A Caminho de SWISH IV: Menino do contra

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Yeezus é provavelmente o mais completo e inteligente comentário ao atual estado da música pop, um festival de contradições e provocações, o produto de uma mente brilhante que assume o futuro num presente incerto e indefinido. Kanye West trabalhou em Yeezus praticamente até à véspera de enviar o master para a fábrica, sinal de que não deu à editora tempo para processar o que aí vinha e planear alguma mega-campanha promocional. E o álbum saiu para a rua sem capa, sem singles, sem vídeos, optando pelas paredes de edifícios de grandes cidades como tela de antecipação em vez das principais cadeias televisivas ou do todo-poderoso YouTube. Por outro lado, Yeezus foi alvo de impressionantes medidas de segurança – com os masters a serem guardados num disco externo protegido por uma mala à prova de água ou de ataques terroristas! – apenas para ser leakado na internet poucas horas depois da publicação de um artigo que enumerava todas essas medidas e onde se concluía que ninguém o iria ouvir antes da sua edição, no passado dia 18. Mas o álbum chegou à internet mesmo antes do lançamento oficial, facto que levou Alexis Petridis do Guardian a avançar a possibilidade do responsável por tal quebra de segurança ser o próprio Kanye. Tendo em conta que o rapper que acabou de ser pai gastou uma fortuna em estúdios apenas para dar ao seu álbum o tratamento sónico equivalente ao que qualquer adolescente conseguirá com o portátil e-Escolas, a especulação do jornalista britânico não será totalmente descabida. Kanye gosta de trocar as voltas à lógica, de virar o mundo ao contrário e Yeezus parece ser a consequência dessa disposição combativa, contrária, provocadora.

“Sinto que já não quero estar dentro. É como se me tivesse ‘desconvidado’ a mim mesmo”, explicava Kanye West a Jon Caramanica do New York Times uma semana antes da data de edição oficial de Yeezus. E de facto, o novo álbum de Kanye parece tudo fazer para evitar o centro do atual turbilhão pop. O percurso de Kanye pode representar o caminho de um homem sedento de sucesso, mas em 2013 este college dropout não parece disposto a sacrificar a sua visão artística no trono da pop. “I’m about to get the fuck out», canta o rapper em “New Slaves”. “I am about to tear shit down”, promete Kanye ainda em “New Slaves”. “Now what the fuck are they gonna say now?” Como Elvis, Kanye também já abandonou o edifício.


 


Depois da estreia com The College Dropout em 2004, Kanye não parou de subir, sacudindo definitivamente a sombra de Jay-Z graças à força de trabalhos como Late Registration (2005) e Graduation (2007). Com o fantástico 808s & Heartbreak (2008), Kanye afirmou de forma plena a particularidade da sua visão artística garantindo presença nas listas de melhores álbuns da década passada. A visão tornou-se ainda mais clara – ou mais negra, dependendo do ponto de vista – com My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), o álbum que precedeu Watch The Throne (2011), editado a meias com Jay-Z.

“Há pessoas”, admitiu Kanye ao New York Times, “que perceberam com exatidão a fórmula Kanye West, a mistura entre Graduation e 808s e que conseguiram ainda mais sucesso com ela. ‘Stronger‘ foi o primeiro híbrido de rap e música de dança que ressoou naquele nível e 808s foi o primeiro álbum daquele género, sabe? Foi o primeiro disco negro da nova onda. E eu nem percebi que era dessa ‘new wave’ até este projeto. Daí a minha ligação ao [designer gráfico] Peter Saville, a Raf Simons, à alta costura, aos acordes menores. Nunca tinha ouvido new wave. Mas sou um artista negro de new wave”.

Kanye refere-se, claro, ao facto de ter aberto caminho. E não é preciso esticar muito a corda para se ligar o seu trabalho em 808s & Heartbreak e depois em My Beautiful Dark Twisted Fantasy aos esforços de uma nova geração – de uma ‘new wave’… – que se estende de Frank Ocean e The Weeknd a Tyler The Creator ou A$AP Rocky, por um lado, mas também a James Blake, Hudson Mohawke ou Jamie Woon. Kanye tem conseguido manter-se na dianteira por não se importar de correr riscos – a aproximação aos Daft Punk com “Stronger”, o famoso e tão comentado kilt… Um dos mais arriscados passos da carreira de Kanye terá sido, precisamente, Yeezus, um álbum que a meras semanas da edição ainda estava longe de estar pronto, como revela agora Rick Rubin em entrevista ao site Daily Beast. O famoso produtor conta que se preparava para ir de férias depois de dois meses de trabalho intenso noutro álbum quando Kanye lhe telefonou e lhe pediu para passar em sua casa para lhe mostrar o seu novo álbum. “Pensei que ia ouvir um álbum terminado, mas na verdade escutámos o que eram umas três horas e meia de material em diversos estados de desenvolvimento”, revelou o produtor, adiantando que nesse momento o trabalho de Kanye se mostrava “pouco focado, exploratório, ainda sem vozes”. “Assumi que o álbum estaria pensado para o próximo ano, por isso perguntei ‘quando estás a pensar terminá-lo?’ E ele respondeu: ‘Sai daqui a cinco semanas’. Com completa confiança e tranquilidade”.


 


Rubin explica que o álbum poderia ter seguido muitas direções, tal a abundância de material, mas que a ideia de dar a Yeezus uma aura “cortante e minimal” foi de Kanye: “Eu dizia algo como ‘esta canção não está muito boa. Posso começar a mexer nela? Posso melhorá-la?’ E ele respondia: ‘Sim, mas em vez de acrescentar coisas, tenta despi-la mais’. Falámos muito de minimalismo”. No New York Times, as declarações de Kanye West foram no mesmo sentido: “Ainda sou um miúdo a aprender sobre minimalismo e o Rick é um mestre nisso. Foi uma bênção trabalhar com ele. E quero dizer que depois de trabalhar com ele, foi com modéstia que percebi – mesmo tendo produzido Watch The Throne, mesmo tendo produzido Dark Fantasy – porque ainda não ganhei Álbum do Ano nos Grammys”.

E talvez, por estranho que pareça, o ego de Kanye seja a razão para que o establishment ainda não o tenha premiado como ele acredita merecer. Mas tendo em conta o que se passa no plano lírico de Yeezus, é de acreditar que caso Kanye conquiste o Grammy para melhor álbum de 2012 no arranque do próximo ano, o mais provável é que ele se sabote a si mesmo, como já o fez no passado com artistas como Taylor Swift durante uma entrega de prémios da MTV.

Tudo começa no título, que pega numa conhecida alcunha de Kanye – as duas últimas letras do seu nome próprio – para as aproximar da palavra “Jesus” e sobretudo da pronúncia hispânica desse nome. Essa ideia prossegue no título de um tema como “I Am God” que começa por listar massagens, menages e Porsches como marcas desse estatuto “divino” antes de abordar tudo o que dista entre o conceito de respeito e … croissants. “Soon as they like you, make them unlike you“, canta Kanye, oferecendo assim de mão beijada a receita para o seu comportamento público nesta última década.


 


Sob esse prisma confrontacional, talvez nenhum tema de Yeezus seja tão revelador como “Blood On The Leaves”. Pegando no incrível “Strange Fruit” que Billie Holiday transformou num clássico da luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos – e que aqui é samplado na interpretação super-emocional de Nina Simone, outra ativista conotada com o Civil Rights Movement – Kanye troca às voltas a quem poderia pensar que iria usar esse clássico para uma elevada tirada sobre os direitos dos negros na América do presente – afinal de contas este é o homem que depois do Katrina acusou Bush de não gostar de “black people” – e descreve o quase apartheid em que se vê envolvido ao ver-se obrigado a manter a actual mulher e a ex-namorada separadas num jogo de basquete… E esse é o tom geral do álbum, com Kanye a enumerar carros de luxo e ao mesmo tempo a queixar-se da pressão exercida pelas grandes marcas, a reflectir sobre o mundo ultra-consumista de que, curiosamente, é um dos ícones.

E a quem compara Kanye esta vontade de ir contra a corrente? A gente como Steve Jobs – “Penso que o que Kanye vai significar vai ser algo semelhante ao que Steve Jobs significa” – ou Michael Jordan – “se o Michael Jordan pode gritar com os árbitros eu, enquanto Kanye West, enquanto Michael Jordan da música, posso dizer: ‘isto está errado'”. E talvez seja isso: Yeezus mostra tudo o que está errado com a pop. A ausência de capa no CD transforma-o num espelho, afinal de contas…

 

*Texto originalmente publicado na Blitz.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu