A 33 1/3 e o hip hop: palavras sobre marcos de uma cultura

A 33 1/3 é uma colecção de livros da Bloomsbury que foi iniciada por David Barker e que conta com Ally Jane Grossan como editora. Com mais de 100 títulos já publicados, a 33 1/3 oferece uma singular perspectiva sobre a história da música popular ao abordar em cada um dos seus volumes um disco específico. Dessa forma, cada autor permite-se mergulhar um pouco mais fundo em cada álbum, trazendo à superfície uma visão que lança luz sobre importantes marcos da história da música, do rock ao jazz, do country ao metal e da pop ao hip hop, como é claro.

Dependendo do autor, estas visões podem ser mais jornalísticas, apoiadas em reveladoras entrevistas que procuram iluminar cada um dos recantos de cada obra – dos aspectos mais técnicos aos mais artísticos, oferecendo igualmente válidas perspectivas sobre os contextos que testemunharam o nascimento de cada obra; ou então podem ser visões mais literárias, onde o autor aborda o impacto que o disco por si eleito teve na sua vida ou na sua geração, desenhando assim um mapa mais íntimo, mais emocional que pode igualmente apontar para entendimentos importantes dos discos em causa.

Se ainda andam pela praia e procuram títulos que geralmente se devoram nalgumas horas de leitura intensa, deixamo-vos aqui algumas sugestões de títulos mais directamente focados no universo do hip hop, prometendo desde já uma segunda incursão nesta colecção para vos direccionar para os livros que abordam peças importantes do universo da electrónica.

 


 

[DJ SHADOW] Endtroducing
(por Eliot Wilder)

Publicado em 2005, este foi o 24º título da série 33 1/3 e o primeiro dedicado ao hip hop, o que não deixa de ser revelador sobre a origem desta colecção, muito mais sintonizada com a tradicional escola de jornalismo musical, mais comprometida com o rock. Eliot Wilder estuda aqui a fundo um disco charneira no universo do hip hop, que em 1996, data da sua edição original, revolucionou a abordagem à produção alargando dramaticamente o campo estético onde os produtores podiam investigar samples. A escrita de Wilder – que é hoje editor sénior na Amplifier – é fluída, com alguma espessura académica e permite a construção de uma sólida imagem de um disco absolutamente fundamental na história do hip hop.

 


 

[BEASTIE BOYS] Paul’s Boutique
(por Dan Le Roy)

Volume 30 da colecção 33 1/3, publicado em 2006 e assinado por Dan Le Roy. A importância de Paul’s Boutique é indiscutível – o segundo álbum dos Beastie Boys, produzido pelos Dust Brothers, é um trabalho pioneiro na utilização de samples e o disco em que o trio de Brooklyn se reinventou, assumindo uma mais ambiciosa seriedade artística que não tinha ficado evidente na sua estreia. E Dan Le Roy faz um excelente trabalho jornalístico, tendo acedido às mais importantes fontes directamente envolvidas na criação do disco para pintar uma imagem nítida e reveladora. Mas não deixa de ser sintomático que os dois primeiros títulos da série 33 1/3 a abordarem clássicos hip hop tenham sido estes: mais próximos do público rock e certamente mais “brancos” do que seria natural esperar quando se pensa na cultura nascida no Bronx.

 


 

[A TRIBE CALLED QUEST] People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm
(por Shawn Taylor)

Título número 47 da série, publicado originalmente em 2007 e com assinatura do escritor Shawn Taylor. Trata-se de uma abordagem mais literária, em que o autor recorre a memórias de adolescência e a diários próprios para recolha de material. Só no final há uma entrevista com o engenheiro de som Bob Power. Tudo isto tem garantido a este livro críticas válidas que o descrevem como um dos piores títulos da série. Ainda assim terá algum interesse para quem procure saber mais sobre questões de identidade.

 


 

[NAS] Illmatic
(por Matthew Gasteier)

É o volume 64 da série e foi publicado pela primeira vez em 2009. Matthew Gasteier já escrevia para o Boston Phoenix, mas os seus conhecimentos de hip hop eram bastante limitados e o livro está cheio de imperfeições quando o autor procura oferecer ideias sobre a evolução técnica do hip hop. Ainda assim, a sua análise a um dos mais importantes discos dos anos 90 é interessante e compensa as falhas. Sobretudo a sua abordagem às letras de Nas que é exaustiva e profundamente reveladora, descortinando os mais obscuros significados das metáforas que o lendário MC ofereceu ao futuro a partir do já muito distante ano de 1994.

 


 

[PUBLIC ENEMY] It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back
(por Christopher R. Weingarten)

O intervalo entre a edição do volume dedicado a Illmatic e este que versa sobre o segundo e histórico álbum dos Public Enemy foi de apenas sete livros: It Takes a Nation… é o número 71 da série e foi publicado em 2010 contando com autoria de Christopher R. Weingarten, editor do site Paper Thin Walls e responsável por inúmeros trabalhos publicados na Rolling Stone ou Village Voice. É um dos mais sólidos trabalhos de todos os títulos dedicados ao hip hop nesta série: Weingarten constrói aqui um nítido retrato do álbum, com sérias reflexões sobre o seu significado, mas também vasto trabalho jornalístico, incluindo muitas informações sobre o adn musical de cada tema. Fundamental.

 


 

[J DILLA] Donuts
(por Jordan Ferguson)

Sobre o volume 93 da série 33 1/3, publicado o ano passado, escrevi um pouco mais longamente no blog 33-45. Recupero aqui essas linhas:

Jay Dee, aka J Dilla, é, ainda, um enigma. E não será em Donuts, novo título na notável série 33 1/3 da Bloomsbury, que se irão encontrar todas as respostas que se possam procurar. Ainda assim é um fantástico pequeno livro que se lê de um fôlego em pouco mais do que um par de horas. Essa é a primeira questão que aqui se pode levantar, uma questão de forma: será Donuts um livro ou um longo artigo de carácter menos ensaístico e mais jornalístico? A verdade é que Jordan Ferguson assina aqui um compromisso. Por um lado há por aqui algum trabalho de recolha e tratamento jornalístico de depoimentos – da mãe de Dilla, de algumas das cabeças da Stones Throw, de alguns dos seus companheiros de Detroit, como House Shoes ou Waajeed. Tanto depoimentos recolhidos para este trabalho propositadamente por Ferguson como citações de entrevistas que ao longo dos anos foram sendo publicadas na imprensa americana. E há também algumas vozes importantes ausentes: Kanye West ou Common são hoje, talvez, estrelas demasiado grandes para um livro tão pequeno, mas é impossível não pensar na luz que poderiam ter ajudado a lançar sobre a personalidade de Dilla. Falta igualmente a palavra de Illa J, o irmão de Dilla. Mas Ferguson deve ter certamente trabalhado contra um deadline que não se compadece com as agendas das estrelas ou os compreensíveis silêncios da família mais chegada do seu objecto de estudo. E até aí Donuts assume mais o carácter de uma peça jornalística que imperiosamente tem que estar terminada em determinada data e menos de um livro que procura lançar uma luz definitiva sobre um determinado assunto ou objecto, como seria expectável que um título desta natureza fizesse.

Outro problema começa com o título do livro: com pouco mais de 110 páginas de texto, Donuts só é, na verdade, o objecto central das palavras de Ferguson em metade delas. O resto do livro divide-se entre um necessário retrato de Dilla, um olhar sobre os seus passos formativos e o percurso que fez até chegar a Donuts e algumas considerações de espessura mais ensaística, apoiando-se Ferguson em perspectivas filosóficas e críticas para construir um discurso teórico sobre Donuts.

Não se trata, no entanto, de reservas sobre o livro ou o trabalho de Jordan Ferguson. Se Donuts se deixa ler de um fôlego, ainda que a sua escala reduzida ajude, isso deve-se também ao talento de quem o assina: a sua escrita é transparente, fluída, sem grandes rodeios estilísticos, mas inteligente e bem sustentada.

Há um mito que Donuts desfaz: o que diz que Dilla programou todos os beats do seu álbum final na cama de hospital. Ferguson e o círculo da Stones Throw não são demasiado assertivos, mas explica-se nestas páginas que o trabalho realizado por Dilla na cama de Cedars-Sinai foi mais de edição, de montagem, menos de programação. Ao seu lado, pelo que se menciona nestas páginas, um gira-discos e um laptop. Não há referências a samplers, embora se saiba que quando se mudou para Los Angeles Dilla levou a a sua MPC de Detroit, a mesma que agora está na posse do Smithsonian, uma instituição que ajuda a preservar a memória cultural e científica da América. Ainda assim um insight um pouco mais técnico teria feito todo o sentido num livro desta natureza: se eu for ler sobre Are You Experienced? vou querer saber qual a guitarra e qual o amplificador que Hendrix escolheu para fazer todo aquele glorioso barulho.

Mas Donuts vai razoavelmente fundo na enumeração das “fontes” sampladas por J Dilla no seu derradeiro álbum e vai sobretudo fundo na análise crítica que faz do disco, nas questões que levanta sobre a sua natureza mais íntima: Donuts é mesmo uma carta de despedida, recheado de pequenas mensagens e recados de um criador para o seu público e família.

O espaço continua, por isso mesmo, aberto para uma biografia crítica mais extensa, com mais recursos que permitam entender melhor quem era Dilla, como e porque fez o que fez e o que significa hoje todo o seu trabalho. Enquanto esse livro não chega, Donuts é um óptimo bálsamo para os olhos, para a cabeça e para o coração.

 


 

[KANYE WEST] My Beautiful Dark Twisted Fantasy
(por Kirk Walker Graves)

O número 97 na colecção 33 1/3 foi publicado igualmente em 2014, apenas quatro anos depois da edição do disco sobre o qual se debruça Kirk Walker Graves, um escritor que aborda o álbum de Kanye de forma crítica num longo ensaio que procura extrair significado de um dos mais importantes trabalhos hip hop desta década. Graves é exaustivo na análise ao ego de West, na forma como recolhe nas letras as pistas que nos conduzem a um génio. Mais um válido título na série, sem a menor sombra de dúvida.

 


https://www.youtube.com/watch?v=y2l-dvU9tOw

 

[DANGER MOUSE] The Grey Album
(por Charles Fairchild)

Pela primeira vez, a 33 1/3 dedicou dois títulos seguidos ao hip hop, sinal de que algo poderá mudar no futuro da série: este é o volume 98 e debruça-se sobre um álbum originalmente “lançado” em 2004. As aspas, claro, remetem para o “pormenor” deste disco nunca ter conhecido edição oficial. E esse é um dos fundamentais aspectos do livro assinado por Charles Fairchild que é um professor universitário australiano que investiga sobre esta área de intersecção entre a música e a indústria. O que torna este livro um ultra-válido estudo sobre o disco em causa de Danger Mouse e sobre a indústria como máquina trituradora de talentos. Este livro foi lançado no final de 2014.

 

A colecção 33 1/3 da Bloomsbury vai agora com 106 títulos e deverá chegar aos 110 ainda este ano. Para 2016 estão programados mais 9 livros, incluindo um dedicado ao álbum homónimo de 1990 dos Geto Boys da autoria de Rolf Potts.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu