Angel Bat Dawid: “Ser-se bem-sucedido no inferno é sinónimo de verdadeira liberdade?”

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Leslie Frempong

Já passaram os anos em que gravávamos a banda sonora das nossas vidas em cassetes. O ritual tornou-se obsoleto, mas a sua magia ainda hoje capta a atenção de pequena lojas de discos e de coleccionadores de arte, que tentam ao máximo dar uma nova oportunidade a esta prática. Dawid é uma “alma antiga”, que vai buscar ao passado uma nova e refrescante interpretação de música. Em The Oracle, o álbum de estreia oficial, a fórmula é precisamente revivalista: um opus espiritual que atesta a força e a determinação da clarinetista em superar as dores do passado e os receios do futuro.

A cassete formula-se assim como um elemento crucial: uma ponte temporal que liga as duas margens do pessoal e do universal ao mesmo tempo. Dawid gravou este disco principalmente a partir de fragmentos gravados no seu telemóvel, muitas vezes nos bastidores dos próprios concertos, enquanto viajava pelo mundo. A execução é cristalina, e em vez de soarem a demos desajeitadas, sem propósito e rumo, são gravações espectrais recheadas de reverberação, que evocam lições do aquém e do além — do consistente ao efémero. Para ela, a experiência humana deve ser universalmente partilhada como um exercício holístico, que nos interliga enquanto irmãos a um mesmo bem único.

Há, no entanto, um lado obscuro que ganha notoriedade quando posto em contraluz: um lado sereno e circunspecto que espalha o peso de uma eternidade em repressão; a experiência afro-americana é posta sob holofotes nas oito faixas deste trabalho. “Destination” e “What Shall I Tell My Children Who Are Black” são perfeitos exemplos de negligência numérica, discriminação racial e inferioridade intelectual e emocional. A letra desta última música é a adaptação de um poema de 1963, por Margaret Taylor-Burroughs, e a sua relevância foi tão preponderante quando foi originalmente escrita, como nas mais pequenas periferias dos estados sulistas americanos nos dias de hoje: “What shall I tell my dear one, fruit of my womb/ Of how beautiful they are when everywhere they turn/ They are faced with abhorrence of everything that is black/ Villains are black with black hearts”.

Em termos técnicos, a musicalidade é impetuosa, tal e qual como o ambiente histórico e social que este álbum reflecte. O clarinete de Angel não excede limites, mas não fica indócil. “Impepho” é uma manifestação de clarinete e clarinete baixo que soa a um “On The Corner” de Miles Davis, ou até mesmo “Far Cry” de Eric Dolphy, mas tocados com uma sensibilidade mais educada e precisa. Quando é devidamente isolada, a voz dela não corresponde ao registo de um vocalista de jazz ortodoxo, e muitas vezes dá-nos efeitos teatrais, comprimidos num ambiente quase melodramático, que podem variar entre mezzo-sopranos, como em “We Are Starzz”, ou como um pastor gospel, na faixa que dá título a este trabalho.

O espírito de Angel sempre foi de sonhar mais alto, mesmo quando a realidade o puxa com firmeza até à terra. Aos 22 anos, a artista foi diagnosticada com um tumor cerebral e precisou urgentemente de cirurgia. Mais tarde, teve de desistir da Moody Bible Institute, uma universidade cristã. Aos 27, faleceu a sua irmã mais velha. A todas estas desgraças, a música sempre foi “o amigo mais próximo” e a sua “melhor relação”. Aos 39 anos, este primeiro álbum mostra-se como a cura dos males de um passado que não a enfriaram: a visão dela continua a ser futurista no seu tom, mas ligada a uma ideia profundamente espiritual e antiga do que a música pode alcançar.

O Rimas e Batidas falou com Angel Bat Dawid sobre como usar a música para curar feridas antigas, a essência e a riqueza da música afro-americana e a importância das nossas raízes quando criamos arte.



Ao ouvir The Oracle, parece que se entra numa viagem introspectiva. A mensagem é universal porque vem do teu meio mais pessoal. Foi um processo curativo?

Sim, bastante. As músicas deste álbum são uma representação do meu ser mais verdadeiro. Cada canção tem a sua própria história e vibração que só me pertence a mim. Esperava que o álbum inspirasse e abençoasse as pessoas, até porque essa deve ser a função principal da música: ser a força curativa do universo.

Há claramente uma grande discussão sobre a experiência e história afro-americana neste álbum. Começou com experiências próprias?

Eu sou uma mulher negra. Esta é a minha experiência 24/7. Não há volta a dar e não posso simplesmente desligar e voltar a ligar a cor de minha pele. Por isso, a minha música reflectirá sempre a minha blackness e toda a sua dimensão, realidade e diferentes percepções.

Como é ser uma mulher afro-americana em 2019?

Tal e qual como era há 400 anos. Basicamente é o conjunto de traumas psicológicos e mentais irresolutos. Mas não me quero exprimir mal: têm existido imensos progressos, claro, mas será que tal progresso no inferno é realmente progresso? Ser-se bem-sucedido no inferno é sinónimo de verdadeira liberdade? Há uma linha ténue entre o céu e o inferno. E eu vou sempre escolher o céu. Vou sempre escolher a verdade e liberdade. É por isso que toco música livremente.

Como se consegue incorporar tudo isso na tua música?

Como disse, a música que crio vem da minha experiência como uma mulher negra e americana. Todos os cenários que crio e as interacções que tenho com pessoas e com certos sítios vêm de um ponto de vista afrológico. Para mim é inevitável, não consigo ver a minha vida de outra maneira, e também não quero.

Há um grande paralelismo entre o arcano e o moderno neste álbum. Tais noções tornaram-se firmes durante o processo de gravação?

Os sons antigos toco simplesmente; saem-me de uma maneira natural e limito-me a canalizar os espíritos dos mais antigos naquilo que faço. Eles falam através dos instrumentos. E nós divertimo-nos grande parte das vezes quando tocamos com a banda toda de Chicago. Por isso, compilar todo este processo de compor e gravar também envolve um ritual profundamente espiritual. Comigo tenho sempre os meus LPs, os meus livros, e todas as minhas disciplinas espirituais, que estão sempre na base da minha criatividade.

Então, a tua herança também é um aspecto envolvente…

Sim, sem dúvida. A minha herança espiritual é a minha identidade e influencia tudo o que faço.

Viajaste pelo mundo enquanto fazias este álbum e passaste por vários e diferentes sítios. Até que ponto influenciaram o teu processo criativo?

Eu adoro viajar, penso que já é algo familiar. Eu e a minha família vivemos no Quénia durante quatro anos quando era mais pequena. O meu pai também adorava viajar e passou-nos um pouco esse hábito, por isso a ideia de não ter um lugar fixo durante um ano nunca me fez confusão. É claro que durante estas viagens, a música sempre teve um papel crucial e era possivelmente a melhor parte das viagens mais longas. O meu pai passava o tempo todo a tocar CDs, mixtapes, tudo o que possas imaginar. E eu tinha sempre comigo a minha tuba para tentar replicar o som que ouvia — como se fosse uma arqueóloga sónica a escavar as vibrações de uma música.

Qual foi o teu primeiro contacto com música?

Eu cresci num ambiente muito cultural, estava sempre a ver filmes, a ler livros e a ouvir música e sinto-me grata por ter sido exposta a todas estas manifestações artísticas. O meu pai era um pastor, por isso, mesmo sabendo que tinha uma educação um pouco severa, sempre tive acesso a todo este universo. Em minha casa, acordávamos com música e íamos para a cama com música. Víamos filmes juntos enquanto família e passávamos dias a falar deles. Quando era pequena, os musicais foram muito importantes para mim: personagens como a Annie marcaram-me muito e o facto de ver crianças da minha idade no grande ecrã inspirou-me para seguir o mesmo caminho. Eu queria ser a Annie. E Amadeus, também. Se estas crianças conseguiam interpretar estas óptimas canções, então eu queria descobrir como. Rapidamente tornei-me viciada em teatro musical e em dança. Não te sei explicar muito bem, música apenas era natural para mim — e muito divertida ao mesmo tempo.

Seguindo este mote mais familiar, qual é a história por detrás de “Capetown”?

Tinha o desejo de visitar a África do Sul e em 2018 fui lá assim numa viagem nada planeada. O meu amigo Viktor Le, que faz parte da minha banda, tinha planos para tal e decidiu convidar-me. Nós não conhecíamos ninguém, por isso entrei em contacto com outra grande amiga nossa, a escritora Tej Adelye, que vivia no Reino Unido, mas conhecia várias pessoas na África do Sul. Quando chegámos a Capetown depois de uma viagem de loucos — a sério, parecia uma cena do Indiana Jones –, conheci o Asher num pequeno café no centro da cidade e rapidamente ficámos amigos: ambos partilhávamos interesses por free jazz e por música no geral. Ele convidou-me para tocarmos um pouco no apartamento dele e o resultado final é o que está no álbum: sem edição, sem cortes nem nada. Conhecia-o há uma hora e rapidamente tivemos esta enorme ligação devido à música. Para mim, “Capetown” é um momento importante, porque queria que as pessoas se levantassem e que tocassem com os seus amigos. Queria que partilhassem este momento tão lindo e que criasse algo igualmente bonito.

Que planos tens para 2019?

É fácil, viajar ainda mais, compor e espalhar amor e paz com a minha música. Ser feliz, claro, e viver em abundância e gratidão.


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