A nova batida esquecida de Lisboa

[TEXTO] Eduardo Morais [FOTO] Direitos Reservados

No próximo sábado, dia 25 de Maio, o espaço Anjos70 vai receber a primeira edição de uma nova celebração da música árabe na cidade de Lisboa.

A ideia partiu do fotógrafo franco-argelino Sabri Benalycherif, que depois de viajar e viver por vários continentes encontra-se agora sediado Portugal. Foi em Lisboa que criou a plataforma A NEW MAGHREB que, segundo o próprio, “se dedica a documentar um Magrebe contemporâneo através de uma revista independente, de produção de eventos como este, de exposições fotográficas e produção de documentários. No seu ponto-de-vista, “sabe-se muito pouco do que está a acontecer hoje nesta região onde assistimos a iniciativas criativas locais. Gostaria de criar esta ponte entre este Magrebe jovem e contemporâneo com o resto do mundo. Acho que Portugal poderia ser uma ligação óptima neste sentido.”

Mas será que de facto — e fora de um discurso de gentrificação turística — Lisboa encontra-se hoje musical e culturalmente afastada de um conjunto de países tão geograficamente próximos? Sabri apela inicialmente à necessária “distinção entre o Magrebe e o Médio Oriente. Apesar dos regimes políticos que forçaram uma assimilação como Mundo Árabe Único, há muita diversidade que fica desconhecida. Um argelino (ou tunisino, por exemplo) sente-se mais perto de um mediterrâneo do que de um sírio ou um kuwaitiano. Nos media também temos o costume de assimilar o Mundo Árabe como um bloco cultural único. Não é bem assim!” Tirando as ligações turísticas e comerciais com Marrocos, a Argélia e a Tunísia não são sequer destinos na rota portuguesa da TAP. Marco Antão — o produtor prodígio do Lux que assina como Switchdance e talvez dos primeiros DJs por cá a rolar a bússola para composições de cariz arábico no universo electrónico — refere que “a História conta-nos essa grande influência Árabe (em Portugal), que se vê tanto na gastronomia como na arquitectura e arte. Na música temos os adufes, violinos, guitarra, alaúde e gaita – todos derivados de instrumentos árabes. Existem até alguns etnomusicólogos que defendem que o Fado tem alguma influência árabe. O clássico som do amolador, tocado na flauta, é feito numa escala arábica.”



Segundo Sabri, “fora de França, a musica árabe é ainda vista como música oriental exótica”. Se o Rai argelino tanta expressão teve em França e é talvez dos expoentes máximos do sucesso comercial de música árabe fora do seu epicentro, isso deve-se claramente às comunidades emigrantes dos arredores de Paris, que catapultaram nomes como Cheb Khaled ou Cheikha Rimitti para o estrelato internacional. Esse pedestal não chegou, porém, a Portugal, como pode até ser provado pela inexistência de discos árabes em qualquer feira de velharias do país. E que melhor barómetro que o diggin’ para uma afirmação sobre a cronologia musical de um país?

Peças fundamentais para o recente interesse global nas composições destas latitudes do século passado, são sem dúvida algumas editoras independentes como a Habibi Funk ou a Fortuna Records.

Para Switchdance, a música que se ouve actualmente em Lisboa “é sem dúvida a influência africana que se destaca, e a sul-americana também já cresceu um pouco. Mas em relação a sonoridades arabesques ou orientais é muito pouca ou quase nula. Só me lembro do Jibóia e dos DJs Death Disco Disaster e La Flama Branca como os únicos a tocar e mostrar às pessoas este tipo de influências nas pistas e concertos.” As produções de Barış K ou Acid Arab — pioneiras na fusão do “four on the floor” com as escalas árabes deste século — são, no entanto, pontualmente ouvidas em DJ sets na noite lisboeta.



“É o nosso dever quebrar este isolamento e construir pontes!”, ressalva o organizador da celebração A NEW MAGHREB, que acontece no próximo sábado. Pontes essas que neste dia irão do cinema à gastronomia: a partir das 18 horas será exibido o documentário Planet Malek realizado em 2018 sobre o compositor Ahmed Malek, a que chamam Ennio Morricone argelino. Após a exibição, a cabine passa a ser comandada pela própria realizadora do filme, Paloma Colombe, DJ franco-argelina residente do Le Mellotron em Paris; e Jannis Stuertz, homem do leme da editora Habibi Funk que trará o seu habitual leque de discos “mais que raros” para um fim de tarde dançante neste espaço lisboeta.

Se pelos ouvidos não está ainda apelativo, acrescento que o projecto gastronómico Marhaba – O Médio Oriente à Mesa, inserido no âmbito do Programa Municipal de Acolhimento de Refugiados na Cidade de Lisboa, irá estar presente toda a tarde com refeições de colocar o polegar e o indicador no lóbulo.


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