Lançaram há um mês o segundo álbum, Malandra, e acabam de anunciar os concertos de apresentação em Portugal. Os Ão tocam na Casa Capitão, em Lisboa, a 18 de Dezembro; e no dia seguinte na Casa da Música, no Porto. Há algum tempo que eram esperados por cá — afinal, os belgas têm-se notado pelas letras em português.
Autores de uma pop alternativa — simultaneamente orgânica e electrónica, que vai beber à música latina — os Ão têm esta ligação à língua portuguesa graças à ascendência familiar da vocalista Brenda Corijn. A mãe nasceu e foi criada em Moçambique, o seu avô era português, e mantém família portuguesa e moçambicana nesta ponta oeste da Europa.
Tocaram pela primeira vez no país ao abrirem para os compatriotas dEUS no Coliseu dos Recreios, há três anos, quando se estrearam em disco com Ao Mar. Iriam tocar na Casa da Música em Abril de 2025, mas a vida trocou-lhes as voltas quando o implacável apagão eléctrico obrigou ao cancelamento do espectáculo. Depois passaram pelo MIL em Outubro, mas só agora apresentam em palco o novo disco, que mereceu uma crítica sumarenta assinada por João Mineiro no Rimas e Batidas.
Em entrevista, os músicos e compositores Brenda Corijn (voz), Siebe Chau (guitarra) e Jolan Decaestecker (electrónica) — que formam um quarteto com Bert Peyffers (percussão) — falam sobre o novo LP, a ligação ao português e as alterações no panorama global que os levaram a explorar uma música assente na nossa língua.
Brenda, comecemos pela língua: apesar das tuas raízes, porque é que escolheste escrever a maior parte das letras dos Ão em português?
[Brenda Corijn] Bem, esta banda começou com dois de nós. Depois, o Siebe pediu-me para me juntar como support act a outra banda em que ele estava. Íamos fazer uns covers de clássicos brasileiros, o Siebe está muito por dentro da música latino-americana… Era para ser uma coisa de uma única vez, mas apareceram mais pessoas, gostaram muito, e houve ofertas e organicamente continuámos a fazê-lo. Sozinha, eu cantava sobretudo em inglês. Mas num dia, ele estava a tocar guitarra e eu escrevi uma coisa em português. Pedi-lhe para deixar a sala e gravei na sua loop station. “Ok, podes ouvir quando quiseres e se não gostares ou se não achares que isto é alguma coisa, nunca mais falamos disto”. E pareceu-me seguro fazê-lo porque era em português, para mim é como uma língua secreta na Bélgica. É a forma como consigo ser mais honesta, porque parece que ninguém está a ouvir. E mesmo agora, quando estamos os quatro a tocar, sinto-me mais segura em português — mesmo que o meu português seja muito intuitivo. Nunca tive aulas, embora tenha feito um Erasmus no Porto em 2020, durante seis meses. E depois tive de ler muito em português, portanto é uma língua muito intuitiva para mim. Cometo erros, mas — quando falo sobre isso com, por exemplo, a minha sobrinha — até gosto dos erros que cometo porque de certa forma fazem sentido. É daí que vem o português.
E o português tem muitas variações, tu tens raízes moçambicanas, é uma língua muito viva e em mutação. Pode haver erros, mas nesse sentido não existe um português certo ou errado, diria.
[Brenda Corijn] Mesmo agora, sinto que o meu português está sempre a evoluir. Porque também fui ao Brasil, tenho amigos brasileiros. E na Bélgica há muitas pessoas que falam espanhol, como a minha mãe e o grupo de amigas dela, que são maioritariamente espanholas ou da Colômbia. Sinto que isso tem influência na minha forma de falar ou escrever. Por exemplo, como [a palavra] “desnuda”, a minha sobrinha diz que é mais algo das pessoas que falam espanhol… Como dizes, é uma língua muito viva, o que gosto. E também tem muita abertura para interpretações.
E é interessante que vocês também descrevam a música da banda como “saudade”. Porquê?
[Brenda Corijn] Porque acho que é mais difícil colocar um género em vez disso. É mais fácil ligá-lo ao sentimento. Sentimos que a nostalgia e a saudade estão muito presentes nas canções, nas ambiências. Por isso é que “saudade” é o que mais se aproxima do nosso som.
E falando deste disco em particular, desta figura da Malandra que percorre o álbum, ele foi cuidadosamente planeado? Ou surgiu de forma mais orgânica, enquanto construíam temas para um segundo trabalho?
[Brenda Corijn] Acho que foi mais organicamente, porque a faixa-título “Malandra” só surgiu a meio do processo de composição. Só quando já tínhamos quase todas as canções é que tive essa sensação: gosto mesmo da ideia de ter isto como título do álbum. Mas tens de conhecer todas as canções incluídas para saber se resulta ou não. E depois fiquei muito feliz por ter resultado. Para mim, a Malandra é alguém que é muito honesta consigo própria e com o mundo, porque é muito corajosa. E essa dureza e honestidade estão presentes em todas as canções. Portanto, encaixa mesmo com as letras e a vibração das canções, que são muito dinâmicas e brincalhonas. E pensámos os quatro: tem de ser Malandra.
Há alguma história ou explicação sobre o artwork, a intrigante capa de Malandra?
[Siebe Chau] Bem, eu estava na biblioteca a ver fotolivros e encontrei esta imagem. Não foi logo do género: “Vamos escolher esta”. Mas ela ficou connosco. É um pouco ambígua: é um lobo? É um cão? Uma raposa? Não é muito claro o que é. É uma espécie de criatura albina neste cenário, sabes… Ao mesmo tempo tem meio que uma cara a rir, mas também parece um pouco perigosa. Só mais tarde percebemos: “Bem, esta imagem que ficou connosco é realmente a representação do que a Malandra deveria ser”.
[Brenda Corijn] Como um animal espiritual ou personificação da Malandra. E adorámos tanto a imagem. Foi daí que surgiu.
Talvez não tenham pensado nisto, mas em Portugal certamente que essa associação é mais natural: o nome da vossa banda, Ão, é como nós imitamos o ladrar de um cão.
[Brenda Corijn] Nem sequer sabia disso! É engraçado porque agora até estamos a implementar sons assim ao vivo. Há alguns sons também, como na “Orgulho”, em que tens a cuíca, que faz esse tipo de som e depois, ao vivo, talvez tenhas visto algumas imagens dos nossos concertos onde há pêlos pendurados em diferentes sítios. Portanto, a coisa do cão está a espalhar-se no merchandising e nas actuações ao vivo.
E porque escolheram este nome igualmente enigmático para a banda?
[Brenda Corijn] Estávamos a pensar num nome e tínhamos diferentes opções, em inglês ou português… Mas não parecia correcto ter um nome em inglês, porque depois seria estranho ter tantas canções em português. Mas também é estranho escolher um nome português… tinha de ser algo entre os dois. E depois a vogal fez mais sentido, porque não tem nenhum significado, mas dá uma pista em direcção à língua portuguesa. É o tipo de coisa em que o sentimento que colocas no som dá significado àquilo que é. Pode ser uma pergunta, ou não, gostámos dessa ambiguidade, dessa abertura para o nome da banda. Mas também é uma dor de cabeça. Escrevem mal em todo o lado e na Bélgica não conseguem pronunciar. Já foi pronunciado de tantas maneiras diferentes [risos].
E falavam da forma como Malandra se tornou o título. Mas qual dirias que foi o ponto de partida para este disco? Houve uma abordagem específica diferente que já sabiam que queriam trazer desta vez? O processo criativo foi distinto do anterior?
[Jolan Decaestecker] Bem, a primeira canção que começámos a escrever foi a “Me Condena”, a faixa de abertura do disco. Pareceu muito acertado começar o disco com esta faixa. E acho que tínhamos a ideia de tocar e gravar muito juntos. Há algumas faixas, como a “Sorte” ou a “Cinza”, que foram tocadas ao vivo juntos na gravação. No primeiro dia em que começámos a escrever, toda a gente, excepto a Brenda, ficou muito doente. Então começámos a ter ideias e toda a gente gravou algo em separado. Tínhamos esta pen USB que passávamos uns aos outros, e combinámos todas essas ideias numa grande colagem. Portanto, foi mais ou menos assim que compusemos o disco. E foi bastante semelhante com o Ao Mar, esse processo. Mas a questão é que não temos realmente uma única abordagem de composição. É sempre um processo diferente. Portanto, nesse sentido, não temos uma estratégia real ou algo do género.
[Brenda Corijn] Acho que o que é muito importante para nós, e talvez difira de outras bandas… Quer dizer, na verdade não sei, é a primeira banda em que estou. Mas os quatro compomos juntos. E acho que o que é importante ao compor é que cada um possa ter tempo sozinho com a música. Isso acontece com a pen USB ou com ficheiros num Google Drive. Precisamos de tempo sozinhos porque é muito pessoal. E acho que para cometer erros e criar algo próximo de ti próprio, tens de ter tempo sozinho com a música. Isso é muito importante para o que fazemos. Alguns pedaços começam com uma progressão de guitarra e isso normalmente é feito sozinho. E depois tens muito medo e entregas aos outros. E toda a gente tem de estar aberta a ouvir. E se dás a ideia a Ão, tens de estar aberto a que mude completamente. Porque cada ideia que alguém tem, levamo-la a sério. E é um processo lento trabalhar com essa ideia, e ela torna-se sempre noutra coisa. A ideia nunca é a ideia. Torna-se outra coisa.
E tiveram conversas antes da criação sobre o que este disco deveria ser? Ou não, deixaram apenas a fluidez e a criatividade surgirem de forma orgânica? Vão acrescentando coisas e o processo simplesmente acontece?
[Brenda Corijn] Acho que antes tivemos um momento em que os quatro estávamos apenas a imaginar e a sonhar. Acho que isso também é muito importante. E abrir tudo, tipo: “O que é que queremos de diferente? O que te desperta curiosidade?” E depois colocar isso em prática. Fizemos isso.
[Jolan Decaestecker] Mas também é como se a conversa acontecesse durante o processo. “Ah, ontem vi este filme, tens de ver esta cena, é muito bonita”. “Tenho esta sensação para esta canção”, ou “esta bridge tem de soar como o Inferno. Como vamos fazê-lo?” Tem a ver com imaginação, mas também com o processo de “ouviste aquele disco?” Portanto, vais roubando ideias, mas falhas ao copiá-las muito bem. E isso é muito bonito.
Tornam-se vossas, claro. E o vosso som tem muitas referências e camadas distintas. Parece que a vossa paleta de opções é muito ampla. Imagino que isso venha, naturalmente, das vossas experiências pessoais e dos vossos percursos como músicos. Mas imagino que escrever música nova para vocês possa ser desafiante. E ao mesmo tempo deve ajudar, porque têm sempre diferentes formas de resolver uma canção. É fácil nesse sentido, porque têm tantas opções? Ou torna-se desafiante tomar decisões?
[Brenda Corijn] Acho que é como dizes, é ambos. Porque, quando compões com quatro pessoas, tens muitas opiniões. E às vezes torna-se mais fácil, porque podes tomar uma decisão muito rapidamente, porque alguém tem uma opinião muito forte. Mas às vezes entra em conflito. Tivemos uma conversa sobre isto há dias, que sempre que três pessoas querem algo e uma quer outra coisa, então a solução não é nenhuma dessas opções. Mas temos de procurar outra coisa, porque então a decisão certa não está entre essas duas opções. Torna-se desafiante e às vezes é muito difícil.
E também têm a abordagem de misturar sons mais tradicionais com sons mais digitais, electrónicos, contemporâneos. E há diferentes tipos de artistas a fazer isso. É um equilíbrio importante para vocês, quando estão a criar canções, entre esses dois tipos de sensações?
[Siebe Chau] Acho que é importante, mas nunca é o objectivo, penso eu. Porque todos viemos de sítios diferentes, é inevitável que isso aconteça.
[Brenda Corijn] É o amor por isso.
[Siebe Chau] Acho também que, com a língua, sendo português ou inglês, isso também faz muito pelo equilíbrio entre estilos mais tradicionais e electrónicos. É engraçado o que a língua faz. Se for música tradicional e vozes em inglês, por exemplo, obténs algo muito foleiro. Com o português, há mais coisas que são possíveis.
[Brenda Corijn] Também porque eles não entendem [risos]. Estão a aprender português com o Duolingo.
A questão da língua também é interessante no sentido em que, talvez nos anos 90 não houvesse uma banda da Bélgica a cantar em português, mesmo que a vocalista e letrista tivesse essas origens. E também digo isto sobre a música portuguesa. Havia muitas bandas portuguesas a cantar em inglês, e agora quase ninguém canta em inglês. Acho que é uma mudança que está a acontecer na Europa e no mundo em geral, na música contemporânea. No passado, talvez cantar em português fosse visto como algo mais desafiante para chegar ao público. E agora, e vocês são prova disso, não têm tanto essa preocupação ou esse obstáculo.
[Brenda Corijn] Também fiquei surpreendida com a forma como os belgas, para começar, aceitaram o português.
[Jolan Decaestecker] Acho que até a nossa comitiva, como a nossa editora, nos primeiros tempos, estavam do género: “Isto é muito estranho, devemos fazê-lo? Gostamos da música, mas não há nada assim”. Portanto, estavam um pouco receosos com a reacção das pessoas, mas o público reagiu bastante bem. Portanto, estamos muito felizes por ver que isso acontece na Bélgica, mas também fora, pela Europa. É realmente uma honra para nós.
[Brenda Corijn] Acho muito especial que as canções falem por si, mesmo sem a compreensão concreta das letras. Fiquei muito emocionada com o artigo do Rimas e Batidas que saiu [crítica de João Mineiro], porque foi a primeira vez que alguém entrou tão profundamente nas nossas letras. Emocionou-me muito ter essa aceitação também de pessoas de língua portuguesa que entendem essa outra camada da música. Portanto, sim, estamos muito curiosos em relação a isso. Ontem [na segunda semana de Março] tocámos em Viena, hoje vamos para Berlim, e há sempre algumas pessoas que falam português no público, mas nunca o público inteiro. Portanto, estamos muito curiosos [com os concertos que irão acontecer em Portugal]. Sempre que vamos a Portugal, é uma experiência muito intensa e continuamos muito curiosos. Como é que isso nos vai transformar?
[Siebe Chau] Com certeza. O mundo é uma multiplicidade e acho que as pessoas começam a ver isso. Com o Bad Bunny no Super Bowl… Na Bélgica, claro, temos o neerlandês e o francês. Há muitas pessoas com origens diferentes, que falam diferentes línguas, de diferentes raízes. Temos uma banda belga que canta em japonês, há uma banda ítalo-belga. Portanto, acho que há uma nova vaga com outras línguas e, através disso, também permite experimentar géneros diferentes, porque, como falávamos, se fizeres tudo em inglês isso também te limita e limita a forma como a música pode soar. Então, acho que através disto acabas por chegar a novos sons e a novos géneros. Estou muito feliz por isso.
[Brenda Corijn] Também é muito engraçado que o álbum [LUX] tenha saído alguns meses antes do nosso e, depois, nas críticas, era “eles ouviram definitivamente ROSALÍA”, o que nem sequer era possível, porque o nosso disco já estava terminado. Mas até a nossa equipa de management diz: espero que isto tenha impacto no mundo e na abertura a outras línguas e misturas, com a ROSALÍA a cantar em línguas que não fala, até numa que ninguém fala como o latim… Esperamos que isso tenha um impacto. Vamos construir por cima disso, sobretudo agora. Acho que é muito importante que na música possamos fazer essas afirmações.