Um mês após ter lançado um álbum de instrumentais em exclusivo para coleccionadores, Para Sempre (ou até que o mundo acabe), Ace desvenda um novo projecto. Chama-se Lavoisier e recupera o nome do célebre químico francês que imortalizou a frase “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” — um lema que tão bem assenta ao hip hop. É o título do disco que junta o histórico rapper dos Mind da Gap aos músicos Pedro Santos, AZAR AZAR e Gonçalo Salta, que aqui assinam simplesmente como A Banda.
Ace pegou em músicas do seu espólio, algumas editadas e outras inéditas, para embarcar num processo de transformação (e até ampliação) musical com os instrumentistas. O resultado é um disco jazzy de rap, com uma participação de Virtus e mistura e masterização de Minus, por agora disponível em CD — mas que também chegará em breve às plataformas digitais.
Em declarações ao Rimas e Batidas, Ace fala do novo disco, que representa a concretização de um desejo antigo, antecipando mesmo que poderá vir a ser o último de uma “longa carreira”, ainda que o estímulo do “exercício criativo” nunca o tenha deixado.
Ver esta publicação no Instagram
Como tiveste a ideia de formar esta banda para este projecto, pegando em músicas anteriores — algumas editadas, outras inéditas — e dando-lhes novas roupagens?
Tenho ideia que tropecei na frase do Lavoisier algures e que a mesma me pôs a pensar e a tentar relacioná-la com a actividade musical. Daí a ter a ideia de remisturar músicas que tenho no “disco duro” e falar com os músicos para me ajudarem a concretizar a ideia, foi só seguir a energia do entusiasmo criativo.
Para quem não ouviu, que música é esta? Rap com uma base instrumental jazzy?
Exactamente. Ou pelo menos uma tentativa de me aproximar ao máximo dessa ideia. Jazz, jazz-funk, soul-jazz, por aí.
Dizes que as músicas inéditas têm cerca de 10 anos. São de projectos a solo que ficaram pelo caminho?
Sim, maioritariamente de um álbum duplo que nunca saiu, mas também algumas sobras de projectos mais recentes. E todas as músicas são remixes. Mesmo as que nunca foram lançadas estão neste álbum muito diferentes do que estavam no meu “disco duro”.
É curioso porque parece o sentido contrário da remistura convencional — ou seja, parte de uma base hip hop tradicional, um processo mais electrónico, para se converter em instrumentos e em música mais orgânica. Foi o que te apelou nesta ideia?
Também. O facto de ser um pouco avesso ao que é habitual, o processo quase ao contrário do normal, acabou por ser a cereja no topo do bolo, o ouro sobre o azul. Mas, em primeiro lugar, a oportunidade de ouvir a minha voz, os meus raps, com backgrounds sonoros diferentes daqueles a que eu e quem me consome está habituado. Desde o início dos anos 90, altura na qual houve muita produção de rap tingida com as cores do jazz (inclusive com a invenção de uma espécie de subgénero chamado jazz-rap) e com a minha apreciação pelos The Roots, que imaginava os meus raps a fundirem-se com bases instrumentais mais inclinadas para essas sonoridades. Este projecto foi um pouco o concretizar, finalmente, dessas minhas fantasias. Já tive uma banda em conjunto com músicos — os CRU — mas não chegou a haver espaço para raps, no que lançámos para o mercado eu só cantava. O Lavoisier tornou-se o check desse meu desejo antigo: rap + instrumentos — feito.
Como foi o vosso processo criativo? Pelo que anunciaste, os músicos contribuíram directamente para as composições, não fizeram apenas a transposição para os seus instrumentos.
Todas as músicas tinham, originalmente, bases produzidas com recurso a samples. Dessas versões, parti para a total desfiguração, compondo bases totalmente novas, com acordes básicos e progressões melódicas dentro do que são as minhas parcas capacidades como teclista. Os músicos trabalharam em cima destas versões com os meus esboços. No fundo, ao fazerem a transposição do que existia para os seus instrumentos, acabaram por estar a co-compor. Porque um teclado nas mãos do Sérgio Alves [AZAR AZAR] não é o mesmo instrumento que estava nas minhas mãos. E o mesmo se pode e deve dizer dos restantes músicos, todos eles elevaram este álbum a algo que eu não poderia imaginar, mesmo já conhecendo os seus dotes. O Pedro Santos tem acompanhado as minhas produções desde os CRU com os seus graves deliciosos (é, para mim, a nata da nata no baixo) e o Gonçalo Salta, sendo o músico que conheço há menos tempo, esteve perfeitamente à altura do desejado, com um belo groove e uma humildade absolutamente louvável para se moldar ao conceito e às ideias que eu já tinha executado nos esboços.
Tens um featuring do Virtus? Qual é o tema?
A música chama-se “Amarrado a Ti”. Esta é uma das que foi gravada há já muitos anos para o tal álbum duplo e nunca viu a luz do dia. Quando pensei neste projecto, sabia que esta era uma das músicas que tinha de constar — tanto eu como o Virtus tínhamos alguma tristeza pela música nunca ter chegado a ser lançada. O tema é o típico da descrição da nossa relação com o rap, e com o ser artista, como se a música fosse uma mulher. O final da música tem uns bloopers muito engraçados da sessão de gravação que eu resolvi acrescentar e tornar parte da música.
Já está disponível para encomendas em CD. Vai chegar às plataformas digitais?
Sim, muito em breve estará nas plataformas digitais. Eu tenho lançado os meus álbuns sem sincronização entre o início das vendas físicas e a divulgação nas plataformas porque sei que tenho um nicho de público que não precisa de ouvir as músicas para decidir comprar um álbum e fá-lo à confiança, imaginando que só possam gostar do que vão ouvir e porque o fazem também para apoiar a minha carreira e subsistência enquanto humano. Mas muito em breve estará disponível em todo o lado.
Que outros projectos estão a caminho da tua parte?
Tenho ideias que tenho vindo a, paulatinamente, registar por necessidade de estimular o exercício criativo. Nada concreto. Nem sequer consigo garantir que existirá algo mais para além deste Lavoisier, que pode muito bem ser o último álbum da minha (longa) carreira. Eu faço a minha parte — crio, mostro, partilho. Tudo o resto está fora da minha esfera de influência: as pessoas ouvirem ou não, consumirem ou não, comprarem ou não, alguma coisa tocar na rádio ou não, acontecerem concertos ou não, tudo isso está fora das minhas mãos. Um dia de cada vez. “Que sera, sera”.