África Negra // Alia Cu Omalí

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

A Mar & Sol de Sebastião Delerue sucede às edições de clássicos de Pedrinho e de Américo Brito & Djarama desviando as atenções de uma certa memória de Cabo Verde para investir no regresso ao presente dos África Negra, uma das maiores – senão mesmo a maior – instituições musicais de São Tomé e Príncipe. E esse é um facto que, por si só, merece os mais efusivos festejos.

No essencial blogue da Voice of America (VoA), principal órgão oficial difusor da cultura americana no mundo, há um revelador e essencial texto de 2009 assinado por Matthew Lavoie sobre os África Negra, texto que termina com o lamento de um dos membros do grupo que apontava para a diminuição do interesse na música de bandas como esta, já que o público preferia antes dançar ao som da música escolhida por DJs, facto que levou, ainda de acordo com as declarações do grupo ao jornalista da VoA, a um decréscimo acentuado nos convites para que os África Negra se apresentassem ao vivo fora do seu país. Essa realidade em conjugação com os efeitos da diáspora levou ao desmembramento dos África Negra.

Felizmente algo mudou, talvez até por causa de alguns DJs que, precisamente, começaram a encontrar na memória que resistiu impressa em vinil argumentos para fazer balançar o presente.



Há seguramente uma década, no clube Lounge, em Lisboa, numa noite em que nos pratos se encontrava Marco Rodrigues (também conhecido como Photonz e hoje um dos mentores da Rádio Quântica), uma música rompeu a direito pelo meio do mural electrónico debitado pelo DJ, impondo um interlúdio de diferentes texturas, de distinta cadência, num set essencialmente techno. Quando interpelei Marco Rodrigues, este explicou que o disco em causa tinha sido resgatado à colecção do seu pai. Um pedido especial para que me digitalizasse o tema que ali escutei – “Cimoda”, faixa que encerra o alinhamento do álbum Angelica, de 1983, e que é um incrível portento funk – resultou num email com um MP3 que, durante muito tempo, foi a minha única ligação ao universo musical dos África Negra. Demorou alguns anos até que Alice, álbum que também data de 1983 (ano prodigioso em que o grupo editou igualmente Carambola), se atravessasse no meu caminho e encontrasse espaço nas estantes cá de casa e um pouco mais até que um generoso pacote enviado de Londres, onde o mentor dos Photonz e da editora One Eyed Jacks então residia, revelasse no seu interior, além de uma série de maxis que reflectiam o output de Marco Rodrigues, a tal cópia que tinha escutado uns anos antes no sistema de som do Lounge.

O domínio dos DJs pode, de facto, ter empurrado muitas bandas para o esquecimento, afastando-as, como pelos vistos sucedeu em São Tomé, para fora do circuito dos “fundões”, os bailes ao ar livre que eram o habitat natural deste tipo de música e de grupos. Mas, e falando do nosso país, o trabalho continuado de DJs e entidades criativas como CelesteMariposa, Irmãos Makossa, Batida, Rocky Marsiano, Sebastião Delerue, Filho Único e vários outros permitiu que as pistas de dança se voltassem a sintonizar com a vibração que em tempos emanava de espaços lisboetas como o Noites Longas, B. Leza, Cave Adão, Lontra ou Mussulu e, de repente, a perspectiva de regresso ao presente de artistas como Chalo Correia, Julinho da Concertina, Pedrinho ou Bitori e de bandas como África Negra já não seria assim tão rebuscada.

Em 2014, a Filho Único de Afonso Simões promoveu o regresso ao activo dos África Negra, numa versão remodelada que continua a contar com o núcleo original de João Seria, nas vozes, e Leonildo Barros, na guitarra, precisamente os dois elementos fundamentais na identidade musical clássica do grupo: é no “diálogo” quase constante de voz e guitarra que se adivinha o sentido profundo da música dos África Negra. E reconduzi-los a estúdio depois do sucesso dessa reapresentação ao presente – que se iniciou em 2014 com uma passagem pelo FMM de Sines e que já se traduziu em várias apresentações na Alemanha, Bélgica, Holanda ou Dinamarca – foi inevitável e natural.

Com Afonso Simões da Filho Único (e dos Gala Drop), Jess Flander e Sebastião Delerue da Mar & Sol a comandarem a produção e António Menezes (guitarras), Dió Vaz (baixo) e Martine Ramos (bateria) a juntarem-se a Leonildo e João (com mais umas ajudas extra nas percussões), desenhou-se Alia Cu Omalí (expressão que significa “Areia e Mar”), primeiro trabalho em mais de uma década (o último CD, Cua na Sun Pô Na Buà Fa, datava já de 2008, sendo que para se localizar o anterior lançamento em vinil, na mítica etiqueta IEFE, é preciso recuar a 1990) e oportuno e mais do que justamente celebrado reencontro com o presente.



Ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com a “toda poderosa” Orchestre Poly-Rythmo do Benin nos discos que gravaram para a Strut e para a Because Music em 2011 e 2016, respectivamente, com os África Negra resistiu-se, inteligentemente, a qualquer tentação que porventura pudesse existir (e às vezes isso parte dos próprios músicos, não dos editores ou produtores) de “modernizar” o som. A música dos África Negra foi criada num ambiente cultural muito particular, gerada a partir do hábito, revela-nos o texto de Matthew Lavoie, da escuta de música urbana do Gabão, Zaire e Camarões, em finais dos anos 70 e anos 80, escuta que inspirava e guiava o “guitarrismo” de Imidio Vaz e Leonildo Barros.

Os África Negra foram depois captando outros sinais, mercê das suas viagens frequentes a Cabo Verde, Angola e Portugal onde, aliás, uma noite de celebração do aniversário da independência da Guiné Bissau, em 1981, num concerto repartido com o lendário grupo guineense Super Mama Djombo, lhes valeu uma alcunha imposta pelo público, “África MamaDjumba”, de onde derivou o termo “MamaDjumba” de que muitos fãs se socorrem para se referirem ao som dos África Negra. De facto, a sua “rumba” particular é são-tomense, no sentido em que resulta de uma experiência muito particular, mas foi cristalizada a partir de marcas recolhidas em muitas e diferentes latitudes.

A música dos África Negra vive de um balanço festivo e no rendilhado das guitarras banhadas num transparente oceano de reverb encontra-se boa parte da sua personalidade distinta, com melodias simples a suportarem as vozes que trazem igualmente simples histórias de romance e de quotidiano para o centro da pista de dança. Há uma “luz” especial na música que se escuta neste Alia Cu Omalí, um tom celebratório certamente adquirido na atmosfera do baile que exultava a vida ao fim de uma semana de árduo trabalho. E nesse sentido, esta música parece existir fora do tempo, soando como se 1983 tivesse ainda a correr e o calendário se recusasse a avançar para lá de Agosto: a temperatura é amena, convida à dança e a bateria, o baixo e as percussões criam a base por cima da qual as guitarras vão serpenteando, alegres e ultra-expressivas, convidando à dança na pista. Nada mais importa. O paraíso é assim: simples e com balanço doce. Os África Negra sabem-no bem pois já lá tocaram bastantes vezes.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu