pub

Fotografia: Nuno Gervásio

Sem ácidos a projectar sons psicadélicos.

Acid Acid: “Alejandro Jodorowsky atraiu-me imediatamente com o Holy Mountain

Fotografia: Nuno Gervásio

O universo audiovisual (e místico) de Alejandro Jodorowsky é a fonte de inspiração para o novo projecto discográfico de Tiago Castro, que aqui assina como Acid Acid.

Tendo em conta o panorama geral, a agenda do músico e radialista está bem preenchida para os próximos tempos: amanhã, dia 3 de Outubro, há sessão de escuta na Chasing Rabbits, em Lisboa; no dia 18 de Dezembro faz parte do cartaz do evento Rádio SBSR.FM Em Sintonia. Pelo meio, muitas actuações que podem ser encontradas na sua página de Facebook.

Gravado em 2018 no estúdio Spring Toast, em Lisboa, este disco, que resulta de um desafio feito em 2017 pelo MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror, contou com os importantes contributos de Violeta Azevedo e Rui Antunes na sua construção. Fomos saber mais sobre este mergulho nas profundezas da obra do realizador chileno e acabámos por perceber, entre outras coisas, claro, que a psicadelia já não é o que era.



O El Topo completou 50 anos em 2020. Meio século depois, achas que esta criação do Jodorowsky é um mistério já desvendado, ou permanece um enigma?

Acho que continua um enigma e na verdade assim espero que continue, pois é algo que está no ADN do filme. É uma fantasia surreal, violenta, ácida, erótica e um verdadeiro desafio à montagem clássica. Isto tudo em ambiente western, o mais clássico dos géneros à americana, mas com total desconstrução. O que me continua a surpreender é que este filme exista e que o seu sucesso inesperado tenha dado carta branca a Jodorowsky para fazer o que quisesse a seguir. E continua a ser a apresentação perfeita à mente criativa de Jodorowsky, ainda em início de carreira, com vontade em chocar e fazer tremer o público. Já não em modo de teatro, mas em cinema.

Podes explicar-nos como é que descobriste a obra deste realizador e o que te atraiu nela? Quais os teus filmes favoritos?

Alejandro Jodorowsky atraiu-me imediatamente com o Holy Mountain. E num primeiro momento, mesmo sem o ter visto, as imagens do filme sempre me acompanharam. Em artigos de revistas, citações de bandas psych dos anos 60, por aí. E quando finalmente vi o Holy Mountain, fui sugado para dentro daquele universo, daquelas imagens multicoloridas e cheias de camadas. De repente os filmes promocionais que conhecia dos Beatles psicadélicos ou os filmes da Factory do Warhol com os Velvet pareciam brincadeiras de criança. Acho que El Topo e Holy Mountain permanecem como os meus filmes preferidos e influentes. Mas também gosto dos mais recentes, entre a autobiografia e o surrealismo. Há sempre algo inesperado que nos puxa para dentro daquelas imagens, mesmo que no todo o filme não seja exemplar.

E quanto às bandas sonoras dos filmes? Serviram-te de alguma maneira de inspiração?

A banda sonora do Holy Mountain conheço muito bem, por isso sem querer poderá estar presente de alguma forma, mas não o conseguirei identificar. Mas na verdade, quando me lancei à composição da música presente neste álbum, não quis pensar na música dos filmes. O importante era conseguir traduzir para sons e texturas o que as imagens dos filmes me diziam e também, em termos de estrutura, uma pincelada geral sobre a vida de Jodorowsky.

Este teu novo álbum nasceu primeiramente de um convite lançado pelo festival MOTELX para elaborares um espectáculo. Como é que abordaste esse desafio e como é que correu na altura esse concerto?

Num primeiro momento fiquei muito assustado porque não se pode conceber um espectáculo de homenagem a Jodorowsky de ânimo leve. É de tal forma denso que não poderia ser algo simples. Mas aceitei o desafio e deixei-me envolver pelas imagens dos vários filmes, não tanto a temática mas os enquadramentos, a cor, as inúmeras camadas de informação em cada frame. Escrevi a música já a pensar em formato concerto, ou seja, já com a construção de loops e drones. Quando terminei o esboço falei com a Violeta Azevedo, com quem já tinha tocado algumas vezes. Achei que as texturas únicas que ela consegue criar com a flauta se encaixavam muito bem na música. Mas ela fez bem mais que isso e compôs também arranjos de enorme beleza, que felizmente saltaram do concerto para o disco.

Em paralelo também convidei a malta da produtora DROID_id. Falei com o Paulo Prazeres, um dos pioneiros do VJing em Portugal (é delicioso ouvir as histórias de quando fazia projecções no Lux com loops em VHS) e que liderou a equipa responsável pelas projecções no concerto. A ideia não era apenas cruzar imagens dos filmes de Jodorowsky, mas também criar sequências próprias, o que acabou por acontecer.

Depois de um par de ensaios com a equipa toda, Violeta e DROID_id, instalámo-nos no largo junto ao Lounge. E ali, junto ao ecrã gigante montado para a projecção do documentário Jodorowsky’s Dune, apresentámos a nossa homenagem. Correu muito bem, foi muito emocionante.

Quanta da música que se ouve agora nas duas peças longas de Jodorowsky resulta do trabalho desenvolvido para esse concerto?

Quando terminei o concerto no MOTELX, percebi que não queria que a música morresse ali, não queria que o momento ficasse efémero. Poderia ter ficado, como já ficaram outras criações minhas no passado — foram apresentadas em concerto e, pronto, desapareceram. Mas como foi tudo tão especial, decidi registar a música. Toda a composição que fiz para o concerto está presente no álbum, de forma mais resumida porque já não existe a construção de loops que acontece ao vivo. Para além de toda a composição original, existe ainda um par de momentos escritos só para o álbum. Em estúdio tive a oportunidade de juntar mais sons, mais texturas e mais melodias, dando corpo ao esqueleto.

A obra do realizador chileno é muitas vezes descrita como eminentemente psicadélica. Essa ideia — da psicadelia — foi em anos recentes muito esvaziada devido ao seu uso gratuito. O que é que entendes na cinematografia do Jodorowsky como psicadélico?

Acho que o próprio Jodorowsky responde bem a essa pergunta quando diz que queria fazer filmes em que a experiência de os ver seria quase como tomar um ácido. Isso para mim é o psicadelismo nos filmes de Jodorowsky, é essa experiência de dar ao nosso cérebro uma sequência de sensações até então não sentidas, com o fluxo de cor e movimento. Mas concordo plenamente com o uso gratuito do termo e ideia de psicadelia em anos recentes. O seu lado mais místico perdeu-se na corrente do mainstream.

E quanto à música: o que é que transforma uma peça musical num exercício psicadélico, na tua opinião?

A música é bem mais que a conjugação de notas e acordes, desses sons que constroem emoções. É quando se vai para lá das notas, em busca dos outros sons escondidos, de uma bolha de luz e cor que só existe na nossa cabeça. Pode ser nesse momento que nasce a psicadelia, quando se tenta traduzir em texturas o que pode ser surreal, místico, narcótico, luminoso, colorido. É difícil colocar em palavras, mas também me parece que é por isso que a música psicadélica é vastíssima, não se limitando a um só género.

Podemos falar dos aspectos formais deste teu novo projecto? Com que ferramentas e em que condições técnicas é que o produziste? Há participações?

Este segundo álbum foi gravado no estúdio da Spring Toast com o Rui Antunes, responsável pelo som de bandas como Mighty Sands, Calcutá, Jasmim, Bluish ou April Marmara. Neste momento, foi a pessoa ideal para a gravação do disco. Percebe o meu som, sabe o meu percurso. E em estúdio sempre teve liberdade total para colocar as suas próprias ideias na música, para além das inúmeras experiências que fez com colocação de microfones e exploração de sintetizadores analógicos.

A acompanhar todo o processo também esteve a Violeta Azevedo. É responsável pela flauta que percorre 90% do disco, dos arranjos e efeitos. Mas também ajudou a produzir, com input criativo em todo o processo. Usámos vários sintetizadores analógicos, sintetizador modular, inúmeras percussões menos convencionais e todo o género de efeitos. O álbum foi gravado durante um gélido mês de Janeiro, todos os dias. Foram dias muito intensos, seguidos por uma mistura também ela muito longa, mas no final, absolutamente recompensadora. Este disco é tanto meu como do Rui e da Violeta.

A tua música soa completamente fora de tempo: sabemos que a produzes neste presente, mas bem que poderia ter saído de uma bobine guardada num armário há 30 anos ou mais. Como é que se foge do tempo neste presente em que tudo parece ser datado mal sai para a rua?

Parece-me que a resposta ideal é tentar criar música intemporal. Mas parece-me um processo impossível pensar isso e ao mesmo tempo consegui-lo. Não se foge. Faz-se e pronto. Seja qual for o resultado, o importante é ser honesto. Faço a música que a mim me soa bem. Só isso. E quando a ouço, se soar a mim, fico feliz.

Há referências para o teu som? Quem dirias que são os mestres que informam a tua criação?

Muitas referências e inspirações. Quem me conhece sabe o quanto vibro com psicadelismo dos 60s ou 70s, com o krautrock, com os primórdios da música ambiente. Do Barrett, dos Floyd pré-Dark Side of The Moon, o Eno ambiental, o Eno do kraut, o Eno dos Talkings Heads, o Bowie de Berlim, os Kraftwerk de início e tantos, tantos outros.

Colaboraste no teu registo anterior com o Vítor Rua. Com que outras figuras do passado — ou até do presente — da música portuguesa te vias a realizar alguns projectos conjuntos?

A experiência com Vítor Rua foi incrível, ainda não o consigo explicar. Mas foi um daqueles momentos que nasceram de forma espontânea. Para acontecer outra vez, com outro dos meus heróis, teria de ser de forma semelhante. Já me sinto muito afortunado por ter colaborado com o Vítor e mais recentemente com a Violeta que considero uma das músicas mais incríveis da actualidade e que tenho a certeza que se tornará numa importante referência no futuro.

O presente da música portuguesa nunca soou tão diverso e há inúmeros projectos carregados de valor, desafiantes, exploratórios. Sentes-te integrado numa cena mais vasta ou encaras o teu projecto como um caso solitário na cena musical nacional?

Não sei bem. Solitário não o será porque estamos rodeados de projectos que se movem em universos semelhantes. Mas não lhe chamaria “cena”. São muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo, muitas cenas, em modo desenfreado. O que só revela a vontade em experimentar, cada vez mais. E acaba por inovar a música no seu todo. O que seria do mainstream se não fossem as margens a experimentar?

Há planos para apresentação de Jodorowsky ao vivo?

Haverá apresentações do disco e tenho, felizmente, alguns concertos até ao final do ano. Eventualmente, quando for possível, gostaria de fazer uma apresentação mais “solene”, recuperando o espírito do concerto no MOTELX. Mas isso ficará para quando o cosmos o ditar.

Última pergunta: vais tratar de fazer chegar o disco até ao Chile?  

O Alejandro Jodorowsky vai receber uma cópia, sim.


pub

Últimos da categoria: Entrevistas

RBTV

Últimos artigos