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Fotografia: Direitos Reservados

O ponto de partida para o início de uma conversa importante.

A teoria musical é racista? Adam Neely crê que sim

Fotografia: Direitos Reservados

O vídeo “Music Theory and White Supremacy” (inicialmente intitulado “Music Theory Is Racist”) tem sido alvo de atenção desde que saiu há cerca de duas semanas – em parte pelo título provocador, certamente. Neste documento audiovisual de cerca de 45 minutos, vemos Adam Neely, o músico/YouTuber a argumentar sobre como a noção de teoria musical, da forma que é ensinada a nível académico, carrega uma carga de divisão racial, histórica e pesada, exaltando-se a importância de determinados compositores muito canonizados (e as suas técnicas de composição e notação), e que, curiosamente, tendem a ser mais brancos.

A canonização ocorre por variadíssimas razões e expressa-se em imensas dinâmicas e formas, e não é exclusiva da música erudita dos séculos XVIII e XIX. Vemo-la nos dias de hoje nas t-shirts dos Guns N’ Roses, dos Nirvana, ou com os símbolos icónicos da língua dos Rolling Stones ou da pirâmide dos Pink Floyd, vendidas na Pull & Bear ou na H&M; nos discursos de “o rock (não) morreu”; na conversa saudosista de “antes é que era música”, “antes é que era bom”. E não se enganem: também academicamente se discutem os problemas da canonização da música – quem sabe se com mais ou menos fervor que nas esferas da música dita popular/ligeira actual.

No entanto, o foco da canonização neste vídeo é outro. A associação normal àquilo que é a teoria musical é, segundo o autor do vídeo, uma visão eurocêntrica e datada: música composta por homens brancos, maioritariamente germânicos. Quando nos referimos à teoria musical, aquela que é ensinada nos conservatórios e na academia, falamos sim do estilo harmónico de músicos europeus do século XVIII, diz Neely. E é aí que começam os problemas.

Entre as várias camadas do que pode ser discutido nos argumentos de Neely (que faz um bom trabalho no suporte às suas ideias com fontes e argumentos bastante sólidos), o que podemos claramente notar, duma perspectiva mais prática, é que a teoria musical não faz um bom trabalho quando quer representar, na notação ocidental, outros géneros de música que não a música dita erudita. No entanto, saliente-se que para alguém que tire um curso de Ciências Musicais, em Portugal, estas noções de que a notação ocidental não representa toda a música com a mesma exactidão são veiculadas em várias das disciplinas.

A teoria musical que é aprendida nestes contextos tem, acima de tudo, uma perspectiva cultural. A análise que é feita duma determinada música tem sempre em vista uma determinada notação, o que a torna automaticamente não-universal. Ainda mais quando, numa mesma cultura, esta notação se demonstra incapaz de representar e analisar uma diversidade de géneros musicais com alguma exactidão. Phillip Ewell – entrevistado no vídeo — defende no seu artigo Music Theory and the White Racial Frame que “a teoria musical pode ser vista como ideologia racial, na qual as perspectivas e ideias de pessoas brancas são mantidas como mais significantes/significativas que perspectivas e ideias de pessoas não-brancas”.

Um exemplo muito utilizado no vídeo é do baixo contínuo, típico do período barroco. Em 1884, Rimsky-Korsakov diria que esta notação musical era datada, num período que a inovação no meio da música erudita começava tendencialmente a borbulhar, em direcção a um dinâmico período do modernismo, com o atonalismo cada vez mais presente nesse meio musical – corrente da qual surgem compositores como Stravinsky, Debussy ou Schoenberg. Neely defende, então, que o baixo contínuo é “inútil para ler qualquer tipo de música que não seja ocidental ou tonal”, ao que Ewell acrescenta, com base na tese do seu artigo, que a perpetuação desta técnica de escrita é uma forma de reforçar a supremacia branca da composição musical. E remata que cada cultura tem uma riqueza musical e uma teoria específica e singular que a acompanha.

Adam Neely passa o exemplo para música do Norte da Índia. Ao nível de ornamentação, escalas e combinações de notas, apresenta-se diferenças muito interessantes (consultem o canal de Anuja Kamat) e Adam defende exactamente o uso de uma quase musicologia comparada, em que usamos uma cultura musical para entendermos outra, fazendo os paralelos, ligações e distâncias certos para cada conceito, técnica ou ferramenta. Mesmo sendo uma metodologia complicada, por não perder a parcialidade da sua visão – portanto, a perspectiva cultural –, o intuito do autor do vídeo é exactamente o de incentivar ao conhecimento de mais e diferentes teorias para o estudo da música.

O que é importante recordar neste argumento de Neely, e o que justifica o seu (inicialmente impiedoso) título, além de uma consideração de que a supremacia branca está na génese de como a música e a sua teoria são ensinadas academicamente, é o exemplo usado na entrevista com o musicólogo Phillip Ewell: “em vez de 50 exemplos de Bach… porque não ter dois exemplos?”. O esforço para recuperar a música de J.S. Bach foi feito posteriormente por músicos como Mendelssohn, no entanto não houve o mesmo esforço (ou os mesmo resultados) para recuperar artistas que não fossem homens brancos e a canonização desse selectivo grupo de músicos “geniais” está no centro de muitos desses problemas de representação e de teorização da música.

Também isso é reflectido no exacerbar da “mestria” da música europeia do século XVIII da teorização de Heinrich Schenker, que nomeava pelos dedos das mãos alguns génios que representavam o topo de toda a música. Note-se que nessa mesma música, para a analisar, o baixo contínuo – técnica de notação que abordámos acima – é bastante útil, mas a análise de Schenker não serve para entender mais nenhuma música que não a dita erudita do século XVIII. Aliás, Adam defende mesmo que este tipo de análise e de notação de pouco ou nada servem para explicar/expressar ritmo ou timbre, dois dos elementos que mais figuram e definem a impressão digital dum tema. Por baixo desta teorização de Schenker, há ideais de superiorização racial e cultural germânica que datam dos primórdios da Alemanha Nazi, assim esquecendo e menosprezando teóricos como Barry Harris ou George Russel (de jazz), ou compositoras como Florence Price.

Alguma dessa ideologia passa para os dias de hoje. Mais próximo do universo por que passa o Rimas e Batidas, Adam pega no exemplo do comentador Ben Shapiro, que argumenta que o rap não pode ser considerado música. O seu pai, um teórico, nas suas palavras, afirma que a música responde a três elementos: harmonia, melodia e ritmo, e que o hip-hop só obedece a este último. Há muito que se pode usar para contra-argumentar este comentário desinformadíssimo, mas podemos usar a via académica para facilmente explicar que em 1973 (há quase 50 anos!) John Blacking contradizia isso mesmo, afirmando que a música eram sons organizados pelo Homem (esta noção não é aceite actualmente, mas é uma das mais recentes e mais próximas duma definição de música “aceitável”) no incontornável livro da Musicologia, How Musical is Man?. Curiosamente, ou não, na introdução do mesmo livro, Blacking falava da importância da notação musical, mas da sua incapacidade na análise de música dita “folk” dos Venda. Não, a música não é composta só por harmonia, melodia e ritmo – e, mesmo se fosse, o rap encaixava-se perfeitamente nesses parâmetros.

Ao contrário da matemática, por exemplo, a teoria musical não é uma linguagem universal — falta-lhe englobar mais culturas. Tanto que se argumenta, neste caso quem o faz é Kofi Agawu, que para nos graduarmos em música em determinados países do Oeste Africano é obrigatório saber dançar, por exemplo. Voltando ao título inicial do vídeo de Adam Neely, restam poucas dúvidas sobre a reflexão que propõe: a teoria musical tem uma perspectiva cultural, e a nossa é muito branca…


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