Alton Ellis // Greatest Hits – Mr Soul of Jamaica

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Quando Alton Ellis canta “you touched my very soul” na sua arrebatadora versão de “You Made Me So Very Happy” ele está a personificar o mais profundo significado da palavra “verdade” porque, de facto, é exactamente uma alma tocada pelo mais incrível dos sentimentos que se escuta naquele momento. Alton é um dos artistas mais compilados no último par de décadas, sinal de um estatuto lendário e de um papel fundacional de uma cultura que tantas antologias e compilações tem inspirado. Por isso mesmo reencontrar a sua clássica compilação de Greatest Hits devidamente expandida é uma oportunidade que não deve ser descurada. À extremamente bem medida dúzia de clássicos do alinhamento original, é aqui acrescentada mais uma dúzia no alinhamento do primeiro de dois CDs, com mais 25 temas a juntarem-se à festa no segundo CD desta imperdível colecção.

As sólidas notas de capa desta edição a cargo do conhecedor Tony Rounce ilustram bem a história de Ellis, nascido em 1938 numa família comprometida com a música que ofereceu à história jamaicana não apenas a carreira deste filho pródigo, mas também a da sua irmã mais nova, Hortense. Como era comum na época, Alton passou por um longo período de imposição, ascendendo da condição de bailarino em programas de talentos até à de cantor, inserido em grupos ou duos, antes de reclamar a sua própria luz quando, em meados dos anos 60, se revelou aventureiro ao impor o novo ritmo rock steady com uma série de incríveis singles para a Treasure Isle de Duke Reid.

Duke tal como Clement “Sir Coxsone” Dodd tinha-se tornado produtor para, fundamentalmente, criar material para alimentar o seu sound system, com o negócio dos discos a resultar como uma consequência da constante procura desse combustível musical para as dances. E Ellis provou ser um valoroso trunfo nessa disputa, criando clássico após clássico capaz de derreter corações nas mais frequentadas noites de Kingston. Alton Ellis acabaria por ser alvo do interesse de Dodd e eventualmente, depois de um primeiro desvio da Treasure Isle em 1968, faria as suas últimas sessões para Reid em 1970, nunca mais tendo regressado a Bond Street para gravar. Mas, na verdade, a carreira de Ellis só conheceu, nos anos seguintes, o sentido ascendente, com o cantor a gravar inúmeras sessões para outros produtores como Prince Buster, Clive Chin, Keith Hudson ou, pois claro, Coxsone Dodd.

E, talvez por isso mesmo, Reid resolveu capitalizar (e capitular..) e em 1974 editou a antologia Mr Soul of Jamaica, cedendo à tendência de álbuns de um artista só que outras etiquetas favoreciam (nessa época poucos eram os solistas com álbuns inscritos no catálogo de Reid). Como as sessões originais nos arquivos da Treasure Isle eram mono, a edição de Mr Soul sofreu, na sua primeira versão, não apenas de um péssimo upgrade stereo (com a voz e a secção rítmica a alternarem de canal de uma forma quase aleatória), mas também de overdubs de bateria de gosto duvidoso, pensados para darem às faixas um som mais contemporâneo que acabaram, na verdade, por arruinar a sua identidade original.

Um dos vários pontos a favor desta generosa reedição da Doctor Bird passa por incluir as versões originais, inalteradas, em toda a sua glória mono, um som que retém o verdadeiro carácter das míticas sessões de Bond Street: voz límpida, carregada de alma, com a dose certa de reverb para lhe dar aquela dimensão angélica quase sobre-humana, e base rítmica compacta, com bateria, baixo, guitarra, Hammond e ocasionais sopros e coros a servirem da melhor forma cada canção.

E em cima dessa firme identidade sónica, ergue-se o reportório: canções de amor, tantas vezes assinadas pelo próprio Alton Ellis, mas directamente inspiradas na escola Motown de onde, aliás, saíram clássicos como o já citado monumento que é “You Made Me so Very Happy”. Com recursos técnicos mínimos que geravam uma fidelidade muitos furos abaixo do que já se alcançava nos estúdios europeus e americanos, a verdade é que ainda assim esta era música inundada por uma luz muito própria que continua a brilhar meio século depois. Fundamental, pois claro.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu