A banda sonora natalícia de Allen Halloween #2

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Na segunda fornada de temas que Allen Halloween escolheu como referências ao tipo de som e mensagem que tenta transmitir foca-se o lado mais gangsta da Bruxa. Esta é a vertente do hip hop à qual mais rapidamente o associamos. Dos violentos e duros relatos da street life ao lazer dos convívios com os seus rapazes, como quem coloca os problemas numa gaveta por umas horas e aluga o cérebro aos efeitos dos estupefacientes e do álcool. Halloween é um contador de histórias, sejam elas vivências do seu passado ou meros pensamentos distorcidos que vagueiam na sua cabeça. Mas o que é que provocou o click para que Allen quisesse transformar tudo isso em música? Quais foram os temas que o seduziram para esse lado no decorrer da sua vida?

A verdadeira batalha sonora entre East Coast e West Coast aos ouvidos de Allen Halloween.

 


 

[WU-TANG CLAN] “Triumph”

https://youtu.be/T3re3Qf7JaE

 

[OL’ DIRTY BASTARD] “Brooklyn Zoo”

 

Basta ouvir o primeiro par de escolhas para facilmente entendermos as diferenças e semelhanças que existem comparativamente à música de Halloween. Apesar de toda a sua obra se basear nos ensinamentos do hip hop, o seu som vem, claramente, de outros lados. Fruto da arte do beatmaking, que ao longo dos tempos nos ensinou que qualquer tipo de música pode dar origem ao hip hop através do processamento de samples. Halloween é gangsta rap. Mas não só. Vai para além dos standards do boom bap, procura o brilho nos ruídos e distorções – em vez de fraseados limpos de piano ou guitarra – e não se deixa obcecar por malabarismos com o flow, optando por uma cadência muito mais lenta do que o normal. Voltando, resumidamente, ao capitulo anterior: Halloween é um astro do punk que escolheu jogar pela equipa do hip hop sem abdicar do amor à camisola original.

 


 

[GZA FEAT. RZA] “I Gotcha Back”

 

 

[RAEKWON] “Ice Cream”

 

Os Wu-Tang Clan têm um peso bastante grande nas escolhas do MC de Odivelas. Em “Ice Cream” e “I Gotcha Back” já conseguimos enquadrar melhor o tipo de som que Halloween constantemente procura. Mais sombrio, certamente, profundamente cinemático, também.

Mas é na crueza das letras do super-grupo da costa este americana que encontramos a ponte entre o passado e o presente do gangsta rap. O impacto da sujidade que Ol’ Dirty Bastard, Raekwon e companhia colocam nas suas palavras gerou uma legião enorme de fieis seguidores a esta tendência mais hardcore dos fraseados. Relatos da vida do crime e da droga. A força dos bairros a entrar directamente nos nossos ouvidos. Halloween pegou nesse legado e criou a sua própria tendência. As suas próprias histórias aplicadas a um som que também lhe é muito próprio.

 


 

[CYPRESS HILL] “Throw Your Set In The Air”

 

 

[DR. DRE FEAT. SNOOP DOGG & NATE DOGG] “Lil Ghetto Boy”

 

Também a West Coast desempenhou um papel importante no gangsta rap e Halloween não deixou de lado na sua lista nomes como os de Dr. Dre, Snoop Dogg ou Cypress Hill. Podemos ouvir em “Lil Ghetto Boy” uma espécie de versão menos trabalhada de “Dia Dum Dread De 16 Anos”, que é um dos grandes marcos da carreira de Allen, tema longo com uma história impressionante onde é retratado um dia vivido na pele de um jovem delinquente que navega no mundo do crime e da droga. Allen Halloween é, sem dúvida, um dos melhores storytellers que o hip hop nacional viu nascer.

 


 

[SNOOP DOGG] “Who Am I? (What’s My Name)”

 

 

[MOBB DEEP] “Shook Ones Pt.2”

 

Tal como qualquer MC, o rapper de Odivelas também sente uma forte vontade em afirmar a sua identidade. É uma espécie de clichê: “Eu venho daqui, represento aquilo, o meu nome é este e se não estiveres do meu lado então estás contra mim”. Escusado será dizer que Halloween tem a capacidade de tornar uma simples frase como esta em algo muito maior e possante. O exemplo mais concreto que temos aparece em “O Exorcismo de Mary Witch”: “Allen Bin Laden realojado em Odivelas / Ataco o teu prédio, niggas saltam pelas janelas”. Alguns dos fraseados mais hardcore de Halloween estão presentes neste tema.

Quanto aos fakes do movimento, também há palavras dirigidas a eles como os Mobb Deep fizeram com o tema mais marcante da sua carreira, um dos reais hinos desta cultura. Mas Allen não lhes dedica uma música inteira, vai disparando umas balas aqui e ali. “’Eu sou real e verdadeiro’ – és é o caralho que te foda”, responde-lhes em “Mary Bu”. Sem papas na língua, como qualquer gangsta punk digno desse nome.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira