A Caminho de SWISH III: Celebração de sua-majestade

[ARTWORK] Takashi Murakami

 

O universo do hip hop está recheado de egos. O próprio egotrippin’ é um recurso estilístico que os MC utilizam para saírem por cima nas suas rimas e para mostrarem orgulho naquilo que são e naquilo que pensam. Mas o ego de Kanye West é diferente, mais inchado: “With my ego, I can stand there with a speedo/And still be looked at like a fucking hero”. Sempre o foi, desde tenra idade: é um homem de ego mimado, filho único de uma família divorciada de classe média, criado pela mãe e estudante de arte.

Em 2007, três anos depois de se ter estreado com Late Registration e dois anos depois de College Dropout, Kanye reaparecia com Graduation. Nesta altura já se tinha percebido que era um rapper diferente, que expressava outros valores, como dúvidas de personalidade, religião ou família. Meses antes da edição de Graduation, Kanye teve o seu primeiro grande momento de egoísmo nos prémios MTV (outros se seguiram ao longo dos tempos): quando os Justice receberam o prémio de melhor vídeo por “We Are Your Friends”, o rapper interrompeu a cerimónia de agradecimento e, mesmo já tendo nas mãos o prémio de Melhor Artista de Hip Hop, afiançou que o evento não teria credibilidade se o seu vídeo de “Touch The Sky” não ganhasse o troféu. “Sem ofensa, que eu nem vi o vosso vídeo. Mas o meu custou um milhão de dólares!”


 


“This is my dissertation (…) welcome to Graduation”. O seu terceiro trabalho de estúdio é um disco de celebração e de conquista. Kanye faz questão de espalhar na cara do universo os seus triunfos. Depois de ter trabalhado durante quatro anos como produtor para a Roc-A-Fella Records de Jay-Z, em 2007 Kanye conseguiu apresentar um disco com um novo polimento ao hip hop que parecia querer sair das ruas e das referências suburbanas da Costa Leste e da Costa Oeste. “Welcome to the good life”, canta Yey, a rechear os temas com referências de um rapaz de classe média – filho de professora e de um fotojornalista – que se estava a tornar um homem muito rico, um fashionista que desfila roupas, jóias, carros e mulheres: “Have you ever popped champagne on a plane, while gettin some brain?/Whipped it out, she said “I never seen Snakes on a Plane”/Whether you broke or rich you gotta get this/Havin money’s not everything: not havin it is”.


 


West soube preparar toda esta fortuna: depois de dois discos sábios – o tema “Touch The Sky”, até pelo vídeo de um milhão de dólares, rodava insistentemente nas rádios e nas televisões – um álbum pop e feliz. “Top of the world baby!” A capa foi da autoria do artista japonês Takashi Murakami, divertida, colorida, com o ursinho de peluche a personificar Kanye ao estilo manga e a ser disparado, imparável, pelos céus. Uma imagem auto-explicativa?

“A imagem é inspirada na vida de estudante do Kanye. Escola: é um local de sonhos, de justiça e um sítio onde pode haver diversão. É também, ocasionalmente, um lugar onde se experienciam os rígidos dogmas da raça humana. A música de Kanye raspa o sentimentalismo e agressividade em conjunto como uma lixa e usa o groove para soltar o tornado que gira como o zeitgeist dos nossos tempos. Eu também quis ser apanhado e girado por esse tornado.” Em entrevista à Entertainment Weekly, em Outubro de 2007, Murakami explicava, pela capa, a força contida neste disco.

O rapper usou e abusou do seu eclectismo para conseguir chegar às pessoas – afinal de contas, o que Mr. West quis sempre foi alertar as pessoas para os desígnios da arte e da sua própria arte. Elton John é chamado à participação com o sample de “Someone Saved My Life Tonight”, um tema de 1975; também Chris Martin, dos Coldplay, para cantar em “Homecoming”.


 


Antes disso, “Stronger”: malha electrónica a pegar na referência da dupla francesa Daft Punk, que em 2001 tinham composto, com vocoders, o tema “Harder Better Faster”; ou “Can’t Tell Me Nothing”, canção fortíssima (com um vídeo alternativo produzido pelo próprio Kanye a mandar um holla ao universo hipster alternativo, com Zack Galifianakis e Bonnie Prince Billy) com os desejos de mostrar a sua individualidade – que é como quem diz, o ego mimado: “I had a dream I could buy my way to heaven/When I awoke, I spent that on a necklace (…) I feel the pressure, under more scrutiny/And what I do, act more stupidly/Bought more jewelry, more Louis V”.

Mas o músico também se soube rodear de nomes influentes da escola do seu hip hop. Além da sua categoria como MC, o atestado de rap chega de artistas como Mos Def (“Drunk And Hot Girls”), T-Pain (“Good Life”), DJ Premier (no beat da belíssima “Everything I Am”) e Lil’ Wayne (“Barry Bonds”).

Kanye foi à procura do estatuto de Deus da música. Mais do que muitos a olharem para ele dessa forma, e apesar de uma personalidade vincada e arrojada, a verdade é que ele próprio acredita e vê-se como um Deus da música. Em Setembro de 2007, o músico olhava o mundo de cima para baixo. Só que a vida é madrasta e poucos meses depois de estar a saudar os súbditos do seu olimpo, em Novembro de 2007, o rapper perdia a maior influência e força da sua vida: a mãe, Donda West, morria aos 57 anos vítima de complicações depois de uma cirurgia plástica.

Desde então, Kanye parece viver em dois pólos distintos: o de sua-majestade e o da deprimente jactância. Numa recente entrevista à revista Q, quando lhe perguntaram que sacrifício tinha feito para atingir o sucesso, Kanye retorquiu: “A minha mãe”. E acrescentou, confessando que, oito anos depois, quatro álbuns (um com Jay-Z), um casamento e um segundo filho a caminho, ainda não sabe lidar com a falta da sua mãe: “Se eu não me tivesse mudado para Los Angeles, ela ainda estaria viva. Não quero falar muito disso, porque vai fazer-me chorar.”

Graduation foi a celebração da “good life” de Kanye West, mas também uma enorme pausa nos festejos. “Wake up, Mr. West!”

Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.