, é um redondo e sonoro “estamos aqui”. Nem sempre este público, esta geração, teve oportunidade de reclamar o seu lugar nestes espaços de celebração da música e da língua, da cultura e do tempo. Por isso, é natural que agora o façam com vigor e alegria. Quase como se dissessem que também são eles que estão ali, no palco. Isto não acontece sempre, mas quando acontece, parece que todos tropeçamos no céu como se ouvíssemos música, como na “Construção” do Chico, que é quadro de beleza feito de palavras (nossas) e balanços (universais).

 


https://www.youtube.com/watch?v=J1s4w1eZ7do

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