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O afrocentrismo nas rimas dos A Tribe Called Quest

[Texto] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

Escrevia Touré no New York Times logo depois do desaparecimento de Phife Dawg em Março passado que os A Tribe Called Quest representaram uma proposta diferenciadora quando surgiram no arranque dos anos 90 no meio de uma paisagem hip hop muito específica, com o gangsta rap a dar cartas. “Os rappers da Tribe estavam longe de serem guerreiros da selva urbana”, explicava o jornalista e crítico cultural. “Eles adoravam ler e queriam fumar erva, não vendê-la. Eles usavam o seu intelectualismo de forma leve, mas também orgulhosa, e faziam hip hop para as pessoas que estavam tão interessadas em ideias quanto em rimas. Questlove, o baterista dos Roots, disse-me que quando ele era um adolescente, os Tribe foram essenciais para que ele se visse como alguém que também podia estar no hip hop”. Ou seja, os Tribe como porta para uma ideia de pertença.

Nas páginas de Mo ‘ Meta Blues, o livro de memórias de Questlove, essa ideia fica clara quando o baterista escreve que foi o colectivo Native Tongues que clarificou tudo para os Roots: “As bandas da Native Tongues foram a primeira vaga do hip hop, pelo menos na nossa perspectiva: álbuns como 3 Feet High and Rising dos De La Soul, The Low End Theory dos Tribe e Done By The Forces of Nature dos A Tribe Called Quest estabeleceram o standard para o que queríamos fazer e mostraram-nos como o poderíamos alcançar”. Aquele pente no afro de Questlove? Muito provavelmente foram os Tribe que lá o colocaram…

Em boa parte isso deveu-se a trazer África para o centro do discurso hip hop. Numa era em que as fronteiras do bairro pareciam intransponíveis, até no espaço de liberdade das rimas, apontar a direcção de África como ponto geográfico de elevação espiritual era apontar para uma saída do labirinto urbano. E esta era a primeira rima, da primeira faixa, do primeiro álbum dos A Tribe Called Quest:

Q-Tip is my title, I don’t think that it’s vital
For me to be your idol, but dig this recital
If you can’t envision a brother who ain’t dissing
Slinging this and that, cause this and that was missing
Instead, it’s been injected, the Tribe has been perfected
Oh yes, it’s been selected, the art makes it protected
Afrocentric living, Africans be givin’
A lot to the cause, cause the cause has been risen

 



Tudo começa com o som de uma criança que chora, o nascimento, depois a bateria, o instrumento primordial, e finalmente um groove erguido do jazz, a fonte de tanto hip hop, dos Gang Starr a Kendrick Lamar. Depois basta curtir o recital: a partir daí não podia haver dúvidas. Touré: “Estava na universidade em Atlanta. Formei-me em estudos africanos e afro-americanos e deixei crescer dreads, portanto, naturalmente, tinha uma relação profunda com os Tribe”.

É preciso entender que em 1990, os vídeos mostravam carros e arranha-céus, rappers de faces carregadas, poses agressivas, mas os Tribe, como outros companheiros da Native Tongues, vestiam-se de forma colorida, usavam penteados diferentes, outro tipo de adornos que não as típicas correntes de ouro e isso funcionou como um convite à afirmação de diferença: para quem andava na escola e não se encaixava nos cânones gangsta, os Tribe eram uma tábua de salvação, uma via de identificação, todo um código de sobrevivência até.

Q-Tip conclui o terceiro e último verso de “Footprints” oferecendo uma receita de orgulho e um terreno de pertença espiritual para toda uma geração que, talvez como Touré, tinha um maior nível de instrução, uma cultura de maior sintonia com as marcas da identidade africana.

Because my skin is brown, yo I’m gonna do the town
Rub it in the face and rub my feet all through the place
When you get your finger on the music it’ll linger
Sing a song o’ sixpence, sing it like a singer
A Nubian, a Nubian, a proud one at that
Remember me, the brother who said “Black is black”
You can come by request, I don’t play, I don’t dress
Get emotions off your chest, we are black, we the best
Making moves, making motions, flowing like an ocean
The walking will continue, we know that we will bring you
The times that you have waited, more anticipated
Be gone but not for long because the feet will stay strong

 



“Afrocentric living is a big shrug”, explica Q-Tip no hino “Can I Kick It”, como quem diz que assumir a africanidade é uma forma de sacudir as pressões da cidade. Uma pessoa conhecer-se, saber quem é, é importante para que ninguém se perca, e nos anos 90, como em qualquer outra época, de resto, isso era importante porque talvez a pressão fosse maior: a indústria do entretenimento tinha explodido – cinema, música, televisão, computadores – e toda a gente queria um pedaço do importante mercado dos jovens afro-americanos, urbanos, consumidores. O hip hop era uma forma de acesso directa a esse mercado. E essa pressão poderia ser sacudida, acreditava Q-Tip, com uma vida levada de acordo com uma identidade mais africana: as roupas, a comida, a ligação a uma cultura ancestral podiam, de facto, funcionar como alternativas ao assalto regular aos sentidos por parte da Gap ou da McDonald’s. E isso apenas num plano mais superficial, porque as pressões iam bem mais fundo e era importante haver quem lembrasse os jovens afro-americanos que descendiam de culturas nobres, erguidas há muitos séculos num continente distante. Também havia Reis em África.

If you feel the urge to freak, do the jitterbug
Come and spread your arms if you really need a hug
Afrocentric living is a big shrug

 



 

You know you oughta
Dance to this, the girl you kiss
I like fried foods, especially fish
Afrocentric, I’m electric
Socialistic and eccentric
Body’s healthy, mind is wealthy
Thoughts, they flow, that will prepare me
To be a Native, get creative
Original and designative
Listen to the line that’s playin’
Listen hard to what Q’s sayin’
Politicians are magicians
Make your vote, they hope your wishin
Ambiguous words, senseless verbs
They all amount to crap that’s heard
Violent hip hop, money flip flops
Promoters won’t book, but it still rocks
I’m a Zulu, yes, a true blue

 

As ideias vão mais fundo ainda em “Youthful Expression” e continuamos em People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm, ou seja em 1990, o arranque de uma nova década que pedia também a imposição de um novo pensamento numa cultura que levava 10 anos de visibilidade, mas que só agora se afirmava como uma válida força de mercado. Esta rima de Tip está tão cheia que parece quase um livro: o rapper que lidera a Tribo declara que ter um pensamento afrocêntrico é também ter um sentido de comunidade, explica que é preciso ter uma mente rica num corpo são – estudar, aprender e viver mais de acordo com certas tradições ancestrais. Ser parte da Native Tongues é carregar na tecla tónica da criatividade, é procurar ser original, garante Tip que depois explica que tem uma voz mais válida do que a de muitos políticos antes de mudar o alvo das suas críticas para o gangsta rap declarando-se, por oposição, como um Zulu, um membro orgulhoso dessa tribo ancestral do hip hop fundada por Afrika Bambaataa. O afrocentrismo, afinal de contas, não foi, no que ao hip hop diz respeito, uma invenção da Native Tongues, percebemos nós por cima de um sample de Marvin Gaye, outro músico negro norte-americano que também se aproximou de África para afirmar a sua própria liberdade.

 



O afrocentrismo positivo, de elevação, de resistência, de progressão que os Tribe propõem logo no trabalho de estreia haveria de ter ecos em registos posteriores. “Excursions”, do incrível Low End Theory, por exemplo, é um caso evocado por Touré no já citado artigo do New York Times. Escrevia o jornalista, depois de citar a letra – “Listen to the rhyme, cuz its time to make gravy/ If it moves your booty, then shake, shake it baby/ All the way to Africa a.k.a. The Motherland” – que os A Tribe Called Quest falavam de paz e de filosofia. Certamente uma alternativa à violência e à realidade, outros assuntos válidos, sem dúvida, mas não os únicos capazes de inspirar rimas.

Midnight Marauders também tem muita África dentro – há um tema com o título “Steve Biko”, há um estudo do uso da palavra “N***a” em “Sucka Nigga”, shout-outs para a Nigéria ou o Egipto em “The Chase, Part II” -, mas nada que iguale a força que essa ideia representou no mapa emocional, intelectual e verbal de …Paths of Rhythm. Essas ideias estão bem menos presentes em Beats Rhymes & Life e The Love Movement, os dois últimos álbuns que os Tribe lançaram, em 1996 e 1998, respectivamente. Mas a verdade, é que esse afro-centrismo que marcou a estreia dos Tribe em 1990 foi importante para toda uma geração que, como Touré, procurou vias alternativas para erguer uma identidade que não fosse necessariamente coincidente com o que a sociedade mais vasta, imersa nos códigos de consumo, pretendia ou impunha. E dessa forma, os A Tribe Called Quest ajudaram a apontar o caminho a bandas como os The Roots de Questlove, a valores como Chance The Rapper ou Kendrick Lamar, tão somente por explicarem que havia outras formas de construir o orgulho.

Em “Rhythm (Devoted to the Arts of Moving Buts)”, talvez a última peça do mini-puzzle afrocêntrico do álbum de estreia dos Tribe, conclui-se, enfim, que mudar cabeças não é necessariamente incompatível como fazer balançar as partes posteriores do corpo. Pelo contrário, assegura Q-Tip, dançar pode até servir para abrir os olhos. E a mente.

The Tribe has been on hold for much too long
Don’t fear the rhythm because it’s strong

On the corners, brothers bop their heads
From the high-tops to the natty dreads

I’m a nubian y’all, look what we did
Took the crust away from the third eyelid
Now it’s kinda open, longs to see the sight

 


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