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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/01/2026

Na última sexta-feira de cada mês, Miguel Santos escreve sobre artistas emergentes que têm tudo para tomar conta do mundo da música.

Abram alas para… INJI

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/01/2026

Reza a lenda que Janeiro tem 35 dias. É aquele mês chato que parece nunca mais acabar, arrasta-se quase infinitamente, é frio, estático e monótono. E para contrariar isso, sugiro algo quente, gingado e cativante: “THE ONE”, da jovem İnci Gürün. A artista mais conhecida como INJI mostra a personalidade da sua escrita acompanhada por uma batida solarenga com um groove familiar que se une sem esforço às suas palavras. E como só uma canção infelizmente não chega, segue-se uma aventura pela discografia desta singular artista.



A história de INJI começa num país em dois continentes. Nascida em Istambul, na Turquia, foi lá que se apaixonou pela arte musical. Começou com aulas de piano aos sete anos e, após um período de prática, foi aceite no Conservatório de Istambul, onde passou dez anos a estudar teoria musical e piano clássico e a participar em competições de piano pela Europa fora. Não ganhou nenhuma, mas as ferramentas que adquiriu foram uma base importante para o futuro. Anos mais tarde, na sua educação de secundário em Londres, juntou-se a grupos de jazz e coros. E na etapa final da sua educação, na Universidade da Pensilvânia, juntou-se a um grupo de música a cappella e formou uma banda de jazz. Seja onde quer que a vida a leve, a música tem sido sempre a sua companheira nessa viagem. 

O primeiro single de INJI é lançado em 2022. “GASLIGHT” foi produzida por Alex Graff, baterista do projecto de jazz de INJI e colega da artista na universidade. É uma música simples, com um instrumental rudimentar, sediada no universo da música electrónica com ênfase no house, mas o que verdadeiramente transparece é a personalidade de Gürün. E é uma personalidade que diz muito a muitos: a canção tornou-se viral no TikTok e propeliu a sua autora para a luz da ribalta online em pouco tempo. Felizmente, não foi caso isolado: pouco tempo depois, “MADELINE” voltou a deixar as redes sociais em chama, com uma batida mais composta e uma conjunção eficaz entre estrofes cantadas com mais emoção e um refrão mais monotónico e disparado, a lembrar Charli XCX. Ambas as músicas fizeram parte do seu EP de estreia, LFG, lançado em 2023.

É clara a jovialidade de INJI em LFG, mas é também clara que dá os primeiros passos ao seu ritmo, e mostrando sempre o seu maior trunfo: a sua persona divertida e descontraída acoplada a uma escrita que é pessoal e 100% transmissível. Não reinventa nada mas também não é esse o objectivo, são pouco menos de 20 minutos de folia de alguém a testar as águas, a descobrir-se enquanto o mundo a descobre quase simultaneamente. E embora INJI ainda não o soubesse nesse momento enquanto terminava a sua licenciatura em finanças, estava a perceber que o seu futuro era no meio de notas, mas não daquelas que associamos a negócios.

Apesar da viralidade das suas canções, Gürün terminou o seu percurso universitário e começou a trabalhar numa empresa de consultoria. Mas algo não estava certo. Viveu um período tenso, em que teve de tomar uma decisão que não foi fácil. É dessa decisão que nasce o seu segundo EP lançado em 2024, WE GOOD, bálsamo que lhe deu alento na sua escolha de trocar algo mais certo e consistente pela incerteza do mundo artístico. É a caminhar que se faz o percurso e as canções deste projecto passam definitivamente pelos pés. É dança de uma ponta a outra, desde os primeiros momentos de “NICE TO MEET YA”, que tem qualquer coisa da magia de Parov Stelar e ouvimos INJI cantar na sua língua materna, que alia ao inglês de forma orgânica, passando pela ode ao amor próprio que é “SEXY 4EVER” com um auxílio do convidado de peso Nile Rodgers e terminando com a alegremente tristonha “ROT” com um refrão entoado com caramelo. WE GOOD foi a prova de que está tudo bem na vida de Gürün, é preciso é continuar a criar. 

E foi isso mesmo que fez. Um ano depois volta com SUPERLAME, uma mixtape para acalmar os ânimos enquanto não chega o álbum de estreia. É notável ver a diferença para o que antecedeu este lançamento. A gama sonora é mais expansiva, vemo-la sem medo da abrasão em temas como “JEANS” — sons distorcidos acompanham um convite honesto e sem rodeios — ou “U WON’T”, munida de graves cortantes, e também no hino de insatisfação que é “EVERYTHING IS NEVER ENOUGH”, um dos destaques do projecto muito por causa dos apontamentos sagazes de INJI em versos como “I want my face known, but I lowkey hate it”. Humor e sinceridade são dois aspectos fundamentais à obra da artista, e a razão para a sua música ressoar com tanta gente. Quem nunca acordou com vontade de mandar tudo à fava como ouvimos na bamboleante “TEEN ANGST”? INJI discursa sobre temas universais mas fá-lo através da sua individualidade e ponto-de-vista. 

SUPERLAME é como uma veloz montanha russa em que só nos apercebemos que estamos ofegantes quando termina o seu estonteante percurso. É um conjunto estimulante de canções que estilhaça gelo, evapora orvalho e faz o tempo voar com a sua diversão. E assim chega ao fim este gélido mês de Janeiro, com final anunciado por uma companhia mais do que digna. O enfadonho esbarra com o entusiasmante, num duelo pujante em que o vencedor é sempre o ouvinte.


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