8 samples de funk contemporâneo que marcam o hip hop

[FOTO] Ricardo Miguel Vieira

 

História rápida: no princípio não era o verbo, era o break. Kool Herc animava a pista onde os break boys desafiavam a gravidade com aqueles pedaços descarnados de funk onde quase só a bateria importava. O hip hop passou, por isso mesmo, toda a vida à procura da batida perfeita. Quando finalmente os samplers aterraram na nação hip hop na segunda metade da década de 80, isso abriu as portas do passado e da memória funk a toda uma geração de produtores que inventou um dos mais nobres desportos de sempre que o comité olímpico teima em não reconhecer: o diggin’.

E diggin’, significa, muito literalmente, “escavar”. A expressão não é desprovida de sentido: escava-se porque muitas vezes os discos com os melhores breaks estão enterrados em caves poeirentas carregadas de vinil. Escava-se porque estes discos estão enterrados no passado – Thes One, dos People Under The Stairs exclamou um dia que jamais samplaria um disco editado depois de 1973 (claro que o fez mais tarde). Escava-se porque, enfim, quanto mais fundo se for mais eficazmente se evitará quem tem por missão procurar samples não declarados e assim impor processos por usurpação de direitos de autor.

Tendo em conta a natureza do jogo é por isso mesmo natural que os produtores armados com um sampler fujam como diabo da cruz de discos de funk contemporâneo quando embarcam nessa sempre interminável demanda de encontrarem o break certo, o sample certo para as suas criações. Por uma razão muito simples: quem em 2015 samplar algo editado em 2014, em 2013, até em 2010, estará a samplar algo que está fresco na memória de muita gente: dos ouvintes, dos editores e certamente dos autores. Até porque acontece aqui um outro factor curioso.

O hip hop cresceu a ouvir funk clássico (nos breaks dos DJs primeiro, nos samples que se começaram a usar na Golden Age depois, etc.). Mas o funk moderno pós-Poets of Rhythm cresceu a ouvir hip hop. Por isso mesmo, dificilmente um sample escaparia aos ouvidos educados através de loops de um músico moderno de funk.

Por tudo isso e em teoria o hip hop e o funk contemporâneo deveriam viver de costas voltadas. E isso é verdade para algum hip hop: sobretudo o mais underground, com os budgets mais limitados para o sample clearing que procura a todo o custo evitar ter que pagar direitos de autor. Mas e o hip hop dos big bucks? Aquele que está no topo das tabelas? Aquele que fazem os Jay-Zs ou os Kendricks Lamars da vida? Nesses casos, os orçamentos não são problema e por isso mesmo essa questão não se coloca. E não é difícil o produtor descer à loja da esquina, cruzar-se com um disco de funk que acabou de sair e que está a bombar no sistema de som e dizer ao empregado atrás do balcão: “that’s dope, I’ll take two copies”. E essa atitude tem garantido nos últimos anos alguns momentos curiosos. Eis oito deles.

 


 

[JAY-Z] a samplar [MENAHAN STREET BAND]

 

O single da Menahan Street Band saiu em 2006 na Daptone dos mesmos Dap Kings que suportam Sharon Jones e que tocaram no segundo álbum de Amy Winehouse. E depois reencontrámos esse sample em “Roc Boys”, single que Jay-Z levantou de American Gangster, logo em 2007. Tendo em conta o tempo que os discos levam a sair, e tendo em conta que se trata de um disco ligado a um filme, é de pressupor que o beat foi criado muito provavelmente no momento em que o disco da Menahan Street Band chegou às lojas. Mais ainda: a ficha técnica de “Roc Boys” aponta na produção os “tarefeiros” LV e Sean C além do “tubarão” P. Diddy. Não seria de estranhar que Diddy tivesse ouvido o tema na rádio apontando-o depois a LV e Sean C: “façam-me lá um beat com esta malha”. E assim foi.

 


Dr. Dre feat. Snoop Dogg – “One Shot One Kill” (Compton: A Soundtrack)

 

[DR. DRE] a samplar [CALIBRO 35]

Os Calibro 35 são uma banda que se descreve como praticando “crime funk”: ou seja, inspiram-se sobretudo nas hoje muito procuradas bandas sonoras de filmes italianos da década de 70. Em 2012 editaram Ogni Riferimento A Persone Esistenti O A Fatti Realmente Accaduti È Puramente Casuale, título que remete para a frase que passávamos a vida a ler em filmes e séries de televisão e que procurava explicar que qualquer semelhança entre pessoas reais ou factos relatados no grande ou pequeno ecrã no âmbito desse filme ou série era mera coincidência. O que não deixa de ser irónico neste caso porque normalmente semelhanças entre temas de hip hop e temas de funk não são coincidência: são samples! O disco de Dr. Dre acaba de sair, o que é ainda mais sintomático. E este tema data de 2012. O sample usado no álbum de Dr. Dre deve ter garantido uns quantos tostões aos italianos Calibro 35 que, aliás, já não é a primeira vez que são samplados, como se poderá ver mais abaixo…

 


 

[JAY-Z] a samplar [CALIBRO 35]

Adrian Younge surge também nos créditos do tema que contém samples da faixa de “Il Consigliori” dos Calibro 35, o que não é de estranhar tendo em conta o fascínio que o produtor americano tem pelas bandas sonoras de filmes italianos dos anos 70 (basta pensar no recente projecto ao lado de Ghostface Killah). Mas a segunda parte do tema de puro ego trippin’ de Jay-Z baseia-se no funk aguçado do grupo italiano: síncope de bateria, baixo, guitarra e clavinet em uníssono… bomba garantida.

Os Calibro 35, já agora, foram igualmente samplados pelos Demigodz de Apathy, Esoteric, Ryu e Celph Titled. Com novo álbum preparado para sair em Novembro próximo não será de espantar que voltem a dar ideias a produtores nos tempos mais próximos.

 


 

[VINCE STAPLES] a samplar [MRR-ADM]

Já por aqui se tinha mencionado este caso. Permitam-me que recupere essas palavras (ou que me sample a mim mesmo):

Em 2011, uma não-creditada Now Again fabricou um CD de circulação limitada, promocional, que nem sequer teve distribuição convencional nas lojas. MRR-ADM-Archive reunia 12 faixas – “1ne”, “2wo”, “3hree” e por aí adiante – de funk descarnado, laboratorial, instrumental e futurista. Apesar da data desse CD plantar essa música já nesta década, na verdade as produções da dupla formada por Michael Raymond Russell (MRR) e Adam Douglas Manella (ADM) datam da segunda metade da década anterior e parte delas já tinham surgido num 10 polegadas de circulação igualmente microscópica com data de 2008. O que é que tudo isto tem que ver com Summertime ’06, estreia de Vince Staples na Def Jam? Bem, a faixa “Birds & Bees”, com beat assinado por DJ Dahi – tipo que já produziu para gente tão distinta quanto Kendrick Lamar, Freddie Gibbs, Schoolboy Q ou… Madonna – é basicamente um loop levantado de “5ive”, faixa originalmente incluída no tal CD dos MRR-ADM e que até incluía uma participação de Gonjasufi. Este facto é relevante para se perceber que coordenadas animam quem tem por responsabilidade erguer as bases sonoras por onde evoluem alguns dos mais destacados MCs da actualidade.

 


 

[GASLAMP KILLER] a samplar [MULATU ASTATKE & HELIOCENTRICS]

Ok, este é um caso mais natural, digamos assim: Gaslamp Killer vem do mesmo universo indie/alternativo que os Heliocentrics de Malcolm Catto. Aliás, o baterista inglês chegou a colaborar com os MRR-ADM e editou mesmo através da Mo’ Wax, por isso a sua ligação ao universo dos samples já vem de longe. Neste projecto que realizou com o mestre do jazz-funk etíope, Muluatu Astatke, acabou por ser Gaslamp Killer a pegar no sample trazendo estes grooves angulares para o presente da cena experimental de Los Angeles. Mas a verdade é que os Heliocentrics trabalharam sempre perto do hip hop até porque nasceram na Now Again de Egon e acabaram mesmo por editar temas em que contaram com a colaboração de gente como Vast Aire dos Cannibal Ox, Percee P ou Doom.

 


 

[JURASSIC 5] a samplar [DAP KINGS]

Este tema dos Dap Kings de Bosco Mann (aka Gabriel Roth) foi na verdade samplado duas vezes no mesmo ano: não apenas pelos Jurassic 5, mas também pelos Swollen Members (em “Too Hot”, tema com DJ Babu). Mas o curioso no caso do sample dos Jurassic 5 é que este grupo, que tem em Cut Chemist uma das suas principais figuras, sempre foi fundo na sua recolha de samples. Afinal de contas, Chemist é um dos mais aplaudidos diggers do universo, companheiro de muitas aventuras de DJ Shadow, mestre dessa cultura específica, e por tudo isso mesmo reconhecido como alguém com um profundo conhecimento da arte de desenterrar os samples mais obscuros. Ouvi-lo em 2006 a samplar um single lançado originalmente um par de anos antes teve portanto o seu quê de extraordinário. Mas, ouvindo a malha da banda do homem do leme da Daptone, talvez a mais importante editora de funk contemporâneo, é fácil perceber como terá sido complicado resistir ao seu charme samplável.

 


https://www.youtube.com/watch?v=wKF8NOEv5zU

 

[PRODIGY] a samplar [WHITEFILED BROTHERS]

Os Whitefield Brothers são outra reencarnação dos Poets of Rhythm, grupo alemão que foi responsável precisamente por dar o pontapé de saída ao renascimento do funk quando se lançou em 1993 com o hoje clássico Practice What You Preach a que se seguiria o enorme Discern/Define de 2001 na Ninja Tune. Depois, os Poets desmultiplicaram-se em inúmeros projectos incluíndo estes Whitefield Brothers que editaram igualmente na Now Again de Egon. “Sad Nile” é um tema de Earthology, o segundo álbum do grupo, datado já de 2009. Em 2012, Prodigy, homem dos Mobb Deep, usou este tema em “G-Up”, faixa de H.N.I.C. 3 que, descobre-se depois, foi produzida por Oh No, o irmão de Madlib com fortes ligações a Egon. E assim se percebe as voltas que o mundo dos samples dá…

 


 

[KENDRICK LAMAR] a samplar [MENAHAN STREET BAND]

E terminamos onde começámos, nos Menahan Street Band. Em 2009, King Blue, produtor do colectivo Sore Loosers que já assinou beats para Schoolboy Q além de Kendrick Lamar, seguia a dica dada um par de anos antes por Jay-Z e também se atirava ao funk cinemático e esparso da Menahan Street Band, banda de Leon Michaels, homem que sabe duas ou três coisas acerca de hip hop como muito bem o prova o seu projecto paralelo El Michels Affair. Aliás, são algumas dezenas os samples que esta banda que apenas conta dois álbuns em nome próprio (também têm trabalhado com o cantor de funk Charles Bradley que ainda agora pisou o palco do festival Paredes de Coura) já contabiliza, facto que deixa claro que a música que produz apela ao moderno produtor de hip hop. Neste tema de um EP da “pré-história” de Kendrick Lamar, antes de Section 80 e muito antes de good kid, m.A.A.d. city, o sample permite ao MC brilhar e envolve-lhe a voz de forma perfeita. Mais uma prova de que encontrar o sample certo para a ocasião certa é uma arte que tem muito mais que se lhe diga do que às vezes os aspirantes a guitar heroes nos querem fazer crer.

Keep diggin’!

(E quem se atreve agora a samplar Cais Sodré Funk Connection? Ou Cool Hipnoise?)

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu