Há males que vêm por bem e há confusões que espoletam alter egos. Esta dicotomia é encarnada fielmente por Raquel Pimpão: os dotes instrumentais da jovem pianista das Caldas da Rainha não são prodigiosos, mas isso não a impediu de criar canções harmoniosamente ricas e intrincadas ou de ser uma peça importante de bandas como Fumo Ninja ou Raging Dildos. Femme Falafel, o nome que escolheu para o seu projecto musical, surge de uma troca de mensagens com uma amiga que julgou ser esse o nome da música “Femme Fatale” de Haruomi Hosono. E quanto ao resto da sua história, Pimpão deixa a sua música falar por si.
O seu percurso começou no Conservatório de Mùsica das Caldas da Rainha. Os seus estudos debruçaram-se no piano clássico, mas acabaria por gravitar para o jazz anos mais tarde, tirando uma licenciatura em Piano Jazz na Escola Superior de Música de Lisboa. A viagem musical seguiu por terras dinamarquesas, onde Pimpão fez um mestrado em Composição Jazz. Ao ouvirmos a sua música, conseguimos sentir a sua formação académica. Mas há algo sem canudo que também transparece no meio dos acordes de quatro e cinco notas e das complexas transições melódicas: a sua jocosa e incisiva caneta.
O seu primeiro single surge em 2022. “Depressão” é uma canção leve sobre um tema pesado, carregada por um instrumental reluzente com vários momentos musicais que ajudam a mostrar diferentes facetas de uma personagem interessante, cativante e humorística. Não é surpreendente que esta tenha sido a música vencedora da edição de 2023 do Festival Termómetro, contrariando a palavra que lhe dá nome com uma alegre e merecida vitória.
Um ano depois, voltou à carga com “Romance Feudal”, vagamente inspirada pela obra O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir. Ao ouvirmos a letra convidativa e divertida percebemos que a escrita de Pimpão é descontraída, brincalhona e feita por alguém que não se leva muito a sério. Mas ouvimos um profissionalismo inerente aos seus instrumentais que rivaliza essa leveza literária. Há uma preocupação com o detalhe para garantir a atenção em cada compasso e os sorrisos dos ouvintes vêm tanto das palavras como das colcheias. “Electrocardiodrama” é outro desses exemplos. Há um groove inescapável que alimenta os desalentos cardiovasculares e as arritmias tristonhas descritas pela sua autora, uma conversa animada entre ironia e primor instrumental.
E eis em Outubro de 2025 Femme Falafel lança através da editora Revolve o seu primeiro álbum de originais. Dói-Dói Proibido é o título escolhido para a sua estreia oficial em nome próprio, um conjunto de canções que mostra definitivamente as valências de Pimpão. As suas inspirações são variadas: vai buscar ao imaginário millennial português com temas como “Camada do Ozone”, em que discorre sobre as suas inquietações circundada por um instrumental açucarado a lembrar MPB. Mas também ouvimos house e disco em temas como “Rio”, o momento bola de espelho em que quentes sopros e uma bateria ocupada inspiram as palavras libertadoras da sua autora. Em “Mitra Indie”, o instrumental é mais discreto e o foco está nos dotes de cronista de Pimpão, descrevendo um personagem engraçado e conjugando dois mundos de forma eficaz e engenhosa. As melodias que canta são simples, é nas palavras que está o mais complexo e não nas suas inflexões vocais. É isso que demonstra a mensagem directa ao assunto de “Floresta da Amazónia”, em que explora o território da música electrónica com um apelo embrulhado num instrumental atarefado.
Mas quando chegamos ao final do álbum as coisas começam a complicar-se. Em “Livre Arbítrio” ouvimos algo diferente, um sincero desabafo de alguém receoso e vulnerável que discute as suas preocupações de forma honesta. Pimpão discursa sobre a tranquilidade que advém de abdicar da liberdade por paz de alma, ou de pelo menos ausência de culpa no cartório. Mas termina resoluta, disposta a continuar a lutar pelo que quer, nos seus termos e como se sente mais confortável.
Dói-Dói Proibido é um conjunto de devaneios cuidadosamente estruturados, fruto de uma mente efervescente onde habitam irmamente progressões instrumentais mirabolantes e punchlines vivazes. É uma abordagem fresca à música portuguesa, misturar humor na música, mas é evidente que Pimpão o faz com critério, paixão e uma atitude vigorante. E se há alguém capaz de desbravar este terreno, é sem dúvida Femme Falafel.