Alcool Club no Titanic Sur Mer: é tudo vosso, odissinenses…

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Sebastião Santana

O cenário à entrada do Titanic Sur Mer, escassos minutos antes do início dos concertos, faz jus aos anfitriões da noite. Garrafas espalhadas por todo o lado, deixadas ao arbítrio do destino, num caos inarrável que só as entidades que garantem a salubridade conseguirão avaliar. No que ao álcool diz respeito, há para todos os gostos: cerveja (dos copos de plástico às litrosas), vinho (do branco ao tinto, do verde ao lambrusco) e bebidas para rijos (da vodka ao whisky). Os recipientes para matéria líquida ultrapassam em larga escala as caixas vazias de pizza e os pacotes semi-cheios de batatas fritas. Não é preciso ser-se grande vidente para prever o ambiente no interior do espaço. Basta um pouco de matemática.

A generosa fila que se forma à entrada do espaço ribeirinho lança outra importante pista, confirmada à passagem pela bilheteira: a lotação está esgotada. Há quem tente, a todo o custo, comprar ingresso para o espectáculo, mas o esforço cai em saco roto – por esta porta não passa nem mais uma formiga. Sábado, 18 de Março de 2017, o dia em o Titanic Sur Mer se transformou numa prensa mecânica de seres humanos. Salve-se quem puder.

No interior, o ambiente vai ao encontro da expectativa. Calor, não só no sentido lato mas também estrito da palavra, a aproximar-se das temperaturas com que se cozem os alimentos; impaciência, na sua verdadeira definição (as portas já abriram há uma hora e há quem reclame a demora no início das hostilidades); alquimia, no ponto de vista metafórico, com uma boa parte dos presentes a ensaiar as mais diversas receitas de sopas multi-vitaminadas – nem é preciso participar no ritual para ficar com as pálpebras pesadas.

 


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Recebidos sob uma enorme ovação, depois de uma primeira parte garantida por Uno e pelos Orteum (concertos competentes, dentro dos contornos clássicos do género e repletos de convidados especiais), os Alcool Club não perdem tempo e atiram-se a uma mão cheia de temas do mais recente álbum, Rap Proibido, lançado em 2016, mote para a actual visita à capital. “Respeito”, uma das primeiras do alinhamento a aterrar nos nossos ouvidos, é prontamente bem recebida pelo público; “Equilíbrio” pede ajuda a Sara D. Francisco, que não se deixa intimidar pela casa cheia; “Honesto” coloca em evidência o peso da sua batida; “Fugimos à Realidade” chama ao palco Beware Jack; e “Líquido” homenageia todas as formas de álcool etílico e mais algumas. Seguros no exercício vocal, Praso e Súbito servem os seus versos com destacada eficácia, até quando ficam sem monição (“ficámos sem munições para disparar as nossas barras”, queixam-se a dada altura”).

O paralelismo entre a lei da proibição (1920-1933, EUA) e o título do mais recente álbum dos Alcool Club (Rap Proibido, 2016, Portugal) é evidente, até pela própria capa, que evoca a época, através de uma personagem de cachimbo de água em mãos e chapéu Fedora na cabeça, que muito facilmente nos traz à cabeça Al Capone, um dos maiores gangsters de sempre, directamente ligado à proibição. Os apontamentos de jazz e blues – sublinhados pela presença de uma guitarra em palco, que tratou de acompanhar as canções do colectivo, rematando, sempre que possível, com inspirados solos – também nos transportam para a época. Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr são alguns dos nomes que rapidamente se correlacionam. No entanto, falta aqui qualquer coisa. Com todo este imaginário em jogo, capaz de nos transportar para uma época que nenhum dos presentes viveu, não faria sentido uma indumentária a condizer? Um adereço evocativo?

 


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Omnipresente até à data, como seria de esperar, a molécula de etanol (CH3CH2OH, para os mais curiosos) ganha especial destaque entre artistas e plateia. É raro o rapper que não cante de copo na mão, é ainda mais raro o elemento do público que não erga a sua cerveja numa espécie de brinde imaginário. Os ânimos aquecem, há quem se estique nas cotoveladas, poupando, de seguida, nas boas maneiras; há quem faça de tudo e mais alguma coisa para chegar à frente de palco (nem que para isso seja preciso levar uma calçadeira de casa), e ainda há quem, como nós, prefira permanecer numa das extremidades da sala para evitar ser atropelado por um fã desamparado. Sim, fazemos parte desse “Anti Social Club”, que vimos impresso no casaco de um dos elementos da plateia, logo no início da noite.

A festa segue e atinge um dos pontos altos em “Sério” – altura em que toda a gente (toda, mesmo toda a gente…) acompanha o refrão, num coro em uníssono – e “Atlantis”, ambos retirados do álbum Club120. Proibido ou não, a verdade é que o rap dos Alcool Club tem nesta plateia um fiel conjunto de foras-da-lei, divididos essencialmente por duas cidades, Odivelas e Sines, o que leva Praso a criar uma nova, a “Odissines”, dada a proximidade afectiva que existe entre as duas localidades. A avaliar pela entrega destes dois reinos em ebulição, é caso para aplaudir entusiasticamente. A noite é vossa, odissinenses.

 


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