AJ Tracey // AJ Tracey

[TEXTO] Moisés Regalado 

Longe vão os tempos em que a escrita mais refinada era sinónimo apenas de pensamentos complexos ou bonitas poesias urbanas. A diversidade dos filhos de Bambaataa nunca esteve em causa e há espaço para tudo isso — mais do que nunca, talvez — mas este mundo novo, em que o hip hop aprendeu com a pop a dançar novamente (depois de uma década de 90 que oficializou a cara trancada) ou a cantar sem vergonha, também é sinónimo de uma escrita mais levezinha do que nunca — e não se pode dizer que isso é negativo.

A prova está na produtividade constante de residências como a Griselda, a Rhymesayers ou a TDE (se a chama existe mesmo, não se preocupem porque tão cedo não morre). Mas não é por isso que há menos arte em quem se empoleira no lado mais pop da coisa, seja por consequência do sucesso ou de uma escolha estética consciente e ponderada. Para AJ não parece ser difícil: como os seus conterrâneos Skepta ou J Hus, o artista londrino sabe perfeitamente que das palavras mais simples também saem as melhores rimas.

E AJ Tracey é mais um daqueles alunos que nunca deixa a sebenta em casa. Parece nunca esquecer que metade do flow está na letra, que metade da letra está no flow e que o segredo para cativar à primeira está em não revelar os contornos dessa fronteira — e assim se chega ao “catchy“. Se uma grande música sem replay value serve mais no disco rígido do que na playlist, são rappers como AJ Tracey que fazem crer num paradigma semelhante aplicado à escrita de canções.



Não vale a pena exclamar que “Yo, it’s the hyperman set/AJ Tracey, live and direct/DJ mash up, then mash up the deck/The microphone champ is live and direct” é um exemplo perfeito de refrão… até ouvir Tracey debitá-lo (e convém estar familiarizado com o mais velhinho dos grimes, tão próximo do garage britânico quanto dos raps americanos. Alguém disse Kurupt FM?). Também não valerá a pena tentar argumentar que AJ Tracey é dos grandes rappers da actualidade — mas AJ Tracey, o homónimo disco de estreia, tem tudo para ser um dos grandes álbuns da cena actual.

Um dos mais representativos será, pelo menos. E se a bigger picture o mostra como parte da cena hip hop, é impossível ignorar a personalidade deste inglês, descendente directo de Dizzee Rascal ou Danny Weed. AJ Tracey tem raízes espalhadas em todas as direcções mas a bandeira do rap está suficientemente visível para que a malta não disperse. A eternamente futurista sonoridade do grime leva-nos de Londres a Nova Iorque em três tempos e no fim da viagem, como quase sempre, fica a dúvida.

Mais britânico que “Wifey Riddim 3”, “Ladbroke Grove” ou “Horror Flick” é complicado (só mesmo os táxis, as cabines telefónicas ou o carimbo no passaporte de 21 Savage), mas afinal o que é que o separa, além da pronúncia, “Double C’s”, “Psych Out!” ou “Nothing But Net”, daquilo que todos os dias se vai fazendo um pouco por todo o mundo — e não só nos Estados Unidos? No que depender de AJ Tracey, não há diferenças estéticas ou geográficas suficientes para desviar as atenções e, enquanto houver folhas em branco e beats a 140BPMs, a vida é bela.


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