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Fotografia: Kane Ocean
Publicado a: 27/03/2026

Na última sexta-feira de cada mês, Miguel Santos escreve sobre artistas emergentes que têm tudo para tomar conta do mundo da música.

Abram alas para… Infinite Coles

Fotografia: Kane Ocean
Publicado a: 27/03/2026

Ao ouvirmos “Dad & I” um dos mais recentes singles de Infinite Coles, torna-se claro que o seu autor é alguém que reflectiu sobre os seus problemas familiares e utiliza a arte para os exorcizar. Sentimos que o artista norte-americano está a tentar comunicar com o seu pai de forma sincera, madura e acolhedora, sob um instrumental que lembra o r&b dos anos 90 e um hook que tem tanto de emocional como de contagiante. Quezílias familiares são um tema abordado por tantos outros que vieram antes — e certamente por muitos que ainda virão. Mas não é comum a música ser dirigida a um dos maiores nomes do hip hop norte-americano, Ghostface Killah, membro dos lendários Wu-Tang Clan.

Dennis Coles herdou o nome do pai mas a sua ambição musical é outra. E antes que acusem o nativo de Staten Island de utilizar a sua herança como trampolim para o estrelato, importa referir que Ghostface Killah e o filho não se falam há uma década. Infinite Coles tem uma relação complicada com o seu pai, ausente de grande parte da sua vida. Foi outro membro dos Wu-Tang Clan que viu o potencial de Coles. Quando o artista tinha 14 anos, RZA ficou impressionado com a voz do rapaz depois de o ouvir cantar uma música de natal para a família. Apesar de estar rodeado da realeza do hip hop, Infinite Coles tinha como inspiração outro tipo de artistas como Aretha Franklin e Whitney Houston e isso percebe-se pela maneira como encara os deveres melódicos: há uma aproximação a esses astros vocais, ouvimos a sua influência na entrega de Coles. 

A sua primeira marca nas artes criativas surgiu em 2015, quando aos 22 anos teve um papel na curta-metragem Gang de Clayton Vomero. Além do seu papel no filme, também trabalhou na banda sonora com o produtor XXXChange, que o recomendou a Richard Russell, um dos homens por trás da mítica editora XL Recordings. O resultado foi uma participação no projecto Everything is Recorded de Russell, mostrando em temas como “Bloodshot Red Eyes” e “Be My Friend” que estava à altura do desafio. Esta foi também uma oportunidade de conhecer artistas como Giggs ou Sampha, sendo que ouvimos as influências desse último nome no primeiro projecto de Infinite Coles, Destiny.



Lançado em 2021, o projecto surge numa altura difícil para Coles, em que estava a viver num abrigo. A situação era desconfortável e sente-se o peso dessa incerteza nos temas. “Infidel” abre as hostilidades a lembrar qualquer coisa do universo de James Blake, mas mais minimalista, e músicas como “Spiders” ou “Round” mostram-no mais discreto, recatado. “No Room” é um triste relato de alguém que se sente isolado e sussurra o seu sofrimento. Apesar de Infinite Coles não ter boas memórias desse projecto, Destiny foi um primeiro passo importante e a falta de estrutura é suplantada pela facilidade com que se nota o talento na voz do artista. 

As areias do tempo proporcionaram-lhe perspectiva, crescimento e paz interior. Além disso, encontrou um produtor à altura para o ajudar a esculpir cuidadosamente o próximo passo da sua carreira. Depois de conhecer Zach Witness online e colaborarem pela primeira vez, fizeram 11 músicas em 13 dias. O resultado mais imediato desta sinergia foi “Boots”, lançado adequadamente em Junho de 2024. Ouvimos Infinite Coles pronto a animar aqueles que abanam os pés com um timbre de quem estaria em casa no centro da pista de dança. É um tema sem rodeios, fácil de ouvir, e o início de uma nova e interessante fase da carreira de Coles. 

Isso torna-se ainda mais evidente em SweetFace Killah, o álbum lançado por Infinite Coles no final de 2025. O título surge de um insulto que lhe dirigiram, mas em vez de deixar isso a remoer usou-o como uma arma contra aqueles que o tentam mandar abaixo, empoderado e revigorado por uma nova perspectiva da vida, como a introspectiva e libertadora “Thankful” demonstra. A já referida “Dad & I” foi lançada como single de promoção e foi acompanhada por outro tema que contrasta pela sua entrega combativa. “SweetFaceKillah” é um banger indomável com um refrão intoxicante em que o ouvimos confortável tanto a cuspir barras dilacerantes como a cantar de forma mais suave. Essa é uma das valências do álbum: a versatilidade de Coles. Em “DMs” ouvimo-lo cantar um refrão com desprezo certeiro que contrasta com o tom agudo das estrofes. “Shoots” remete-nos a Frank Ocean, numa batida mais lo-fi e atarefada, uma boa prestação vocal que não fica atrás do house brilhante de “BGM”. É em temas como esses, a espacial “Hummingbird” ou a faixa-título em que sentimos verdadeiramente a natureza dançável e marcadamente electrónica de SweetFace Killah, através de loops vocais que parecem propositadamente incluídos para ajudar a encaixar as músicas em DJ sets

Infinite Coles não teve um percurso fácil. Mas depois da tempestade vem a bonança e os únicos trovões que ficam são os rugidos perfeitamente afinados de alguém com uma confiança renovada e pronto para tudo e para todos. SweetFace Killah é a garantia de que o melhor ainda está para vir. E é de pés azafamados e mãos no ar que assistimos ao desabrochar de um artista convicto das suas capacidades.


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