Criado no Cassequel do Lourenço, em Luanda, Altifridi é uma das referências do trap angolano. Foi um dos membros dos Mobbers, importante colectivo do rap de Angola, e prepara-se agora para dar o passo mais a sério enquanto rapper em nome próprio.
Depois de assinar pela Warner Music Portugal, lança em breve o aguardado álbum de estreia, Kiteke. “Mete Fogo” (com o brasileiro Menor MC e o francês 404ducce) e “Vai Vem” são os dois temas do disco que já se podem ouvir. Em entrevista ao Rimas e Batidas, antecipa o projecto que aí vem e promete mais colaborações internacionais.
Assinaste com a Warner Music recentemente e estás mais focado em fazer um percurso também em Portugal. Qual era a importância de assinares com uma label cá e quereres apostar mais no mercado português?
A importância destaca-se logo no contrato com a Warner, por ser uma das maiores do mundo, então já é um marco. E este contrato em vez de me envaidecer, é mais uma pressão, para ter mais responsabilidade. É uma oportunidade maior de eu poder deixar as minhas cenas mais convictas, solidificadas, podendo afirmar-me num novo mercado também. Com uma major já consegues certas questões que não irias conseguir se fosses independente. E é aproveitar cada oportunidade. Sinto que já estou mais capacitado para fazer certas cenas, então só tenho de dar boost, continuar a praticar para ver se me elevo mais…
O single que lançaste agora, “Mete Fogo”, é uma colaboração com o Menor MC, artista brasileiro, e com o produtor francês 404ducce. Estás a apostar definitivamente numa carreira mais internacional?
Isso. Preciso de expandir o meu público e trocar experiências com outros artistas porque sempre fui um artista muito fechado. E também sou fã dos artistas com quem faço música, então foi uma concretização trabalhar com eles. Foi bom para todos nós sentir o impacto que o som teve. Mas sim, a ideia é internacionalizar, disparar para aí.
Vais fazer mais colaborações internacionais em breve, então?
Mais e mais, sempre.
Portugal também?
Sim, há uns quatro ou cinco artistas com quem quero fazer música. ProfJam, Billy G, Van Zee que tem grande vibe, com o King Bigs que acho que vamos fazer um som…
O teu aguardado álbum de estreia em nome próprio, Kiteke, já está bastante avançado? O que é que já podes adiantar sobre o disco, que é muito esperado pelas pessoas que te ouvem há vários anos?
Já está fechado, estamos só a tratar da estética do álbum. Acho que podem esperar algo diferente, mais maduro. É um álbum mais introspectivo, diz muito sobre mim. Porque fiquei quatro anos sem lançar e, nesses quatro anos, também comuniquei pouco com o meu público. Acho que, dentro deste álbum, está a conversa que deveríamos ter tido durante o tempo que estive ausente. Porque fala muito sobre mim e acho que as pessoas gostam desse lado, acho que gostam de músicas que conversam com elas.
E precisaste dessa ausência para ires a esses lugares mais introspectivos, mentalmente, para te libertares na tua música?
Foi extremamente essencial. Se não tivesse passado por certas coisas, não conseguiria trazer este trabalho. Então, estar sozinho e com as pessoas que ficaram quando tudo se desmoronou, foi algo que me fez muito forte.
Musicalmente, exploraste coisas diferentes neste disco?
Sim, descobri que dá para fazer muita coisa com a minha voz. De há quatro anos para cá, a minha voz mudou muito. E eu só tive noção disso quando fui ouvir projectos passados. Agora já consigo fazer notas altas com a minha voz grave, antes só fazia notas baixas. Agora consigo perceber melhor como pintar as minhas leads, as minhas backing tracks. E ganhei muita experiência ao mexer tecnicamente na minha voz, que é para poder apresentar a melhor demo ao engenheiro de som. Aprendi muito de todas as formas. E deves conhecer-te bem para as outras pessoas te conseguirem entender melhor. Mas tens que te lembrar que eu sou um pouco maluco, então também tenho essa parte [risos].
Também faz parte da tua identidade.
Se não, vou estar a fingir, vou forçar o guião. Tenho de ter um bocadinho disso.
E em termos dos beats em que trabalhaste, no que toca à estética sonora, sentes que foste para coisas diferentes neste disco?
Sinto. E quando digo introspectivo não é triste. Tenho beats melancólicos, mas nem todos são. Tenho um amigo meu produtor, o Shalom, que me pediu para dar um nome ao estilo de trap que eu faço, porque é muito diferente [risos]. Mano, os beats que às vezes estão lá, são mesmo diferentes… Tu consegues ter uma noção no “Mete Fogo”. É estranho, é um beat estranho. Ficámos seis meses a mexer no som, porque as frequências eram estranhas, colidiam com a minha voz, que também tinha muito peso. Isso nunca me aconteceu ao longo da minha carreira. Quem salvou essa música foi o Beiro, se não fosse o Beiro já era! Ele é que conseguiu entender as frequências, fez a mistura e a co-produção e depois ficou tudo chill.
E trabalhaste com diferentes pessoas para o álbum, ou mais ou menos com os mesmos produtores?
Não trabalhei com muitos produtores, trabalhei com o meu habitual, o Weezy Drums, o homem que também fez o “Nuvens” [tema dos Mobbers com T-Rex]. O Beiro, o 404ducce, o Mario Flxw, Homeboyz… Talvez entre mais um.
E foi uma escolha muito pensada ou estavas a recolher beats de vários sítios e depois logo se via o que te inspirava a escrever e a gravar?
Eu não procurei, ya. As primeiras músicas que gravei… Eu estava no Brasil e de repente recebo uns 12 beats do Weezy. Escolhi oito e gravei umas oito. Com o ducce eu procurei-o… Peguei no meu pé e disse-lhe: “Quero um beat assim [bate com o pé no chão num ritmo específico]. Toca isto e aquilo”. Esse criámos mesmo do zero. Mas a maior parte dos beats foram mesmo ideias dos rapazes, eles vieram ter comigo e disseram-me: ouve isto. “Grande beat, esquece, vou gravar”.
E o que significa o título do álbum?
É o filho da mãe africana, que corre e vai atrás, luta, conquista o mundo e quase que vai sozinho mas vence. Essa é a mensagem que o Yuri da Cunha me passou quando me deu o nome de Kiteke. Mas uma vez pesquisei no Google e descobri que o significado é um ritual que quebra feitiços. Há uma maldição em África que, supostamente, depois de morreres, trabalham com a tua alma e ela não sobe [até ao céu]. Então, para a tua alma subir, tens de fazer um ritual que se chama kiteke, que te liberta dessa prisão espiritual. Eu só dei conta disso dois anos depois, mas faz sentido. E as músicas são bué introspectivas, são as minhas lutas espirituais.

Estavas a descrever esse processo de maior ausência. Sentes que a escrita ajudou-te a processar as coisas, a lidar com elas e a querer pô-las cá fora?
Sinto, porque depois ficas a ouvir as músicas que fizeste e sentes que não estás sozinho. Estás vivo, consegues fazer alguma coisa, consegues concretizar. Porque acho que o que mata um ser humano é fazeres com que ele seja inútil. Então, quando fazes algo que te satisfaz, isso alimenta-te espiritualmente. O stress envelhece-te, a alegria deixa-te mais jovem e mais leve.
E seguir uma carreira a solo de forma mais séria era algo que já tinhas vontade durante os Mobbers?
Todos os Mobbers sempre tiveram essa vontade, porque antes de serem Mobbers já tinham os seus caminhos. Mesmo durante o processo, em que fazíamos cenas em grupo, no meio disso saíram projectos a solo. Só que cada projecto vai ter o seu resultado e isso faz com que os caminhos possam mudar. Mas sempre quis ter a minha carreira a solo. Acho que este álbum vai ser a minha identidade, é o meu primeiro filho, as pessoas vão-me entender de verdade. Acho que as pessoas têm noção de que sou um bom artista, meio maluco, mas não sabem o que se passa por trás. Então acho que vai ser “wow, este maluco não é assim tão maluco”. Por isso é que estou calmo, estou firme, estou fixe. Confio nas pessoas que estão à minha volta e isso é o mais importante. O que me abalou já não me abala.
O álbum pode ser esse ponto de viragem, para as pessoas te entenderem melhor e para que tu atinjas outros níveis na carreira.
Porque tenho a certeza de que as pessoas vão mesmo gostar deste álbum. Não é estar convencido, é estar confiante. É um álbum para as pessoas, para falar contigo. São 20 faixas para ires ouvindo, cada música tem um mood, mas todas dentro do mesmo conceito. Estou ansioso, foi muito tempo sem lançar e isso de certa forma também me fez mal. Porque fazes 30 ou 40 músicas e nenhuma sai. Isso vai-te matando aos poucos. Porque começas a sentir que já não estás a fazer bem, ao ficar parado. O que é um Ferrari parado? Agora, um Ferrari que anda a girar, tu vais sentir aquilo a vibrar, é outro mambo. E se não lanças ficas preso ao que já havia. Foi o ano em que fiquei independente, parei com as produtoras e decidi pegar nos meus irmãos de verdade, de puto, que eu acho que têm capacidade e entendem o mambo… E o mais certo aconteceu. E os rapazes aqui na Warner também me têm dado bué sangue, direcção, ajudado em montes de cenas, já me deram uma visão mais ampla. Um gajo vai bebendo dessa água e tentar crescer mais.
Obviamente, o rap em Angola e em Portugal tem coisas em comum mas também coisas diferentes, até porque os mercados são distintos. Há muito mais gente em Angola, mas em Portugal há mais estruturas e uma profissionalização mais sustentada. Também é nesse sentido que te vês a fazer um percurso nos dois países, consegues ter um pouco do melhor dos dois mundos?
Certo! Em Angola tenho o meu público de raiz, é a minha base. Então, de certa forma sou obrigado a estar sempre e a fazer alguma coisa por Angola. Não só por ser o meu país, mas também porque tem um mercado que, quando estiver organizado, vai rentabilizar muito, pelo número de pessoas e pelo número de amantes de arte. Angola tem muita gente que ama arte. É um país de arte, todo o mundo é artista. Se não sabe dançar, sabe cantar. Se não sabe cantar, tem oratória. E temos muita facilidade em trabalhar com o entretenimento. Então, quando as coisas estiverem bem organizadas lá e se ganhar pelos direitos, vai ser um mercado rentável. Mas há problemas bué básicos, necessidades primárias, que ainda não estão resolvidos lá. Então, pensar que isso está próximo seria muito egoísta da minha parte. Porque sou artista e estou a acreditar que o meu sector vai melhorar. Mas não acho que vá melhorar tão cedo… Esse mambo é política. Não quero vender sonhos. Mas está a melhorar um pouco, hoje já conseguimos ter uma SADIA, para gerir os direitos de autor… Tivemos várias que fecharam, mas é algo que nunca tivemos, a nossa própria SPA. Isso era importante. Por isso é que não consegues ter uma Warner ou uma Sony em Angola.
Mas o mercado da música mudou muito desde que começaste?
Muito, o mercado teve mudanças drásticas. Era mais monopolizado, hoje em dia qualquer pessoa fica. Antes, para ires para a televisão ou para estares nos shows, tinhas de fazer parte da Team de Sonho, da [editora] LS, ou ser amigo ou simpatizante. Porque não havia o WhatsApp ou o Facebook. Hoje as pessoas já se conseguem autopromover e fazer com que cheguem às firmas grandes. Então, mudou muito nisso.
E o rap angolano atravessa um bom momento?
Acho que é a melhor fase. Ainda não estão a dar conta, são muitos putos a fazer e normalmente não vão dar muita atenção aos putos. Mas se parares para pensar e fizeres um balanço, todos esses miúdos são talentosos para caraças. A quantidade de miúdos bons que há agora… É abismal. Cada um é melhor do que o outro. Só acho que falta direcção, porque são putos que só estão a fazer. Mas estão a fazer muito bem. Têm aquele discurso de puto e quês, mas depois vão crescer. Agora, o talento está lá. Com a direcção certa, tiras grandes artistas.
E isso também é algo que te motiva?
Lógico, eu tenho de ser mais mau que esses niggas. E continuo a ser [risos]. É fixe, isso obriga-te a trabalhar mais, valoriza o movimento. O movimento de trap e rap fica com mais público. E no rap de Angola deste momento tens muito estas bandeiras que criam um movimento sólido… Acho que no ano passado tivemos o melhor ano de rap da banda, não sei quantos álbuns de artistas grandes, que são referências na nova e na velha escola. Vários géneros e bons projectos mesmo. Estamos na nossa melhor fase e é só o início. E eles não vão querer só ficar na música, escreve o que te estou a dizer.
E faz falta aproximar os nossos países nesse sentido, no circuito da lusofonia?
Sim, acho que as colaborações são sempre uma mais-valia. Por exemplo, o [rapper moçambicano] Laylizzy é uma referência em Moçambique. Os ouvintes dele também o viram a crescer, então têm a bandeira dele. Em Angola também o conhecem de alguma forma. E em Moçambique conhecem-me. Se nós colaborarmos… Além do público, o algoritmo vai potenciar e isso atrai shows, atrai tudo. E é isso que as pessoas querem ver, as diferenças a juntarem-se. Não quererias bué ver o NGA e o Plutonio? Ou um T-Rex com o Matuê? É o contraste. O people quer fazer a mistura, vamos fazer um cocktail. E eu já passei muito tempo a consolidar-me a solo, tenho a minha marca e o meu registo, agora também está na hora de poder colaborar com outros artistas. Para nos misturarmos e vermos no que dá.