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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 24/02/2026

O pianista inicia uma série de novas atuações esta sexta-feira.

António Pinho Vargas: “Para quem há dois anos pensava que nunca mais ia tocar, não é nada mau”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 24/02/2026

As Folhas Novas Mudam de Cor é o titulo de um álbum de António Pinho Vargas, editado em 1987 e que agora nomeia e inspira uma homenagem ao compositor portuense em 2026. Primeiro, já esta sexta-feira no Oeiras Jazz a 27 de Fevereiro (os bilhetes já estão esgotados), mas já com outra data confirmada: 11 Março no Funchal. Outras datas serão oportunamente divulgadas.

“Normalmente, os grupos são feitos pelos músicos. Aqui, neste caso, o grupo foi construído pela Márcia Lessa.” disse-nos Mário Barreiros, que é a ponte entre o passado e o presente neste quarteto composto também pelo saxofonista José Soares, o pianista Miguel Meirinhos e o contrabaixista Hugo Carvalhais. Reunindo, desta forma, quatro músicos que nunca tinham tocado em conjunto. 

Esta ideia surge pela mão de Márcia Lessa — da agência Clave na Mão que, com o Múnicipio de Oeiras, realiza este festival — que se reuniu com Pinho Vargas em Lisboa. Em entrevista ao Rimas e Batidas, o pianista recordou esse momento: “Encontrámo-nos os três, eu o Sérgio e a Márcia, nos jardins da Gulbenkian, de onde eu tenho imensas recordações. Ele já sabia que eu não podia tocar com muito barulho à volta. E pergunta-me se eu estaria aberto para participar, tocando três músicas no fim. A seguir a um quarteto de jazz de músicos mais novos”. 

Nessa conversa nos jardins da Gulbenkian, no final do último verão, Pinho Vargas ouviu-os dizer: “’Sabe António, é que nós conhecemos a sua música desde crianças. Os nossos pais compravam e tinham os discos, portanto, crescemos a ouvir a sua música. E achamos que aquela música tem que ser tocada outra vez — este é o núcleo da proposta.’ Eu disse que aceitava a proposta mas que não escolhia os músicos. Não quis essa responsabilidade.” E continua: “Portanto, eles escolheram. Inclusivamente o Mário Barreiros. Eu só soube depois. Claro que aceitei o Mário como aceitei os outros. Dois conhecia de nome. Sabe, nos últimos dois anos eu não pude assistir a nenhum concerto de jazz. Rock ainda menos. Porque não aguento, é tão simples quanto isso. Mesmo tocar piano tem que ser com o protetor de ouvidos.”

António Pinho Vargas vive, desde 2018, com a doença de Ménière, que o afastou da música ao vivo, e não só, durante dois anos. “Já tinham passado os dois anos infernais e já tinha ido tocar a Osaka. De repente, achei que poderia voltar a tocar.” É quase tão difícil não nos recordarmos de Beethoven, como resistirmos à tentação de esperar que Pinho Vargas regresse como dantes ao palco. “Infelizmente, não posso tocar com o quarteto. Claro que a Márcia me disse: ‘Quem sabe se o António não pode depois subir ao palco e tocar piano a quatro mãos’. Ao qual respondi: ‘Márcia, não nos podemos esquecer da razão que leva a isso. Eu não posso tocar em quarteto.’ Além disso, a minha vida é, há vários anos, concentrada na composição.”

Mário Barreiros, que participou na gravação dos primeiros álbuns de Pinho Vargas e tocou durante uma década com o quarteto original, revela a pertinência da música do compositor: “São as músicas do Pinho. Estamos a revisitar aquele reportório que está pensado há muito tempo. Há uns dez anos tivemos marcados a Casa da Musica e o CCB; depois, por várias razões, nunca se fez. Mas interesse sempre houve porque a música é boa. No anos 80 enchia as salas, portanto a música tem todo o interesse em aparecer outra vez. A ideia é engraçada. Tem o título de um disco do Pinho, eu sou o elo com o antigamente, mas depois são três belíssimos músicos da nova geração que vão reinterpretar aquilo.”

O concerto contará com sete temas reinterpretados pelo quarteto. “No final, entro eu para tocar três músicas em piano solo. Acho que já sei quais são. Eu tenho muito por onde escolher, mas tenho que tocar aquelas que me identificam mais. Quer dizer, que as pessoas reconhecem e dizem: ‘Esta é do Pinho Vargas’. Não posso tocar ‘Vilas Morenas’, mas eles vão tocar,” atira o pianista. 

O que era para ser um concerto de homenagem único para o festival, já se multiplicou pelo menos por mais cinco com o quarteto: “Esta ideia apareceu assim. Neste momento, traduz-se em mais cinco concertos em que eu toco no fim. E depois já apareceu mais um em que não posso tocar porque estou nos Açores. E outro em que eu escolhi também não tocar.” 

No horizonte está também uma série de apresentações em piano solo fora das grandes cidades. É, pelo menos, essa a vontade de Pinho Vargas. “Ao mesmo tempo, eu disse que gostaria de experimentar fazer em sítios que não Lisboa ou Porto, alguns concertos de piano solo para me pôr à prova. Cinco com o quarteto e três de piano solo, ou seja, são oito concertos. Para quem há dois anos pensava que nunca mais ia tocar, não é nada mau. Agora, eu tenho que fazer uma avaliação no fim. Da qualidade do que faço, do meu prazer e da maneira como sou recebido pelas pessoas que, em geral, é maravilhosamente. No Coliseu foi maravilhosamente.”

O compositor de temas como “A Dança dos Pássaros” e “Tom Waits” não quer, para já, pensar em novos álbuns e concertos: “Eu hesito num álbum comigo a tocar piano solo. Ou com o José Nogueira, hesito. Aliás, vou hoje falar com o José para lhe dizer que, se calhar, em 2027, se a saúde ajudar, poderemos fazer um ou dois concertos em salas maiores, se a minha avaliação no final deste ano for positiva. Imaginemos que eu concluo que estou farto. Ou que estes concertos dão cabo da minha cabeça e não quero tocar mais. Pode acontecer. O Glen Gould deixou de fazer concertos ao vivo com 32 anos. E, no entanto, gravou até à hora da morte. Não sei exatamente porquê. A minha antiga colega e professora, Madalena Soveral, dizia que ele deixou de tocar porque já não aguentava fazer concertos ao vivo. Porque um pianista tocar música clássica num concerto de piano solo tem que ser perfeito. O ponto de partida é a perfeição. O grau de exigência tornou-se tão elevado que os gajos estão todos meio doidos, digamos assim. E o Glen Gould, antes que ficasse doido, parou de fazer concertos ao vivo. Era um pianista extraordinário, um dos melhores do mundo e, no entanto, a partir daí, gravou discos. Percebeu que tinha uma ligação com a gravação. E, neste momento, podemos todos ir ao YouTube ver ele tocar as ‘Variações de Goldberg’ em 1980.” 

Fica a reflexão em jeito de promessa de futuro: “A partir dos 55/60 anos eu pensei: ‘Ok, tu não podes conhecer tudo. Tu não tens tempo para ouvir tudo. Tens que escolher e dedicar-te àquilo que verdadeiramente te interessa.’ E só a surpresa, depois da doença, de poder voltar a tocar é que veio alterar um pouquinho isto. Mas sabe, não preciso de ir ouvir um disco do Keith Jarret. Não preciso, nem vou ouvir. Tenho as minhas memórias do que conheci, do que estudei há quarenta anos. Tudo isso está lá guardado num sítio, mas agora sou eu que toco,” disse-nos o compositor e pianista quando nos recebeu na sua casa, em Vila Nova de Gaia, numa tarde chuvosa de Inverno.


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