Conheceram-se há uma década, em 2016, num curso de surfistas. Deram-se a conhecer em 2021, numa performance live nas Lume Sessions, no Museu da Água da EPAL. Na recta final de 2025, a 21 de Dezembro, lançaram o álbum conjunto que é o resultado de um processo de uma mão cheia de anos a trabalhar como dupla. Respira Fundo é o disco que junta Benny Broker, referência contemporânea do rap tuga underground, ao seu Amigo Ivo — multi-instrumentista, produtor e cantor que aqui também ousou rimar.
Criativamente ligados pelas experiências espirituais e xamânicas em torno da ayahuasca, propuseram-se a compor uma viagem psicadélica que percorre um alinhamento de 19 faixas, ao longo de uma hora de música. Com uma participação de Uno, trata-se de um disco que alastra as possibilidades musicais do drunk rap e o alarga nos temas, nos sons, na abrangência de ouvidos que poderão escutar estas músicas.
Em entrevista ao Rimas e Batidas, Benny Broker e Amigo Ivo reflectem sobre o processo criativo de Respira Fundo, contam o que os uniu e revelam que agora gostavam de levar o projecto até aos palcos, numa performance igualmente envolvente.
Como é que vocês começam a trabalhar juntos?
[Amigo Ivo] Começámos porque o Benny convidou-me para tocar num concerto do Uno lá no Titanic [Sur Mer]. Ele pediu-me para tocar uma guitarrada e foi a partir daí, mas depois ficámos uns anos sem… Eh pá, sempre conectados, mas de longe a longe, não é?
[Benny Broker] É, tu depois estavas a trabalhar nos teus álbuns a solo, e eu andava a chatear-te para fazermos uma cena.
[AI] Acho que foi lá para 2019 ou 2020, tu depois estavas no Peru e foi quando começámos a falar de ayahuasca, ficámos mais interessados na cena e tudo começou.
[BB] E atrás já tinha acontecido uma coincidência bem engraçada, porque eu tinha feito aquele EP Consultório — com o Uno, o Tilt, o Rott, etc. — que saiu em 2016, o ano em que conheci o Ivo, e ele tem um EP do mesmo ano com o mesmo nome. E eu curti bué, disse-lhe que queria fazer uma cena com os beats dele, porque ele misturava uma cena clássica com algo mais electrónico e digital. Havia ali uma fusão que eu curtia e na altura fiquei com pica, curtia que fizéssemos uma cena. Ainda nos encontrámos algumas vezes, mas foi mais para surfar, o Ivo estava bué focado no álbum dele, Uma Volta ao Universo, e ele dizia: “Pá, agora não consigo pensar noutra coisa, mano, estou sempre de volta disto, deixa-me acabar isto”.
[AI] E o Benny também tinha um andamento… O pessoal normal tem aquelas noites que conta para o resto da vida — “ei, tive uma noite maluca em que aconteceu isto”. Com o Benny era quase todas as noites, era um andamento muito para a frente e eu dizia que não era para mim. Depois lá me habituei [risos].
[BB] Hoje em dia estou mais calmo, desde que fui pai e tal.
Então, mais ou menos há cinco anos, vocês começam a passar mais tempo juntos, também a nível musical. Como é que o projecto foi acontecendo?
[BB] Surgiu muito na brincadeira, só a curtir, na garagem. Até bué de improviso — este álbum tem uma componente forte de improviso, metíamos um beat e mandávamos improvisos.
[AI] Nós já nos conhecíamos há uns anos, mas posso dizer que ficámos mesmo amigos e que o conheci bem no improviso, na primeira vez que nos juntámos assim a sério, sozinhos. Estávamos lá a pôr uns beats e a improvisar e o Benny desabafou comigo, num improviso, a falar sobre a vida dele. Sinto bué que nos conhecemos a improvisar.
Tu que tens outras referências musicais, Ivo, de que forma é que imaginavas que a tua música se iria encaixar na do Benny? Porque imagino que havia várias possibilidades em cima da mesa.
[AI] Isto nem foi uma coisa pensada, a música simplesmente surgia, primeiro nos beats, depois no improviso, gravávamos, corria bem e continuou. Depois, pouco a pouco, com o passar dos anos, é que começámos a perceber por onde é que o álbum estava a ir. Tinha aquela onda psicadélica e xamã.
[BB] E acabaste por contribuir de várias maneiras. Mandas rimas, cantas, tocas, também tens lá alguns beats.
[AI] Mas não foi nada planeado. Até há pouco tempo estavam a dizer-nos que parecia que o álbum tinha gravações dos anos 2000, misturadas com gravações de agora. Realmente foi uma mistura de muitas coisas, não é? Foi saindo.
[BB] Mas acho que vale a pena reforçar a cena do improviso, porque foi mesmo o motor de arranque para muitos sons. Há um som no álbum que é todo improvisado, “A Maré”. Não foi nada escrito. E há outros sons que têm muitas dicas que foram de improviso e depois foram aproveitadas para a letra. Mas houve outros que nasceram do improviso, como a “Água da Ribeirinha”, a estrutura, a ideia, o tema…
[AI] E uma cena que me impressionou no Benny, e que aconteceu por exemplo na “A Descair para o Canto Inferior Direito”, foi que ele começou a escrever e foi ao primeiro take. Escreveu e acertou logo tudo, nunca mais gravámos esse som. E houve muitos assim. E ele tem a cena de não conseguir repetir várias vezes. Ou sai, ou então já é forçado.
Quando se juntavam nessas sessões, muitas vezes começando por improvisar, já estavam a pensar num álbum? Ou isso só apareceu mais tarde, a meio do caminho?
[BB] O álbum só começou a ganhar força depois. Tal como o Ivo tinha o álbum dele, em que ele não conseguia ver mais nada à frente, eu também estava com bué projectos para acabar. Então, depois até foi um bocado o contrário, era o Ivo sempre atrás de mim a chatear-me e ele é que depois fez a cena andar. Mas eu dizia-lhe: “Mano, agora não consigo, vou fazendo o que me sair mas tenho bué cenas a acontecer”. E depois, tanto o Ivo como eu fomos pais no meio deste processo. Então houve mesmo bué cenas e foi ir fazendo quando dava e quando as cenas se alinhavam. Depois fui ficando mais livre, quando terminei o Alpacavalagarta e o Conversa Fiada. E chegou o tempo deste álbum, cada coisa tem o seu tempo.
[AI] Quando fizemos aquela sessão no Museu da Água, demo-nos a conhecer ao pessoal e lembro-me de dizer ao Benny: “Para a semana passas cá e acabamos o álbum”. Demorou mais quatro anos [risos], depois levou muitos mais sons.
[BB] Outra parte importante do processo foi que eu enviei bué beats ao Ivo. E depois voltávamos a eles já com cenas começadas por ele e eu só tinha de completar ou entrar no barco e seguíamos por aí.
[AI] Sim, quando o Benny estava a trabalhar no Alpacavalagarta, eu pegava nos beats dele e fazia refrões, basicamente montava a estrutura… E depois ficava à espera do Benny, “grava isto ou grava aquilo”. O exemplo da “O Autista” é engraçado porque mostra um bocado a desorganização. Eu estive bué tempo a insistir: “Benny, grava lá uma rima”. Num dia de nevoeiro, lá em casa dele, ele encontrou umas letras que tinha escrito e decidimos: é esta mesmo! Fica mesmo bem. Passado uns meses, “então, ‘bora lá gravar essa letra”. “Qual é que era?” Esquecemo-nos da letra, já não sabíamos qual era, ou seja, o Benny escreveu outra.
[BB] Acabou por ser um disco com esta componente xamânica, aquelas passagens e mesmo a intro, que foi um som que fizemos numa experiência de “Shanga”. Fumámos um bocado, fizemos o beat e depois também escrevi baseado na minha experiência. Foi tudo feito na mesma tarde. É como se o álbum fosse uma viagem, uma experiência, e começa com a “Shanga”. Também tentámos reflectir isso nos vídeos, é uma experiência que vai avançando e vão acontecendo cada vez mais cenas, está tudo ligado… Um bocado como é a vida.
E a escolha do título?
[AI] Até tínhamos outros títulos em mente, mas acho que partiu de mim… Eu tinha reparado que em muitos sons dizíamos “respira fundo”. E o respirar é algo que ajuda muito nas cerimónias de ayahuasca, é algo que consegue dirigir. Então era uma parte importante, como é um álbum em que tentamos traduzir uma viagem psicadélica.
[BB] Nem é traduzir, é oferecer essa viagem.
Benny, tu que vens de um circuito underground de rap, já tinhas a vontade de explorar outras estéticas sonoras e fazeres coisas musicalmente diferentes?
[BB] Ya, até há um projecto extremamente musical, que diria que está de mãos dadas com este, que era termos uma banda. Começámos a fazer umas cenas na altura, por volta de 2020 ou até antes, antes de eu ir para França. Era o Ivo na guitarra, o Jeezas no saxofone, o André Marques que é um vizinho meu na bateria, o Uno no baixo e eu na voz, pronto, nas rimas. Depois o Ivo foi pai, esse projecto ficou em stand-by e acabámos por nos focar depois neste projecto só nós os dois com a ideia de posteriormente voltarmos a esse projecto da banda. Por isso, ya, sempre tive interesse em fazer cenas mais musicais e até gostaria de fazer mais ainda, nesse sentido de banda, porque é bué diferente do rap e sabe bem variar um bocadinho, para não ser sempre a mesma cena.
[AI] E também tenho de tirar o chapéu ao Benny porque não são todos os rappers que fazem, por exemplo, aquilo que fizemos com o Dente D’ouro…
[BB] Ah, isso foi das primeiras cenas que fizemos também. É a intro do Fruto do Sono.
[AI] Era um senhor, ali no Cercal do Alentejo, que não sabia ler nem escrever mas era poeta e escrevia canções. Fazia de cabeça. E, pronto, foi ideia do Benny irmos lá — “é um senhor velhote que tem umas músicas”. Falei com um amigo meu que toca guitarra portuguesa, o António Duarte Martins, e vamos lá ao Alentejo gravar as músicas do homem, que ele nunca gravou. Já tínhamos isso mais ou menos combinado, só que o senhor entretanto morreu e o Benny decidiu pegar na única gravação que tinha, eu acrescentei a minha guitarra, o meu amigo a guitarra portuguesa, e fizemos essa intro de homenagem. Não conheço nenhum rapper que tivesse assim a coragem de pôr um som de fado, que não era dele, como intro de um álbum. Por isso é que tenho de tirar o chapéu ao Benny, tem uma visão assim um bocado mais para a frente.
Certo, e foi uma das vossas primeiras colaborações.
[BB] A primeira mesmo foi o “Eutanásia”, ou não?
[AI] Ah, pois foi, isso foi com o Uno.
[BB] É um som que tenho com o Uno do nosso álbum AÇO 1/∞, e o Ivo tem lá um solo de guitarra.
[AI] E é engraçado porque eu nunca fui assim de rappar e comecei porque o Benny me mandava uns beats e dizia: “olha, mete aí uma guitarra”. Mas como eu estava com a pica de começar a rappar, em vez de enviar uma guitarra mandava uma rima minha. E foi assim que começou, cara podre. Um gajo tinha confiança e olha, “agora vai a rappar, queres uma guitarra mas vai a rappar” [risos].
[BB] E na “Mim do Fundo”! Nesse som, que é de um álbum que eu tenho que é o The Zintress, também há lá uma rima ou outra do Ivo. Lá está, pedi-lhe para fazer um solo, ele mandou-me uma cena maluca com umas rimas pelo meio, eu curti e ficou.
E tu vês-te, daqui para a frente, a fazeres projectos mais musicais e a puxar por esse lado? Ou queres também manter o teu registo original?
[BB] Continuo a fazer os dois, só que agora quero ter mais outlets, à falta de melhor termo, para me expressar. Mas continuo a adorar o rap clássico, beat e rimas, e estou a fazer mais projectos desses.
E sentes que estes sons, que musicalmente são diferentes, puxaram por rimas tuas um bocado diferentes do teu registo habitual?
[BB] Sim, acho que sim.
[AI] Eu insisti um bocado com o Benny, chateei-o um bocado para fugir… Queria que fossem temas mais interiores, que fugisse um bocado dos assuntos mais pesados, da droga e tudo mais.
[BB] Eu próprio já há muito que queria fugir, e estou lentamente… Mas, pronto, há que mudar a vida primeiro e isso depois reflecte-se [na escrita]. Mas sim, sempre foi algo que eu quis fazer e o Ivo puxava por mim nesse sentido, tanto ele como a música em si.
Claro, e o disco tem essa viagem mais interior e espiritual mas também não há um choque com o que tinhas feito antes. E vocês estão a planear mais projectos em conjunto, continuam a trabalhar activamente os dois?
[BB] De momento não, até porque o Ivo está a viver em Viana do Castelo, e também foi isso que quebrou a banda. Mas por mim, ya, vamos continuar a fazer música.
[AI] Sim, o processo foi super intenso, pelo menos para mim foi dos mais intensos que já tive. Foi difícil conseguir conjugar tudo, não sei se para o Benny também foi…
[BB] Foi, com a minha filha, o trabalho, o descanso, com as coisas todas da vida, mudanças de casa, viagens, estar fora…
[AI] Para mim foi mesmo duro, então agora estamos a ter assim umas férias…
[BB] “Férias”, porque nós agora queremos é tocar e apresentar isto a toda a gente que quiser ouvir.
Ia perguntar isso, porque vocês já fizeram uns concertos nos últimos meses de 2025 para antecipar o álbum. Como foi e como é a vossa performance?
[AI] É uma experiência, não é?
[BB] É um concerto em que nos podemos soltar. É uma música que… Não quer dizer que seja um ritual, mas a música é bastante ritualística, dá para um gajo viajar.
[AI] A ideia é um bocado essa, tentar fazer aquilo como se fosse uma espécie de ritual, uma experiência diferente, não é um concerto normal.
[BB] Tem esta junção de que nós gostamos no projecto, que são quase contrastes. O rap clássico underground ou como lhe quiseres chamar, que é o que eu trago; e a cena mais musical, meio xamânica e psicadélica, que vem com a guitarra do Ivo, as taças tibetanas e os chocalhos que ele leva, também há um tambor… Acaba por haver vários elementos, que talvez também fosse interessante explorar com uma banda, ou não, mas estou a lançar os beats da MPC e é bué live, interactivo, vamos lançando as cenas ao vivo.
[AI] Houve uns anos em que eu tocava muito para cerimónias de ayahuasca e o que eu também curto de fazer com o Benny é trazer essa experiência, fazer as passagens de uma música para a outra como se fosse uma viagem, ajudar a transformar o concerto numa viagem.
Portanto, este ano gostavam de apresentar o projecto ao vivo.
[BB] Curtíamos de ir a uns festivais. Se alguém nos abrisse essa porta, era o que nós gostávamos mesmo. Arranjar contactos, conseguir concertos… Já estivemos muito tempo em estúdio, agora queremos trabalhar nisso. Gostava de levar isto ao máximo de ouvidos possíveis porque acho que é uma cena mais abrangente, que mais gente pode curtir. Já deu para ter um cheirinho no Museu da Água e isto é a expansão disso, ainda está mais desenvolvido.
Sentem que saem artistas diferentes deste projecto?
[AI] Eu sinto que foi fixe porque consegui ser eu, este projecto deu-me a oportunidade de explorar este meu lado, de me libertar, de não ter medo nem vergonha. De pôr coisas cá fora que, se fosse sozinho, se calhar um gajo não tinha tanta confiança, não iria falar de certos temas…
[BB] Acho que continuo a fazer a mesma cena, mas aprendi muita coisa, como é óbvio, e curti bué do projecto. Estamos sempre a mudar, inevitavelmente, e saio sempre uma pessoa diferente a cada álbum. E adoro tocar com o Ivo, gosto muito mais de tocar com o Ivo do que estar sozinho a mandar umas rimas, gosto que seja uma cena mais colectiva. Isto não foge assim tanto àquilo que tenho vindo a fazer, como disseste, mas é mais musical, mais maduro, também estamos mais velhos e acho que isso acaba por se reflectir. Estou contente, ya.
[AI] Eu nunca estive dentro deste mundo do rap e por estar ao lado do Benny, que é um gajo que escreve bem, aprendi bastante em termos de flow, basicamente consegui começar a rimar. Porque rimava de uma maneira diferente e aprendi muito em termos de escrita, explorei uma coisa que nunca tinha feito e aprendi muito.