7 samples que nos guiam pela arquitectura sonora dos Orelha Negra

[TEXTO] Alexandre Ribeiro

 

O sampling é um foco extremamente importante na criação artística dos Orelha Negra, envolvendo as suas canções em mundos, de certo modo, distantes daqueles que representam. Soul, funk, hip hop e outras derivações são o ponto de partida para um olhar criterioso sobre a música que já se fez, mas que não deixa de ter a sua actualidade em pequenos fragmentos. É essa mesma viagem de espartilhos sonoros que se espera do regresso do colectivo de Sam The Kid, DJ Cruzfader, Fred Ferreira, Francisco Rebelo e João Gomes. É já no dia 16 de Janeiro que os Orelha Negra sobem ao palco do Centro Cultural de Belém para apresentar o seu novo álbum de estúdio, o terceiro da sua discografia, seguindo-se ainda uma performance no Porto, a 30 de Janeiro, no Hard Club. Para ambos os eventos, sublinhamos que estamos a oferecer entradas.

O aglomerado de universos que se pode juntar numa obra é o princípio básico para perceber até onde podemos ir quando começamos a ouvir os Orelha Negra. A banda junta peças de outros, que são recortadas de forma minuciosa, e junta-lhes a sua visão, técnica e força própria, dando-lhes, em alguns casos, uma renovada vitalidade. Reverend Julius Cheek e Ozzy Osbourne convivem no primeiro disco do colectivo, um encontro de mundos e crenças tão díspares. Nesse mesmo trabalho, Paulo de Carvalho abre as hostilidades e Curtis Mayfield entrega-nos a sua alma na última faixa, exemplificando, mais uma vez, a coexistência de duas culturas sem que nos cause estranheza.

Ainda não é conhecido qualquer som do novo álbum e as surpresas estão reservadas para os espectáculos em Lisboa e no Porto. Oportunidades únicas de viver em primeira mão as novas construções sonoras dos Orelha Negra. No intuito de reviver o passado do grupo, e de antecipar o futuro, o ReB seleccionou 7 singulares samples que estão presentes na discografia do quinteto.

 


 

[ORELHA NEGRA] “Lord” | [REVEREND JULIUS CHEEKS]  “Nobody’s Fault But Mine”

Vamos à igreja? O Reverend Julius Cheek traz-nos uma versão de um original de 1927 de Blind Willie Johnson e que teve interpretações fabulosas nas vozes de Nina Simone ou Led Zeppelin. A versão com Julius Cheek foi a escolhida pelo grupo português para ser samplada e mostra-nos um trabalho vocal sentido, com devoção máxima, e com um acompanhamento fantástico da Young Adult Choir of the Marshall Heights Baptist Church.

“Lord” ganha outra força rítmica com os Orelha Negra e torna-se na música que Quentin Tarantino sempre quis ter nos seus westerns contemporâneos, mas nunca encontrou.

 


 

[ORELHA NEGRA] A Cura” | [OZZY OSBOURNE] “Crazy Train”

Uma das maravilhas do sample é a recontextualização. Os Moonspell nunca colaboraram com Sam The Kid, mas Ozzy Osbourne faz-se ouvir em “A Cura”. Confusos? Numa música guiada por teclados soul de João Gomes e exemplarmente auxiliados pela restante banda, escutamos uma voz estranha. O ex-vocalista dos Black Sabbath traz o seu “Crazy Train” para Portugal e, aliado ao vídeo criado por Carlos Afonso, torna-se uma das obras mais estranhamente belas da discografia dos Orelha.

 


 

[ORELHA NEGRA] “We’re Superfly” | [CURTIS MAYFIELD] “We Got To Have Peace” –

A música encarregue de fechar o primeiro longa-duração dos Orelha Negra é “We’re Superfly” e tem a homenagem a uma das vozes mais activas e conscientes da música negra: Curtis Mayfield. “We Got To Have Peace” é a música pilhada para sample e traz a voz do cantor/guitarrista/produtor no seu segundo registo discográfico, Roots. Curtis escreveu, compôs e produziu (quase) todo o álbum, sendo esta música um dos mais cintilantes pontífices. Os arranjos são extraordinários e aliam-se a uma sensibilidade funk e soul ao alcance de poucos. Ao contrário da paz de alma que existe na original, “We’re Superfly” é mais um exemplo de portento rítmico. O espírito de Curtis (sobre)vive  na vertigem de conjunto dos Orelha Negra.

 


https://www.youtube.com/watch?v=i8v2L2zcqyc

 

[ORELHA NEGRA] “Memória” | [PAULO DE CARVALHO] “Mãe Negra”

O primeiro artista português a aparecer nesta lista. As várias colagens que se escuta no início desta música criam uma espécie de misticismo português, que acaba por desembocar numa linha de baixo com groove a transpirar por todos os poros de Francisco Rebelo. No fim, ressoa-nos uma voz bem conhecida. Paulo de Carvalho é “recrutado” de um acapella de “Mãe Negra”, que mora nos confins do YouTube. Uma entrada fantástica no primeiro álbum da banda.

 


 

[ORELHA NEGRA] “Espelho” | [PARLIAMENT] “I Misjudged You” 

O groove e o funk fazem parte do ADN dos Orelha e é imperial perceber que a herança que perpassa por todas as suas criações reflecte grandes nomes da música negra, desde Marvin Gaye a James Brown. Os Parliament de George Clinton são outro pilar do funk que infectou artistas como Prince ou, mais recentemente, Kendrick Lamar. Os arranjos de “I Misjudged You” representam uma atmosfera tranquila ao contrário de “Espelho”, faixa embalada no escuro e envolvida na voz já conhecida de Napoleão Mira. Sete minutos de visão turva no Bairro Alto, certamente.

 


 

[ORELHA NEGRA] “Futurama” | [TO NEW HORIZONS] “Let’s Travel Into the Future”

O primeiro sample que não é “resgatado” de outro músico/banda. A fonte desta vez foi um documentário sobre uma exposição de 1939 chamada Futurama, uma tentativa de prever como seria o mundo em 1960. O recorte feito no narrador que se ouve no vídeo desde o início da faixa faz a ligação para o futuro onde os cinco magníficos vivem. Este é o sample mais obscuro da lista e coloca uma pergunta: que raio de becos cibernéticos andarão os Orelha Negra a visitar?

 


 

[ORELHA NEGRA] “No Ar” | [ANIKI BÓBÓ]

Aniki Bóbó de Manoel de Oliveira é o último desta lista e é mais um resgate proveniente de uma película cinematográfica. O sample chega-nos no fim da música e é deliciosa a forma como o instrumental é fundido com as rimas dos miúdos no filme. 1940 a fazer ponte com 2012. O novo álbum certamente permitirá mais umas dezenas de samples, sempre colocados de forma exímia pela mestria dos músicos.

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