9 argumentos para não perder Run The Jewels no Primavera Sound

[ARTWORK] Nick Gazin

 

A fórmula que os Run The Jewels trouxeram para cima do tabuleiro onde se posicionam as peças do xadrez do hip hop não é inédita: dois MCs que cospem rimas afiadas em cima de beats carregados de músculo não é uma ideia por si só revolucionária. Mas há uma série de pormenores interessantes no doseamento dos elementos dessa fórmula: para começar, caso ainda não tenham reparado, um dos elementos do duo é branco, e isso reflecte a tensão racial existente na própria América. Depois, ambos chegam até Run The Jewels com uma considerável bagagem – este projecto não é um início, é uma continuação e ambos já vão com uma idade considerável, sobretudo se compararmos as suas datas de nascimento com as de Tyler, Earl ou Kendrick. Em vésperas da edição de RTJ2, a vetusta Rolling Stone apontava um dado curioso sobre o duo: em 2003, Killer Mike assinava vários versos num dos maiores sucessos de sempre do hip hop, o multi-platinado álbum Speakerboxx / The Love Below dos Outkast e ao mesmo tempo El-P guiava os destinos da Def Jux, celebrada indie cujas vendas foram, no entanto, sempre modestas. Ou seja duas posições muito diferentes na cadeia alimentar do hip hop que ainda assim foram capazes de se encontrar mais tarde, em território ferozmente independente.

Mas há mais: as histórias particulares de ambos concorrem para uma visão singular e contundente da América contemporânea: Killer Mike, por exemplo (reparem no primeiro nome deste MC…), filho de um polícia, tornou-se uma voz importante neste presente de debate e combate intenso pela justiça travado nas ruas de uns Estados Unidos a ferro e fogo. Mas se há uma consciência política aguçada nos Run The Jewels (veja-se, abaixo, “Early”, por exemplo), por outro lado o duo recusa-se a abandonar um lado mais desbragado que esta cultura também soube cultivar e usa temas como “Love Again” como um dedo espetado no olho da América mais conservadora, por um lado, mas também dessa outra supostamente mais progressiva e liberal que vive refém do politicamente correcto. Igualdade é isto: tanto dick” como “clit” na boca de alguém “all day“.

Uma coisa é certa: ReB veste a camisola RTJ sem reservas, embora, para já, apenas metaforicamente: é que a t-shirt real custa 35 euros na banca de merchandising oficial do Primavera e, da última vez que checámos, pelo menos, isto ainda era Portugal… Pode ser que mude. “Oh my…


[Blockbuster Night Part 1]
(Run The Jewels 2, 2014)

Beat brutal, flow imparável, vídeo com um gato (o que é que se passa com Killer Mike, El P e os gatos, afinal? Eu entendo, mas…): tema incrível de RTJ2 com um festival de aliterações carregado de duplos e triplos significados. Ao vivo há-de ser incrível, certamente. Tragam o barulho, por favor.


[Oh My Darling (Don’t Cry)]
(Run The Jewels 2, 2014)

Oh my… Filho da p**a de beat este, com um grave capaz de mover placas tectónicas, capaz de curar artrites, capaz de salvar a floresta tropical, capaz de molhar miúdas, endurecer rapazes, capaz de acalmar tigres e enfurecer koalas, capaz de derreter calotes polares, de alterar órbitas de corpos celestes, de transformar água em vinho… Um beat assim tem poderes milagrosos. E em cima do milagre, o gospel: “fuck the law, they can eat my dick” é uma citação de Pimp C, mas “you can all run naked backwards through a field of dicks” é puro génio de El-P. Camões da street, se o poeta tivesse dois olhos, dois pés no século XXI e um beat destes para suportar as palavras. Oh my…


https://www.youtube.com/watch?v=elafeeA3QFE

[Banana Clipper feat. Big Boi]
(Run The Jewels, 2013)

Vídeo carregado de octanas, capaz de dar um ataque de coração a qualquer ecologista que se preze, a suportar um tema em que Killer Mike e El P alternam versos como se fossem – e são – duas faces de uma mesma moeda. E Big Boi é o bolo em cima da cereja, gigante de Atlanta a premiar um tema do trabalho de estreia da dupla Run The Jewels.


[36” Chain]
(Run The Jewels, 2013)

Homenagem directa a LL Cool J no vídeo (hilariante). Afinal de contas é dele a frase “run the jewels“. E um cocaine flow que é diversão pura, cuspir palavras pelo prazer de cuspir palavras e nada mais. O beat? É fogo que arde sem se ver. Ou algo assim…


[Sea Legs]
(Run The Jewels, 2013)

Incrível pensar agora que os Run The Jewels apareceram como um projecto colaborativo que começou por oferecer a música na net, quase como um valente fuck you a toda a indústria. Isto é rap agressivo da mais elevada escala, sem grandes preocupações de transmissão de mensagens profundas, embora isso seja em si mesmo uma mensagem profunda. El- P e Mike cospem com toda a força e ninguém abre guarda-chuva para se proteger…


[Close Your Eyes (And Count to Fuck) feat. Zack de la Rocha]
(Run The Jewels 2, 2014)

Fuck the slo mo“. Com a participação de Zack de La Rocha – esse mesmo -, isto é um tema que parece ter a força para iniciar uma revolução: se algum dia a América tiver um 25 de Abril e precisar de um “Grândola” para servir de senha para os Bloods e os Crips virem para a rua partir tudo, este é o tema que terá que ser tocado na rádio: “Daqui posto de comando das forças rimadas…!”


[Lie, Cheat, Steal]
(Run The Jewels 2, 2014)

Alguns beats de El-P são 2020, outros parecem 2002, mas alguns, como este, parecem, só pela forma como a bateria está programada, viver num limbo entre eras, entre um passado boom bap e um futuro que é outra coisa qualquer. E isso serve o tema que fala de quem não teme mentir, vigarizar e roubar neste mundo. Nós sabemos quem eles são, certo? E o flow de El-P em tempo redobrado tem a classe de um daqueles livres de Ronaldo que parecem telecomandados: direitinho ao canto, indefensável, a desafiar a lógica da física.


[Early feat. Boots]
(Run The Jewels 2, 2014)

Power. Power. Power. Vídeo fabuloso, criação de Bug & Sluzzy, para tema com participação de Boots. E tudo certo num tema que é um sonoro “basta” e mostra que estas mentes desbragadas têm, afinal de contas, uma arguta visão política da América moderna.


 

[Love Again feat. Akinyele Back]
(Run The Jewels 2, 2014)

P**aria da grossa, este “Love Again” que nos enche a boca de palavras de bolinha vermelha no canto que nos obrigam a pensar a sério no que deve ou não ser permitido. O beat é mel (ou um daqueles óleos lubrificantes com sabor de framboesa) e a intervenção de Gangsta Boo um descontrolado orgasmo carregado de humor hardcore.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

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