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A História do Hip Hop Tuga no Sumol Summer Fest: A concretização de um sonho com mais de 20 anos

[TEXTO] Diogo Pereira e Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hélder White

“Nós, quando tínhamos a vossa idade, tínhamos um sonho. Esse sonho concretizou-se hoje”

Foram estas as palavras, proferidas por NBC no final da sua actuação, que serviram de mote a uma noite de festa, nostalgia e orgulho. O sonho de fundar um movimento, de lhe dar vida, cor e alento, e de o ver crescer e alcançar horizontes.

Esse sonho foi contado ontem à noite no Sumol Summer Fest pela voz de mais de vinte rappers que ajudaram a moldar a história desse movimento.

A noite começou com a introdução de José Mariño, o autor do mítico programa Repto, que ajudou a lançar as carreiras de muitos rappers portugueses expondo o seu trabalho numa era pré-Internet, que ia anunciando os nomes e nos dando um breve resumo da sua importância para o movimento.

Esta foi uma noite de lições de história, contadas através da narração de Mariño, além de vídeo (para colmatar a ausência de alguns nomes importantes) e um relógio digital em baixo da bancada do DJ a indicar o ano de lançamento de cada música, num período de tempo que abrangeu 1994 a 2016.

Atrás do palco, a controlar os pratos pela noite dentro, DJ Nel’Assassin, membro dos histórico Micro.

Numa noite de grande entusiasmo e paixão, a palavra de ordem foi “energia” e a frase mais ouvida do concerto foi a inevitável e também compreensível “Façam barulho!”.

 


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A “viagem” começou bem mellow com o clássico “Black Magic Woman”, de General D, a aquecer o público na companhia de Sam. O pioneiro do rap nacional, que só apresentou um tema, demonstrou estar em grande forma e deixou água na boca. Faria sentido um novo trabalho em 2017?

Seguimos com os Black Company e o imortal “Não Sabe Nadar”. A idade do público não foi impedimento para a festa, mesmo que muitos dos presentes não tivessem sequer nascido quando o tema foi editado em 1994.

Bola para a frente para o ano 2000, com o clássico de Mind da Gap, “Todos Gordos”. Ace e Presto a lembrar porque é que foram dos principais responsáveis por colocar o rap do norte no mapa.

 


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Seguimos para 2002, com Sam The Kid a tomar o palco de assalto, acompanhado por Mundo Segundo, e cantar o seu clássico “Não Percebes”, hino não oficial do rap tuga, com a sua mensagem de orgulho inabalável.

Ainda em 2002, e os MCs de Mind da Gap regressaram ao palco para tocarem “Bazamos ou Ficamos” e deixarem bem claro que ainda têm os dotes de galã bem apurados.

Avançamos para 2003, com o clássico de Dealema “A Cena Toda”, do seu álbum homónimo. Expeão, Mundo Segundo, Maze e Fuse são um quarteto indestrutível, uma espécie de esquadrão especial do rap nacional que usa a palavra como arma.

Seguiu-se 2006 e Sir Scratch com o seu “Nada a Perder”, numa das duas actuações mais fortes da noite. Correndo o palco todo, e abordando o público bem de perto, nunca desiludiu. O MC voltou a demonstrar que é dos nomes mais underrated do rap português.

Logo depois, Sam The Kid voltou mais uma vez com o eterno “Poetas de Karaoke”, um dos seus singles mais acarinhados, e a reacção foi de êxtase. O rapper e produtor de Chelas foi o artista que melhor soube fazer a transição para o presente.

Continuamos para 2008 com o hino pacifista, “Sala 101” de Dealema e o neo-soul de NBC com “Segunda Pele”, momento em que proclamou o manifesto que abre este artigo.

 


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O relógio avança para 2012, e eis que Sir Scratch entra de novo em palco, desta vez com uma máscara roxa à Quasimoto e t-shirt dos Odd Future, a pôr o público da Ericeira a cantar o refrão interpolado de “Hip Hop Hooray” no seu “Tendências”.

E as mulheres? Sim, o rap nacional ainda não está totalmente resolvido nesse importante capítulo. Capicua segue com o toque feminino de “Maria Capaz”, a pôr as mulheres todas a cantar.

A noite deu uma reviravolta com o som mais negro, áspero e industrial de Halloween em “Drunfos” e “Killa Me”. Palco cheio para acompanhar o bruxedo na Ericeira.

 


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2013 marca o relógio com Dillaz e o seu “Não Sejas Agressiva”, relato de problemas amorosos e uma das faixas mais celebradas da noite.

Chega 2014 com o inequívoco arrojo de “Grande e Grosso” dos Tribruto e as suas punchlines de battle rap. Real Punch, Gijoe e Kristóman foram os representantes do Algarve a demonstrarem que a história do hip hop nacional não se cinge apenas às zonas de Lisboa e Porto.

 


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Aproximamo-nos do fim com 2015 e Tekilla a surpreender-nos com um clássico de 2004 produzido por Sam The Kid, “NCA”, ou “Tudo Duma Vez”, autêntica bomba recheada de graves.

Capicua volta ao palco para um momento de feminismo, homenageando todas as mulheres que fizeram parte da história do rap, lembrando que o hip hop não se faz só de homens.

Pausa para nova homenagem aos artistas que não puderam marcar presença. Desta vez, os nomes a aparecerem em vídeo foram Regula, NGA, Jimmy P, Piruka e Dengaz. Nota para a reacção em coro para cantar “Ca Bu Fla Ma Nau”.

 


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Continuamos para 2015 com os GROGNation, o quinteto que faz a ponte perfeita do passado para o presente. Curiosamente, as 2 faixas apresentadas na Ericeira são parte do EP lançado em 2015, Na Via. A música homónima e “Voodoo” são entoadas pelo público que reconhece o talento a Harold, Prizko, Neck, Papillon e Factor.

Entra Bispo e o seu “Mentalidade Free”, que pôs toda a gente a cantar as suas coordenadas geográficas: “2725, Algueirão, Mem Martins”.

A dream team Norte/Sul de Sam The Kid e Mundo voltou a honrar o palco com “Tu Não Sabes”, com punchlines para dar e vender.

Dillaz de regresso ao palco e “Mo Boy”, outro clássico moderno do rap nacional, a levar o público à loucura. O MC da Madorna é, no panorama actual, um dos nomes mais sonantes e celebrados.

A noite fechou com Holly Hood, outro artista unânime que tomou conta do rap nacional com O Dread Que Matou Golias. “Fácil” e “Cobras e Ratazanas” são os 2 grandes hits e, como não poderia deixar de ser, favoritos do público mais jovem.

 


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Embora se lamente a ausência de alguns nomes importantes (Boss AC, Da Weasel, Micro, Regula) ou a falta de referências nos vídeos (Nerve ou Keso, por exemplo), a noite foi recheadíssima de talento que cumpriu o que prometeu.

Curiosamente, tratando-se de um público predominantemente jovem, os músicos que obtiveram mais reacções foram os mais recentes, como Dillaz, Bispo e GROGNation. Mas isso é normal em qualquer movimento artístico que resista à passagem do tempo e que esteja em constante fase de reinvenção.

E os ingredientes são os mesmos de sempre, que fizeram este movimento perdurar: amor à música, energia, convicção e um forte sentimento de amizade.

 


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A fechar o concerto, Sam the Kid chamou ao palco um convidado muito especial: Gabriel, o Pensador, figura intimamente ligada ao movimento desde o início e influência absolutamente crucial para muitos dos pioneiros. Rodeado de todos os rappers em pose de vénia ao público a fazer lembrar o elenco no final de um episódio do Saturday Night Live, o artista brasileiro não só agradeceu e reconheceu a importância do rap português como ainda teve a oportunidade de cantar uma invectiva dirigida aos políticos corruptos, e pôs milhares de pessoas a cantar com ele “Filha-da-puta, filha-da-puta, filha-da-puta”.

No final ficam as suas palavras: “Só fica parado quem ‘tá morto”. Nem mais. A história do hip hop português ainda nem vai a meio.

 


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