Nuno Rodrigues era um génio. Podemos não nos ter apercebido disso ao longo das cinco décadas em que imprimiu uma marca indelével na nossa cultura, mas agora que infelizmente o músico nos deixou, não podemos ser complacentes com o exaltar de banalidades que muitas vezes vemos desfilar perante os nossos olhos. Para Nuno Rodrigues, as canções podiam ser para a Banda do Casaco, para as Doce, para Lara Li ou para o Conjunto Maria Albertina, mas havia um padrão abaixo do qual não concebia descer. Como ele próprio dizia, “não podíamos ter apenas um António Calvário e um Sérgio Godinho, é preciso termos também um António Godinho e um Sérgio Calvário”. “Misturador-mor” da nossa música, as muitas canções que escreveu — onde desfilam “Morgadinha dos Canibais”, “Natação Obrigatória”, “Salvé Maravilha”, “Homem Muito Brasa”, “Telepatia” ou “Ali-Babá” — reflectem tanto a sua paixão pelas músicas de raiz tradicional, de várias geografias, como pela música brasileira, pelo jazz ou pelas linguagens pop rock mais “elásticas”, tantas vezes servidas por melodias inesperadas e sinuosas.
No virar da década de 1970 para 1980, Nuno Rodrigues, como produtor na editora Valentim de Carvalho, esteve por trás de passos determinantes de grupos como os GNR, Tantra, Trovante e UHF ou de artistas como António Variações, Lara Li, Nuno da Câmara Pereira e Rui Veloso. Este último refere amiúde, aliás, a importância que o músico teve ao acreditar, ainda em maquete, na força das canções feitas com Carlos Tê, levando à edição de Ar de Rock (produzido pelo parceiro de Nuno Rodrigues na Banda do Casaco, António Avelar de Pinho). Estando assim no centro do “furacão” que foi o denominado “boom do rock português”, é também a Nuno Rodrigues (ao lado de Ricardo Camacho, futuro Sétima Legião, e também já desaparecido) que devemos o início do percurso discográfico de Variações, numa altura em que a editora não sabia como trabalhar as canções deste.
Para Nuno Rodrigues, ousar nunca foi um verbo a não conjugar. Foi por isso que, a partir de meados dos anos 80, centrou o seu trabalho nas editoras discográficas que fundou ou ajudar a fundar, com destaque primeiro para a Transmédia e, a partir de inícios dos 90’s e até à sua venda recente, para a Companhia Nacional de Música. Foi nesta última que tive o grande prazer de trabalhar com ele, entre 2006 e 2007, tendo aprendido também nas cumplicidades construídas ao preparar edições especiais da obra de José Afonso ou do grupo Petrus Castrus. Ora falávamos de música bretã ora de fado, sendo que, neste último campo, Nuno Rodrigues viu originais seus cantados por Amália Rodrigues, por Ana Moura, por João Braga ou por Jorge Fernando. Mas talvez um dos seus projectos mais acalentados tenha sido o disco Canções de Embalar, composto por canções suas e editado no Natal de 2001. Aqui cantavam Amélia Muge, Janita Salomé, João Afonso, Jorge Palma, Júlio Pereira, Rui Veloso ou Sara Tavares, num álbum dedicado e com a capa preenchida pela sua filha Eva Matilde, então com 2 anos. Em fotos ou com a voz, todos os filhos de Nuno Rodrigues passaram, aliás, pela sua música: a filha Rita Stock (nos discos Coisas do Arco da Velha e Contos da Barbearia), o filho Nuno Bernardo (na capa de Também Eu) ou a filha mais nova, Adriana Lia (em Canções de Embalar de Dia, onde encontramos desta vez mais vozes como as de Luís Represas, Teresa Salgueiro, Mafalda Veiga, Filipa Pais, Dany Silva ou Luanda Cozetti).
Ouvir toda a obra de Nuno Rodrigues pode e deve ser uma experiência, como o é decerto o seu último grande passo público, ocorrido em 2016, com a edição do primeiro e único álbum a solo. Chama-se Pérolas d’Alma – Nuno Rodrigues Canta Florbela Espanca e, levados por uma voz cansada pelo peso da vida, somos entregues à poesia sofrida e apaixonada da autora alentejana mas também à escrita milenar dos códices de Nag Hammadi, num autêntico “Canto de Amor e Trabalho” que é agora nossa missão que continue a soar para as gerações futuras. Obrigado por tudo, Nuno…