O fenómeno de “cultural frame switching” ocorre quando indivíduos bilingues alternam entre diferentes mindsets culturais dependendo da língua em que estão a falar. Por exemplo, quando respondem a um questionário na sua língua nativa, associam certas normas ou valores relacionados com essa língua e não com a sua segunda língua, e vice-versa. O objectivo desta introdução massuda não é de todo discursar sobre este interessante fenómeno neuro-linguístico, mas sim extrapolá-lo para uma área mais familiar a todos os leitores: a música. Será que a escrita de um artista bilingue se altera consoante a língua em que escolhe escrever? Será que um artista bilingue escreve uma música na sua língua nativa ou na sua segunda língua porque só naquela língua é que faz sentido? Já temos as nossas perguntas, agora falta testar a hipótese. E de fones nos ouvidos e com praticamente toda a música da Humanidade à nossa disposição, começamos pelo primeiro caso de estudo: Blu Samu.
A artista nascida Salomé dos Santos começou a sua vida em Portugal, mas foi em tenra idade que se mudou com a mãe para a Antuérpia. Criada na Bélgica, foi lá que descobriu o gosto pelas palavras. Aos 13 anos começou a escrever histórias de ficção científica e fantasia, passando para a poesia e mais tarde para a escrita de letras. As palavras que escolhe são aguçadas, nota-se que estiveram a fervilhar à espera do momento certo, do local certo, para serem usadas por quem as organiza em versos sapientes. Os instrumentais que acompanham as suas letras remetem-nos ao hip hop e R&B dos tempos modernos, são simultaneamente um ponto de partida e um ponto de encontro. Mas desenganem-se aqueles que pensam que Blu Samu se restringe a esses géneros.
O primeiro projecto surge em 2018. Em pleno verão, o EP Moka veio subir a temperatura. Ouvimos grão e um contrabaixo em “Sade Blu”, jazz e hip hop bem conjugados num tema cujo título nos remete a uma rainha musical e as barras nos fazem lembrar de outra lenda viva, Lauryn Hill. Em “Manzanita”, ouvimos um trap de sunset, pensamentos introspectivos partilhados entre canto e declamação. Faz questão de se rodear da sua própria voz em “Nathy”, tema repartido entre o português, o inglês e o espanhol — este último cortesia do convidado Peet — sob uma batida de cair confortavelmente num sofá em câmara lenta. Moka mostra Blu Samu a aterrar na cena musical sem grande espalhafato, descontraída e com uma sonoridade facilmente apelativa, rivalizando o projecto que se seguiu.
ctrl-alt-del chegou pouco mais de um ano depois do seu predecessor, e trouxe uma frontalidade da sua autora desconhecida até esse ponto. Não é tanto rebeldia, é mais um resoluto bater de pé, como “Psycho” tão bem demonstra. A música que inicia o EP é temerosa, lembra um A$AP Rocky mais fantasmagórico e tresloucado. O trap e as barras são o que impera neste projecto através de temas como “Butter” ou “GFM”. Em apenas 13 minutos, Blu Samu desvenda uma nova faceta musical, mais aguerrida e confiante. É uma prova da sua versatilidade, e mais ainda estava para vir.
Três anos depois, lança o EP 7, em parceria com o produtor francês Sam Tiba. O projecto fala das várias versões de amor que Blu Samu experienciou, e a artista teima em reinventar-se, em esticar a corda: uma música como “Pai” destoaria de ambos os projectos anteriores, mas ao ouvirmos as suas guitarras saudosistas não estranhamos esta abordagem por parte da sua autora. O destaque vai para temas como a melancólica “Douceur” — em que junta o francês ao seu leque linguístico — ou a dançável “Turquoise”, que mostram um projecto marcadamente mais electrónico. Mas a artista apresenta-se confortável nestas novas aventuras musicais.
Tendo em conta o percurso de Blu Samu, não é de estranhar que o seu álbum de estreia seja difícil de definir. Lançado neste mesmo mês de Fevereiro, (K)NOT é o aprimorar de uma carreira singular. “Yearning” introduz-nos ao álbum com uma conversa da autora consigo mesma e para si mesma, ansiando por dias melhores com um instrumental esparso que cresce de forma orgânica. E logo a seguir troca as voltas a quem achava que a conhecia: “Nonsense” é contida, com uma ansiedade que fervilha por baixo da superfície, guiada por um baixo seco e pautada por momentos de contido caos electrónico. Não é caso isolado: “I Hate Myself” conjunta malhas de guitarras com BPMs que raramente as vêem e “Breakfast” — um amuo que esconde falta de motivação — tem groove tristonho de R&B com um toque de funk. Há um ênfase na voz cantada mas as barras nunca estão longe, exemplificadas pelos articulados versos de “Stains” ou as ordens ameaçadores de “Move”, munida de um instrumental que caminha sobre a ténue linha entre ensurdecedor e intoxicante. (K)NOT é um projecto polivalente, de uma autora segura de si mesma e ambiciosa na sua contínua exploração musical.
Chegamos ao final desta “experiência científica” sem grandes respostas para as perguntas que nos trouxeram até aqui. Mas a Ciência tem dessas coisas: às vezes começamos à procura de algo e acabamos por descobrir o que não estava no nosso radar. E o que descobrimos é que seja qual for a língua em que Blu Samu escolha cantar, tem tudo para dar certo. So just let her cook.