A Caminho de SWISH I: Pop heart

Ooops, ele fê-lo outra vez: trocou-nos as voltas, confundiu-nos as coordenadas do GPS estético, baralhou-nos as ideias. Ou não. Ou fez exactamente aquilo que seria lógico fazer, mas que, no fundo, nunca supusemos que fosse capaz de fazer. Quando escrevi sobre Late Registration (Op. # 17), socorri-me de uma citação de Sasha Frére-Jones (“se West é o primeiro a frisar o quão grande ele é, ele é igualmente rápido a explicar todas as suas inseguranças”) para sublinhar o carácter imprevisível de Kanye e a sua desarmante humanidade (por oposição às personas bi-dimensionais construídas pelas estrelas pop nos plasmas alimentados por cabo). “É impossível reduzir Kanye a um retrato unidimensional, é impossível metê-lo numa única gaveta e resolver o enigma que representa com uma única chave,” avancei.

Graduation, de 2007, e a Glow In The Dark Tour de 2008 nada fizeram, antes pelo contrário, para contrariar a dificuldade de redução do senhor West a uma imagem mais condizente com o que se espera de um mega-rapper capaz de enfrentar o circuito de arenas como as mais celebradas estrelas pop. Madonna também é visual e auralmente instável, mas na rainha da pop a irrequietude é fruto de um desejo permanentemente renovado de se manter relevante. Kanye é átomo de outra molécula e não se aplica no jogo de prever de onde virá a próxima corrente ou tendência – prefere ele mesmo criá-la. Ideia? Pop Art. Mas trata-se de Kanye, logo não se pense numa simples actualização ou reinvenção do conceito de Andy Warhol (e que ninguém se atreva, como Dennis O’Dell, da BBC, a insinuar que West não sabe quem era o homem da Factory – provavelmente tem uma tela da série Coca-Cola pendurada na sala de estar de um dos seus cribs).



A ambição de West é ao mesmo tempo mais prática – quer inserir um novo classificativo no menu de géneros do iTunes – e mais extravagante – “a única outra coisa que actualmente se encaixa aí são os Pink Floyd,” declarou. Sem sequer se rir. Ora, isto não significa que Kanye queira reinvestir no território da citação, alinhando samples em painéis multicolores sobre os quais espalha depois a sua personalidade, ou que 808s and Heartbreak seja o seu Animals ou Ummagumma. Nada disso. Na verdade, o novo álbum é o mais próximo que Kanye chegou de um confessional registo de fragilidades que caso viesse do universo dos singer-songwriters poderia ter sido gravado com guitarra acústica e pouco mais (e em termos de alinhamento emocional está bem mais próximo de Here My Dear de Marvin Gaye – sendo que esta comparação ao mártir da Motown também já era avançada no texto sobre Late registration). Mas convém não esquecer que estamos a falar de Kanye: o álbum foi gravado no Havai e certamente muitas das letras foram esboçadas à beira de uma impossivelmente glamourosa infinity pool com o oceano a esbarrar nas lentes dos seus óculos escuros Prada. Não por causa do Sol, mas das lágrimas. Kanye está (simplesmente) triste. E essa é uma grande distância percorrida no mapa emocional de quem dedicou três álbuns inteirinhos a celebrar uma “Good Life” conquistada a pulso.



“Welcome to Heartbreak”, canta Kanye em, bem, “Welcome to Heartbreak”, tema em que participa um dos poucos convidados do álbum, Kid Cudi, seu novo protegido. Young Jeezy, Mr. Hudson e Lil Wayne fecham o modesto rol de convidados. Kanye está (praticamente) sozinho (sobretudo se pensarmos que em Graduation havia T-Pain, Lil Wayne, Mos Def, Dwele, Chris Martin, DJ Toomp, Jon Brion e Mike Dean, entre outros). Um homem, uma caixa de ritmos (“a” caixa de ritmos!) e um artefacto que atravessa todo o álbum – o famigerado auto-tune da Antares que transformou a voz de Cher num pesadelo açucarado em “Believe” e que Lil Wayne elevou à condição de assinatura, um pouco como Roger Troutman com a talkbox (que tem o equivalente de “Believe” no igualmente açucarado “Livin’ On a Prayer” de Bon Jovi…).



A utilização dos efeitos particulares facilitados pelo auto-tune está directamente ligada à carga emocional de 808s & Heartbreak, álbum em que Kanye não rappa. Se é para expor um coração destroçado, nada como cantar. Depois, os toques de afinação digital deixam clara a fragilidade de Kanye – não apenas a fragilidade da sua técnica vocal, mas a sua fragilidade de sentimentos, algo que já não se usa numa era em que no universo do hip hop de topo são raras as estrelas que ainda se apresentam a três dimensões em palcos gigantes. Talvez só Jay-Z partilhe dessa espessura física, essa capacidade de enfrentar multidões sem rede. Kanye fez exactamente isso na bem sucedida Glow In The Dark Tour, de onde se retira o revelador improviso que fecha este novo álbum: “Pinocchio Story” – “there is no Gucci I could buy, there is no Louis Vuitton to put on, there is no YSL that they could sell, to get my heart out of this hell, and my mind out of this jail” – é Kanye a lidar com o mundo que sobre ele se abateu (a bem publicitada morte da mãe, a separação da namorada de longa data). Onde? Num estádio em Singapura, rodeado de milhares de pessoas que provavelmente não entendem que desabafos são aqueles. Kanye está (claramente) destroçado. E para a banda sonora da sua dor o hip hop não chega. A codificação extrema deste género não prevê propriamente a possibilidade de exibir assim os olhos lacrimejantes sobre instrumentais que agudizam ainda mais um tom depressivo. Kanye resolve isso manifestando o tal desejo de inventar um novo género (ou pelo menos uma nova gaveta no iTunes), afastando-se do hip hop que o glorificou muito simplesmente porque os quadros que quer pintar já não cabem nas telas que esse género lhe oferece. Pop art? Talvez Pop heart.



Com o ressoar profundo da 808 – esta caixa da Roland tem tanta história dentro que não me atrevo a contá-la aqui – por suporte (é o bater do coração feito música), Kanye coloca-se num plano solitário (onde, como é claro, os Pink Floyd não encaixam…) e mostra o que lhe vai na alma, sem truques ou disfarces. Vanessa Beecroft, artista plástica italiana que reside em Los Angeles, foi aliada de Kanye na festa de audição do novo álbum, oferecida perante 700 pessoas na galeria Ace: no centro da galeria, 40 mulheres nuas eram banhadas em luz que ia mudando de tom à medida que as faixas iam tocando. A instalação seguiu à risca a ideia de total exposição da alma de Kanye em 808s & Heartbreak. E embora a utilização de nudez não seja nova neste terreno específico – Marvin Gaye, uma vez mais, ou D’Angelo também tiraram as roupas para soltarem o que lhes devorava o coração – não é propriamente vulgar no terreno de onde vem Kanye, que glorifica a aparência e o corpo como montra de troféus alcançados com o sucesso platinado.

A capa de 808s & Heartbreak é uma extensão dessa nudez, uma fuga clara do universo gráfico de Graduation. E aqui temos o novo álbum de um rapper que não rappa, de um personagem maior que a vida – “Bush don’t care about black people” e nem uma menção a Obama… – que assume a sua fragilidade. O tipo que fez “Stronger” e que rappavathere’s a thousand you’s, there’s only one of me” fechou-se no meio da multidão – 700 na galeria de LA, 10 ou 20 mil na arena de Singapura, vai tudo dar ao mesmo. “Do you think I sacrifice a real life, for all the fame of flashing lights?” pergunta Kanye em “Pinocchio Story”. Acho que todos sabemos a resposta…

 

*Texto originalmente publicado na Op..

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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