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808 The Movie: trilhar caminho para novas explorações cinematográficas sobre a mítica drum machine

Há uma revelação em 808 The Movie, documentário-homenagem à drum machine que reconfigurou a linhagem produtiva da música pós-anos 1970, que se pendura na nossa mente para o resto dos nossos dias. Esta apenas aparece no último plano da película durante a entrevista ao japonês Ikutaro Kakehashi, fundador da Roland Corporation, em que este confesa que a virtude sónica da máquina reside nos transístores defeituosos que a integram. Kakehashi, que se iniciou na produção de objectos musicais como um auto-didacta, conta que adquiria os anómalos semicondutores a grandes empresas tecnológicas e que por ocasião das experiências na criação das máquinas acabou por acertar na mina de ouro, criando a Roland TR-808.

O acidente que alterou o curso da história da música, e que se alastrou à arte, cultura e até sociedade a nível global, moveu o interesse do realizador Alexandre Dunn e do produtor Alex Noyer, que empreenderam uma visita cronologicamente guiada pelas figuras por detrás dos êxitos mais simbólicos de compassos electrónicos 808, com o ponto de partido em “Planet Rock” de Afrika Bambaataa, produção que, aliás, surge em praticamente todos os discursos presentes no filme que estreou em no BFI Southbank, em Londres, no passado fim-de-semana.

 


https://www.youtube.com/watch?v=9lDCYjb8RHk

 


Tratando-se de uma viagem à boleia de uma cronologia, o documentário, que contou com a imprescindível produção executiva de Arthur Baker, o homem que produziu “Planet Rock”, é conduzido como uma espécie de banda sonora. Música a música, o filme desenvolve-se através de uma série de entrevistas que reflectem sobre cada uma das músicas singulares que vão surgindo ao longo da película: de “Planet Rock” a “Hip Hop, Be Bop (Don’t Stop)” de Man Parrish passando por “Rebels Without a Pause” dos Public Enemy ou “Let The Music Play” de Shannon e “Another Day in Paradise” de Phil Collins. A lista é extensa (dava facilmente para um duplo LP) e atravessa a electrónica, o hip hop, o acid house (referência para o seu inventor, o indiano Charanjit Singh), Miami bass, Chicago house e toda uma multiplicidade de géneros e estilos directamente influenciados pelo drum machine.

Arthur Baker, Bambaataa, François Kevorkian, Hank Shocklee, Man Parrish, Questlove, Rick Rubin, para além dos restantes nomes supracitados, são alguns dos intervenientes que discorrem emoções sobre as primeiras escutas de uma 808 a bombar nos graves sinusoidais. Já as aparições de Pharrell Williams ou Lil Jon ou David Guetta não causaram a melhor das impressões entre o público – este último foi audivelmente vaiado pela assistência que lotou a sala – ficando a faltar mais palavras, por exemplo, dos Kraftwerk, residual aparição no filme. Contudo, uma nota positiva para um debate cómico entre Mike D e Ad-Rock dos Beastie Boys, em que digladiam sobre como Adam Yauch gravou “Paul Revere”: com uma fita a rodar ao contrário; ou com a fita em rotação normal e depois tocada ao contrário enquanto lançavam as rimas.

 


 


808 The Movie discorre em piloto automático: os artistas e produtores depositam elogios à máquina, destacando as faixas em análise como verdadeiros breakthrough com impressão digital da drum machine. Tratando-se de um documentário de produção independente e limitados recursos financeiros, o filme cumpre o objectivo de celebrar a mítica drum machine, abrindo caminho para outras aventuras cinematográficas de aficionados que cavem mais a fundo a influência e causa-efeito do nascimento da 808. A brevíssima abordagem a produções italianos e britânicas e a falta de testemunhos de músicos japoneses (afinal onde nasceu a máquina) abrem caminhos por explorar.

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