Porque andam todos a rimar como os Migos?


[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

O canal Vox prossegue com a sua série de didácticos vídeos Earworm (referência ao que Miguel Esteves Cardoso chamou um dia “otoverme”, aqueles hits irritantes que se instalam na nossa cabeça e de que não nos conseguimos livrar) com um excelente vídeo que procura responder à óbvia pergunta “porque anda meio mundo a rimar como os Migos?”.

O vídeo, produzido por Estelle Caswell – que já foi distinguida com um Emmy por este tipo de trabalhos – é ultra didáctico e desmonta a relação do hip hop com os “triplets” ou, em português, “tercinas”, quando, e em termos muito simplistas, se usam três notas, simbolicamente representadas de modo semelhante à colcheia, para ocupar no tempo o espaço que normalmente seria de duas: “Por exemplo, quando num tempo de um compasso quaternário, em vez de duas colcheias, colocamos três, todas com a mesma duração, temos uma tercina. Nela, cada colcheia equivale a um terço de tempo. A tercina é representada por um ‘3’, situado em cima das notas”, para citar directamente a entrada de Wikipedia.

Ora bem, ao contrário do que se pensa hoje em dia em relação a este divisivo estilo rimático, os “triplets” nos flows de rap não são um exclusivo do nosso tempo e já gente como os Public Enemy ou Notorious B.I.G., como Estelle Caswell faz questão de sublinhar, recorria a essa complexa técnica musical na entrega das suas rimas.

A produtora mostra também como funciona esta estruturação musical ao nível do beat, como a gestão das tarolas dentro dos compassos é feita naquilo que hoje se reconhece como trap.

Tal como muitas vezes vemos grandes jogadores de futebol serem elogiados pelas suas noções avançadas mas intuitivas de matemática – rematar para um determinado ângulo da baliza, com uma força particular, num momento preciso requer, mesmo que o jogador não o saiba, uma capacidade instantânea de realizar complexos cálculos, não é, claro, apenas instinto – também muitos destes rappers e produtores aplicam, mesmo não o sabendo, complexas noções de teoria musical nas suas criações.

Na fase em que actualmente vivemos, com artistas como Future ou Migos a dominarem esta nova estética, ninguém parece estar imune, como mostra o vídeo da Vox – “How the triplet flow took over rap” – e mesmo artistas como Kendrick Lamar ou Chance The Rapper têm adoptado o estilo nalguns dos seus maiores hits.

E tudo parece, nesta fase moderna pelo menos, ter começado em “Versace”, o quase inexplicavelmente aditivo “hit” que colocou os Migos a sério no mapa. Um verdadeiro “earworm” ou “otoverme”.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu