A “outra” música dentro de The Life of Pablo

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Dimitrios Kambouris

Já estamos todos mais calmos? A tormenta já passou, ou talvez não, e o álbum pode ser ouvido na íntegra na plataforma Tidal. The Life of Pablo é mais um testemunho sincero do que vai na cabeça de Kanye West e tem um elenco de luxo entre os convidados e, claro, os samples escolhidos. Os 58 minutos vão-se passando e não é só a descoberta de novas músicas que nos desperta os sensores e os sentidos – dez audições não chegariam para desvendar cada pedaço de história que vive em cada composição.

Para já, o ReB foi à procura dos “pedaços” de música que Kanye pediu emprestado para compor o sucessor de Yeezus. Prometemos que irão encontrar nesta lista nomes que vos farão ouvir TLOP com feeling arqueológico e perder horas a descobrir alguns dos artistas que fazem parte dos créditos.

 


[“FATHER STRETCH MY HANDS PT. 1”]

Kanye West disse que este seria um álbum de gospel e as duas primeiras faixas tratam de nos preparar isso. A verdade é que estas músicas são os únicos exemplares que apontam para esse género que tem a tendência por nos tornar mais susceptíveis à fé, dada a força das suas composições. O Pastor T.L. Barrett traz o seu coro Youth For Christ e dá o seu poder divino a uma batida que liga elementos de trap com gospel de 1976 como se tivessem sido congeminadas para estarem juntos.

A juntar a este sample de “Father Stretch My Hands”, Future faz-se ouvir logo aos 16 segundos com umas palavras de “Jumpman”, música construída a meias com Drake para a mixtape What a Time To Be Alive. Kid Cudi também é convidado surpresa e esta faixa é mais um exemplo da capacidade de Kanye em unir os mais diferentes elementos para criar um som coeso.

Os créditos de produção são atribuídos a Kanye West, Metro Boomin, Rick Rubin, DJ Dodger Stadium, Allen Ritter, Noah Goldstein e Mike Dean.

 


[“FAMOUS”]

“Famous” tem Rihanna e o verso mais polémico de TLOP sobre Taylor Swift, mas volta a surpreender pela escolha dos seus samples. O plot twist nisto? Kanye seleccionou Nina Simone e Sister Nancy para nos dar a volta ao cérebro e reflectir sobre se o suposto diss a Taylor não é apenas uma leitura errada. As duas artistas são conhecidas pela defesa acérrima dos direitos das mulheres e acaba por ser mais um monte de pistas contraditórias sobre um artista que é constantemente apontado como misógino.

Nina Simone tem lugar cativo nos artistas mais “samplados” por Mr. West e volta com “Do What You Gotta Do”, de 1968. Sister Nancy é uma estreia, mas demonstra a vontade de recuperar as pegadas reggae que tinha deixado em Yeezus com “Bam Bam”, um verdadeiro clássico do género.



Mas não ficamos por aqui. “Mi Sono Svegliato e…Ho Chiuso Gli Occhi” é recuperado da obra Contaminazione dos Il Rovescio Della Medaglia e traz-nos os seus órgãos de prog rock para tornar a batida numa malha com contornos épicos. A obra original é inspirada por Johann Sebastian Bach e é, só por si, um disco fantástico que, provavelmente, passaria despercebido a muitos fãs de música, principalmente dos que se focam apenas no hip hop. Yeezy a orientar-nos para um conhecimento supremo sobre todos os géneros musicais.

Os créditos de produção são atribuídos a Kanye West, Charlie Heat, Havoc, Hudson Mohawke, Andrew Dawson, Plain Pat e Noah Goldstein.

 


[“FREESTYLE 4”]

Arrepiante a utilização da música do duo electrónico Goldfrapp. A faixa “Human” saiu em 2001 no primeiro álbum da banda de Londres e tem uma aura sombria que é apropriada na perfeição por Yeezy. Desiigner, a nova coqueluche da G.O.O.D Music volta a aparecer e o fim traz-nos o beco mais perigoso que se poderia esperar encontrar no lado mais obscuro do marido de Kim Kardashian.

Hudson Mohawke terá sido o principal responsável pela concepção inicial desta batida e tem dedo seu por todo o lado, desde à escolha do sample de Goldfrapp até à envolvência do kick carregado de graves que nos puxa para dentro do pior pesadelo que se ouve em The Life of Pablo.

Os créditos de produção são atribuídos Kanye West, Hudson Mohawke, Mike Dean, DJ Dodger Stadium, Caroline Shaw, Trevor Guerikis e Noah Goldstein.

 


[“FML”]

Quem são os Section 25? Banda de Blackpool associada à famosa Factory Records. Post-punk a marcar presença no novo álbum de Kanye. O sample é manietado de forma a parecer ainda mais demente do que a versão original nos propõe inicialmente e “FML”, sigla para ‘Fuck My Life’, acaba por nos levar para uma espécie de universo Twin Peaks.

Martin Hannett, produtor celebrizado pelo trabalho com os Joy Division, deitou as mãos ao primeiro álbum da banda – onde entra esta faixa – e certamente não esperava ser revisto no álbum de um artista tão abrasivo como Kanye West. Oportunidade única de reviver a cena de Manchester.

Os créditos de produção são atribuídos a Kanye West, Metro Boomin, Noah Goldstein, Hudson Mohawke, Andrew Dawson e Mitus.

 


[“30 HOURS”]

Por esta altura já não deveríamos estar surpreendidos com a diversidade musical que encontramos na produção dos álbuns de Kanye, mas existe sempre algum nome que nos leva para ele e que nos faz perder algumas horas a ouvir a sua música. Arthur Russel foi incompreendido em vida, mas de forma póstuma foi-lhe reconhecido o seu verdadeiro valor, influenciando artistas que vão do pop ao techno.

E se as colaborações improváveis podem ficar mais esquisitas? Claro que sim. Kanye  resgata Nelly e “E.I.” de Country Grammar porque o Kanye é o Kanye – faz sempre o que lhe dá na real gana – e juntou Nelly e Arthur Russell numa faixa. Kariem Riggins a orquestrar tudo isto e a trazer um sabor diferente a tudo isto, juntando-se assim a Madlib na pasta dos produtores de hip hop com vontade de abrir portas através de um som mais clássico.

Os créditos de produção são atribuídos a Kanye West, Kariem Riggins, Noah Goldstein e Mike Dean.

 


[“NO MORE PARTIES IN L.A.”]

Madlib preparou uma surpresa daquelas bem sumarentas para Kanye West e Kendrick Lamar espalharem magia – numa faixa que esteve para ficar de fora da lista final…

Começamos com Johnny Guitar Watson a emprestar o início de “Give Me My Love”, passamos para “Suzie Thundertussy” de Junie Morrison, ouvimos Ghostface Killah em “Mighty Healthy” de Supreme Clientele e acabamos com o tio de Drake, Larry Graham. Madlib sabe como juntar os elementos e transformar um conjunto de peças normais numa instrumental para abanar a cabeça até cair.

Os créditos de produção são atribuídos a Madlib, Kanye West, Noah Goldstein, Andrew Dawson e Mixed By Ali.

 


[“FADE”]

O álbum termina com mais um exemplo de que a herança musical de Chicago está guardada num canto especial e tem uma derivação house muito incomum na sua discografia, se não inédita.

Larry Heard é um dos grandes do género nascido no Warehouse pelas mãos de Frankie Knuckles e “aparece” com o seu pseudónimo Mr. Fingers em TLOP. A pulsação que se ouve em “Fade” é retirada de “Mystery of Love” e dá-nos um sabor contemporâneo dessa música e uma amostra do que seria um Kanye West dedicado ao house – quem sabe se num próximo álbum teremos um Yeezy a mudar de direcção?

Os créditos de produção são atribuídos a Kanye West, Anthony Kilhoffer, Charlie Handsome, Benji B, DJ Dodger Stadium e Mike Dean.

Uma lista de grande parte dos samples organizado pelo WhoSampled: