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Fotografia: Direitos Reservados

Tearless, o segundo longa-duração do intrépido duo, foi editado em Junho.

Amnesia Scanner: “Este álbum é como um aceitar da situação a que chegámos”

Fotografia: Direitos Reservados

Passaram dois anos desde Another Life e os Amnesia Scanner, duo de produtores sediado em Berlim, regressam com mais uma visão do lado do lá do espelho, onde vemos reflectido os nossos tempos. Tearless, selado pela PAN de sempre, existe no mesmo universo hiperligado, sempre receptivo, sobre-estimulado e excessivo em que a dupla se mexe desde que em meados de 2014 começou a partilhar as suas primeiras incursões auditivas. As tónicas mantêm-se, mas os acordes são sempre diferentes, assim como os andamentos e motivos rítmicos a que recorrem para tecer as suas composições; preserva-se, contudo, o tratamento de filtragem pelo qual os produtores passam as suas criações, de canção a peça, até chegar a algo que possa ser cunhado como Amnesia Scanner.

Em conversa com o Rimas e Batidas, a dupla é peremptória em relação ao sentimento que grassa no disco: o de tristeza, em oposição à raiva do seu sucessor. De facto, se em Another Life podíamos ouvir Pan Daijing gritar “all around you it’s just chaos, chaos, chaos”, ora em mandarim, ora em inglês, neste ouvimos o desalento de Lalita, de LYZZA, nas vozes derretidas em glitches de Oracle (a presença-voz que ganhou vida no álbum anterior), ou no desespero mais hardcore dos Code Orange (que antes foram Kids, antes de passarem da editora punk Deathwish Inc. para o colosso dos sons pesados que é a Roadrunner records).

“Este álbum está muito directamente ligado ao Another Life. É a continuação das mesmas sessões, mas no geral tem uma mudança de humores muito clara”, explica Ville Haimala, um dos produtores no comando deste mod da internet-hate-machine que são os Amnesia Scanner. “Tearless é mais pesaroso e devastado enquanto disco. Se o anterior estava cheio de raiva e frustrações, este álbum é como um aceitar da situação a que chegámos.”

Esta seria, talvez, a interpretação mais óbvia de um conceito que, em todas as suas multiplicações estéticas, se desdobra em sensações, ideias e ilações. Ainda que a coerência que flui de música em música ao longo de toda a existência de Amnesia Scanner, sentida no brilho dos sons, na saturação das texturas e no elevar a um ponto que namora o ridículo com um desprezo quase adolescente, sorvendo-o sem se tornar nele, se mantenha neste disco, nunca esta serviu para transmitir mensagens claras. “O principal, para nós, é a de que não temos uma interpretação que achamos desejável por parte da nossa audiência ou qualquer outra pessoa que encontre o que fazemos. Queremos que cada um tenho a liberdade para tirar o que quiser da nossa música. Colocamos as coisas na mesa e vemos o que acontece”, acrescenta Haimala.

O que acontece na sua música declina-se nos canais todos de um projecto que, em génese, se identifica como “net-native”, na concepção e na expressão. Segundo Martti Kalliala, “a música é, claro, núcleo, mas há outros aspectos que têm quase a mesma importância. É um equívoco comum achar que Amnesia Scanner é um projecto conceptual, no sentido em que procuramos comunicar ou ilustrar ideias específicas. Não funcionamos dessa maneira. O nosso processo é muito intuitivo e com uma orientação estética”. Era, de resto, um peso que o projecto carregou inicial, de que havia uma aura futurista em volta do que estavam a fazer, um exercício de delinear direcções novas que serve enquanto narrativa para alimentar a qualidade do trabalho da dupla, mas que a descontextualiza dos seus colaboradores, dos seus pares. “Muito do que nós fazemos passa por canalizar uma certa experiência de viver no presente, ou escolher certos aspecto deste tempo e amplificá-los, saturá-los e exagerá-los.”

As temáticas de Tearless desdobram-se no sentimento geral do disco que, à semelhança do que já havia sido feito no sucessor, existe numa geografia pixelizada, em que culturas e ideias coabitam além de fronteiras humanas. Fruto de uma convivência permeável com a Babel digital que a world wide web proporciona, as músicas sucedem-se em canonizações de géneros, moldando-as e alterando-as à imagem de Amnesia Scanner e transformando-as em documentos que vivem além de motivos genéricos.

Se no single de avanço “AS Acá” se ouve a catarse de coração partido de Lalita, estendendo o código fonte da música a ritmos mais quentes, quebrados, expirando Espanha e América Latina, tal acontece em sucessão a uma colaboração envolta em negrume com Code Orange, “AS Flat”, onde as guitarras dos americanos, desesperadas, coabitam em expressão emo com sintetizadores em agonia, sempre com o growling como principal caminho para voz. O peso passa para uma ora ambiental, ora explosiva “AS Labyrinth”, onde a melodia se transforma num lamento de arquétipos death metal, que deambulam entre o arrastado e o acelerado. Antes, ouvia-se uma sobre-digitalizada “AS Too Late”, que repesca ritmos quentes, de geografias tropicais, para balançar o desespero de Oracle (“Too late to die young/ too late to be out here/ too late to stay down”), no que parece uma reacção algorítmica ao ano-catástrofe de 2020.

A surpresa com Tearless não reside, por isso, no modus operandi que sempre caracterizou os Amnesia Scanner, mas no timing do seu lançamento, no contexto em que acontece e na sucessão que representa: “escrevemos o disco antes deste caos de 2020 acontecer. O álbum tornou-se nesta profecia estranha… Nós sentíamos que a crise climática já era muito má, mas agora, com esta combinação do vírus e das imagens deplorável que se têm visto nos EUA e um pouco por todo o mundo, ficou tudo pior”, conta Haimala.


[O que nunca foi, o que nunca será]

Como com tudo o que o que parece distinto, é nos termos de comparação, ou antes na sua ausência, que se formam os arquétipos que permitem o seu entendimento. Amnesia Scanner, da mesma forma, é singular, e por isso mesmo difícil de contextualizar — o exercício certo é o oposto, o de retirar da equação o que não é AS, até que fique apenas a expressão mais elegante do que pode ser. A conversa com o Rimas e Batidas aconteceu dessa forma: a retirar ruído do discurso até que fique apenas o essencial.

Amnesia Scanner não é um projecto de Berlim — enquanto cidade com uma cultura e expressões muito específicas —, da mesma forma que não compadece de um anglocentrismo que alimenta a indústria da música e as suas cadeias de distribuição; não é um projecto conceptual, mas um exercício estético ininterrupto; não é uma experiência que seja repetível por ecrãs.

Sobre a circunstância geográfica, pouco fundamental devido ao universo composto por memes, código e caos em que existem, há uma ideia clara de que nunca foi, ou será, fruto da cidade em que habitam: “não diria que é um projecto sem lugar, mas nunca foi sobre um canal específico, ou nunca foi uma experiência berlinense. Nós nunca representámos o som da cidade”, atira Kalliala. Ou de cidade, ou circunstância alguma — facto que explica a volatilidade das suas colaborações, que abraçam o castelhano de Lalita, ou o mandarim de Pan Paijing (em “AS Chaos”, de Another Life). Haimala explica que “não se trata de nós querermos ter letras em espanhol, mas antes de não fazer sentido alguém que sempre cantou nessa língua passar a cantar em inglês. É refrescante haver outras expressões. Só não tivemos coragem para ter letras em finlandês [ri-se]”, o idioma nativo da dupla.

Esta fluidez estende-se ao próprio início das colaborações e à natureza das mesmas, particularmente orgânica: “a Lalita e os Code Oranges abordaram-nos para trabalharmos na música deles e nós sentimo-nos inspirados pela sua forma de trabalhar e pelo habilidades. As canções que daí surgiram são fruto de admiração e respeito de ambas as partes”, revela Haimala. Sobre a produtora brasileira LYZZA, a história reza diferente, mas igualmente espontânea, quando ouviram uma das suas músicas. “Senti que a sua voz ia soar bem numa música nossa.”

A constante denota-se nas identidades que pintam a variedade expressiva do disco — “não pensámos propriamente numa política de identidades. Acima de tudo, nós admiramos a arte que estas pessoas fazem”, explica Haimala, que também dá um contraponto ao valor que isto traz para o projecto: “estamos cientes de que, de alguma forma, representamos esta demografia do produtor de música electrónica genérico e não queremos, de todo, que isso esteja no centro do que fazemos. Não achamos que isso seja minimamente interessante”. Kalliala vai mais longe, contudo, quando diz que para os Amnesia Scanner é bom “dar espaço e representação a identidades que são negligenciadas, ou não tiveram acesso a essa plataforma antes.”

Também a Internet não será onde vamos encontrar os Amnesia Scanner — sim, e apesar da noção de “net-native” que pode cunhar a sua singularidade. “A música tem este poder único de transformar espaços e situações de concerto em experiência profundamente emocionais e em momentos inesquecíveis. Não acho que isto seja possível num live do Instagram”, atalha Haimala. Opinião que Kalliala complementa de imediato ao admitir que ”[acha] valioso que tenhamos esta experiência. Agora sabemos que o live streaming nunca vai substituir a experiência visceral de ouvir música num mesmo espaço com outras pessoas. É um filtro demasiado grande para ultrapassar.”

Agora que sabemos o que não é Amnesia Scanner, temos a oportunidade de tentar perceber o que são. A melhor forma, claro, e na ausência de oportunidades para o sentir num momento pleno, é o novo álbum, um grito de desespero genuíno, mas paralelo a nós. Onde nos vemos e ouvimos, mas onde não nos encontramos. Tal como na WWW, o que neles encontramos depende do quão bons formos a navegar nos lugares que criam. Os 10 de Tearless dizem-nos que vamos ficar bem (“AS U Will Be Fine”), mas também que estamos perdidos (“AS Labyrinth”). Eles, e uma versão de nós, estarão aqui. O onde e como, bem, cabe ao ouvinte defini-lo.


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