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9 faixas sobre tensão racial entre comunidades e autoridades

[FOTO] Devin Allen

 

Foi há precisamente um ano que o jovem negro de 19 anos Michael Brown foi morto pelo agente da polícia Darren Wilson em Ferguson, Missouri. O evento foi o rastilho para uma série de manifestações da comunidade afro-americana da cidade, principalmente depois do júri, uns dias mais tarde, ter ilibado Wilson de qualquer acto criminoso no assassinato de Brown, então desarmado. Foi assim que a América despertou para um conflito interno que não viu aproximar-se.

Freddy Gray, Tamir Rice, Eric Garner são apenas três nomes, entre tantos outros, de negros que foram mortos por polícias norte-americanos no último ano, despertando a América para a emergência de um movimento pelos direitos civis como não se testemunhava desde o século passado. #BlackLivesMatter tornou-se o mote para uma acessa discussão sobre o prevalecente racismo institucional nos Estados Unidos numa altura em que o panorama político e social do país se encontra altamente polarizado.

Este é um mosaico sonoro possível sobre a arte e cultura que expõe as tensões entre comunidades afro-americanas e autoridades. Retratos de realidades distintas através de estilos diversificados que têm como mediatriz uma mensagem reveladora, de alerta, que reverbera a nível global.

 


https://www.youtube.com/watch?v=ltHrNYhzoQA

[RATKING] “Remove Ya”
(So It Goes, XL Recordings, 2014)

Cop: “You wanna go to jail?” / Kid: “Well, for what, for what?” / Cop: “Shut your fuckin’ mouth kid!” / Kid: “What am I getting arrested for?” / Cop: “For being a fucking mutt.” Faixa que abre com a gravação de um stop and frisk para logo disparar para um nervoso e alarmado beat de sirenes, como se estivéssemos em plena fuga. O colectivo Ratking criou em So It Goes um álbum que expõe a desbastação cultural que decorre em Nova Iorque: Manhattan tornou-se uma hipsterville; Taylor Swift dá a cara pelo turismo da Big Apple sem nunca lá ter vivido; e as autoridades locais estão focadas em “limpar” os mutts da cidade – grafiters, skaters, pessoal das artes independentes e tudo o que represente a Nova Iorque que influenciou o mundo. Faixa de mensagem forte que termina com uma mulher a cantar no metro: “Who are you serving? Who do you protect? You want to kill us.

 


[RUN THE JEWELS] “Early”
(Run The Jewels 2, 2014, Mass Appeal)

Entre rappers e até artistas norte-americanos em geral, a dupla El-P e Killer Mike (especialmente o rapper de Atlanta) tem sido das vozes mais activas sobre o racismo institucionalizado que se abateu sobre os Estados Unido. No dia em o júri deliberou não acusar o agent Darren Wilson da morte de Michael Brown, o duo actuou no Ready Room, em St. Louis, a poucos quilómetros de Ferguson e no palco expuseram um incrível e emocionado discurso sobre o evento. “Early” é um tanto um poderoso retrato sobre um sentimento generalizado como uma argumentação que se enteia pelo cérebro de quem escuto. “It be feelin’ like the life that I’m livin’ man out of control / Like every day I’m in a fight for my soul.” Mensagem poderosa que mexe com qualquer ser provido de sensibilidade.

 


[KENDRICK LAMAR] “Alright”
(To Pimp A Butterfly, 2015, Top Dawg Entertainment/Aftermath)

Conscientemente desenhada para viajar entre múltiplas inquietações, de ontem e de hoje, da comunidade afro-americana, “Alright” não é uma faixa com rimas .9mm apontadas à polícia, mas ao colocar o dedo nas aflições dos manos – “Alls my life I has to fight, nigga / Alls my life I…” – Kendrick Lamar reflecte sobre o conflito que a América não viu aproximar-se (distraídos que estavam com a ameaça externa). “Nigga, and we hate po-po / Wanna kill us dead in the street fo sho.Beat flutuante de grave gordo que elimina ansiedades. “Nigga, we gon’ be alright”, premissa que já se grita nas ruas numa época em que a comunidade negra norte-americana procura um guia, um novo Martin Luther King. Parece que o encontraram no jovem de 27 anos proveniente de Compton.

 


[N.W.A.] “Fuck Tha Police”
(Straight Outta Compton, 1988, Ruthless Records/Priority Records)

Mais de 25 anos depois de abalarem a cena hip hop e até musical nos Estados Unidos, com um discurso inflamado que incendiou as mentes entre a população mais segregada e directamente atingida pelo racismo generalizado, os N.W.A. ressuscitam por via de um biopic e da compilação Compton: A Soundtrack by Dr. Dre. A data para este reaparecimento certamente é inocente – não podia adivinhar os eventos que estavam para suceder entre a segunda metade do ano passado e o presente -, mas o comeback dá-se numa altura em que a mensagem do colectivo de Dr. Dre, Ice Cube, Eazy-E e MC Ren ainda é relevante e, acima de tudo, actual – aprendemos alguma coisa ao longo deste quarto de década?

 


[PUBLIC ENEMY] “911 Is A Joke”
(Fear of a Black Planet, 1990, Def Jam/Columbia Records)

“911 Is A Joke” aponta o desprezo do sistema no que toca a responder às chamas de emergências provenientes do gueto. E, sim, Flava Flav cospe 16 barras sobre os serviços de emergência médica e não sobre a polícia, embora seja novamente indicador de uma posição intolerante a nível institucional. Para além disso, esta malha dos Public Enemy tem uma envolvência hip hop funky, apela ao corpo e não tanto à mente. É dançar sobre a intolerância.

 


https://www.youtube.com/watch?v=_BxBs4f4RIU

[KRS-ONE] “Sound of Da Police”
(Return of the Boom Bap, 1993, Jive Records)

As sirenes que soavam diariamente no Bronx entre os anos 1970 e 90 (caramba, até hoje!) foram a banda sonora dos filhos deste bairro, exemplo da segregação institucionalizada que se tornou visível no anos 1950 com a realocação das comunidades afro-americana e latina nos projects criadas nas franjas de Nova Iorque. “Sound of Da Police” começa exactamente com KRS-One em exercício onomatopeico a imitar o som de um carro de polícia, a gritar “That’s da sound of da police”, como quem avisa os manos que eles vêm aí. Faixa-espelho da actuação da polícia no bairro que sucedeu ao “Fuck Tha Police” de N.W.A. e que inspirou Nas para Illmatic. “Change your attitude, change your plan / There could never really be justice on stolen land / Are you really for peace and equality.

 


[NAS FEAT LAURYN HILL] “If I Ruled The World”
(Illmatic, 1994, Columbia Records)

Queensbrigde, 1994. Nas é um rapaz que acaba de entrar na casa dos 20 anos e que, como qualquer jovem, sonha em voz alta. “If I Ruled The World” é um exercício utópico, imaginário, apoiado por uma voz maternal de Lauryn Hill, mas acima de tudo sincero e simples na mensagem positiva que apresenta. Nasir Jones é um filho das ruas dos projects, viu de frente as balas tomarem a vida dos amigos e assistiu a outros tantos serem encarcerados. Illmatic é não só uma fotografia desses tempos, mas uma mensagem positivista que ainda ressoa no presente.

 


https://www.youtube.com/watch?v=VCEmTaWSPTk

[TUPAC] “Trapped”
(2Pacalypse Now, 1991, Interscope Records)

Cause they never talk peace in the black community / All we know is violence, do the job in silence / Walk the city streets like a rat pack of tyrants / Too many brothers daily heading for the big pen.Tupac a ensaiar sobre as sementes que conduziram à criminalidade nos bairros afro-americanos: falta de empregos, oportunidades e uma prevalecente invisibilidade aos olhos do poder. Mensagem com virtudes e defeitos que se atreve a ver para lá do conflito polícia-comunidade, explorando toda uma ramificação casuística para os eventos que hoje vemos na América. “Uh uh, they can’t keep the black man down / They got me trapped.

 


[ALLEN HALLOWEEN FEAT. GENERAL D & BUTS MC] “Bairro Black”
(Híbrido, 2015, Self-Released)

Num dia como este também é preciso olhar para nós próprios, porque o que se passa na América é replicado um pouco por todo o mundo, em dimensões diferentes, mas, ainda assim, suficientes para que o racismo e os abusos das autoridades ainda sejam uma realidade no mundo contemporâneo. Em Fevereiro, a Cova da Moura voltou a viver uma noite de tumultos entre a polícia e os moradores após uma operação de busca que resultou numa detenção. Testemunhos falam de agressões gratuitas ao jovem detido, sem que este tivesse apresentado qualquer resistência. Seguiram-se novas trocas de agressão, o corpo de intervenção a tomar conta dos becos do bairro e até a disparar sobre os moradores que se encontravam a observar os incidentes. Poucos dias depois é divulgada “Bairro Black”, faixa asfixiante, carregada de raiva, sobre uma “noite que não acaba nunca”. Halloween tinha muito a dizer sobre o que estava a acontecer e alertou-nos, mais uma vez, para a realidade que se vivia bem dentro das fronteiras da Grande Lisboa.

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