7 Dias, 7 Vídeos

[FOTO] Direitos Reservados

 

Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?

7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal no terreno do hip hop. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto novo, com tanto por onde espreitar e escutar.

 


 

[OCEAN WISDOM] “Splittin’ The Racket (Prod. Dirty Dike)”

I’m commin’ straight outta Brighton”, uma entrada que recupera o espírito dos N.W.A. em Straight Outta Compton, super grupo que voltou a estar na ribalta graças à recente adaptação da sua história ao formato de longa metragem. Os estragos feitos nos segundos seguintes também são grandes e mostram que o apetite por microfone deste jovem MC do sul de Inglaterra está em dia. Ocean Wisdom tem-se destacado pela sua escrita mais alternativa e pela adaptação e experimentação de flows, provenientes do grime, nos terrenos do hip hop. Boom bap cheio de garra e atitude, num beat digno de um álbum de Joey Bada$$, por exemplo, mas com uns pozinhos diferentes no que toca ao conteúdo verbal. Egotrip que nos faz pairar sobre os nineties sem nunca perder a noção de que estamos em pleno 2015. Dirty Dike é o arquitecto desta paisagem sonora e está apontado como um dos principais produtores do álbum de Ocean Wisdom, Chaos 93.

 


 

[LEE SCOTT] “Everythang Is Money (Prod. Dirty Dike)”

O dinheiro não é tudo mas (quase) tudo gira em torno dele. É essa a visão que nos traz Lee Scott neste tema, meio cómico, meio sombrio. O underground inglês está, sem dúvida, de boa saúde, com a quantidade (e qualidade) de temas a que temos sido expostos dos mais variados artistas. Membro do colectivo Cult Mountain, que já nos invadiu diversas vezes com bom material, o MC inglês solta mais um vídeo de um tema de Butter Fly. Uma aposta forte no que toca ao visual, com videoclipes novos a um ritmo quase mensal, mostra a sua vontade de estar na corrida com uma presença assídua no YouTube. Não se trata apenas de ter ouvintes, mas também apreciadores de todo o conceito que gira à sua volta, mantendo-o constantemente ligado aos seus seguidores. A produção ficou a cabo de Dirty Dike, ele que é quase um distribuidor de jogo na cena underground do Reino Unido, estando presente em muitos dos trabalhos de qualidade por lá realizados, seja na produção ou mesmo a solo, como MC. Boom bap lento com uma sonoridade muito dreamy. Um sample bastante singular que nos faz lembrar algo vindo de um filme da Disney.

 


 

[COSMO SHELDRAKE] “Rich (Live)”

Apesar do boom dos multi-instrumentistas ter acontecido há uns anos atrás, existem ainda alguns sobreviventes e, até mesmo, newcomers. A febre deu-se muito graças aos ouvintes apreciarem toda a agilidade e musicalidade que é capaz de sair de uma só pessoa, com recurso a loop stations, quando rodeada de vários instrumentos. Surgiram grandes nomes, como Xavier Rudd, J Dilla e Madlib, e o movimento teve também repercussão em Portugal com Noiserv, The Legendary Tigerman ou até mesmo David Fonseca. Nos dias que correm a coisa torna-se mais apelativa com a quantidade de controladores, aos mais variados preços e com as mais variadas funções, que o mercado nos oferece. Cosmo Sheldrake surge, neste live act, munido de samples, que vai montando, um a um, com a ajuda das suas teclas. Transformando tudo isto em loops que culminam com o próprio ao microfone para uma mãozinha extra no coro do tema. Faixa carregada de alegria que nos faz bater o pé para acompanhar.

 


 

[TORY LANEZ] Freestyle @ Sway in the Morning

Mais um MC que consegue obter uma vénia do veterano Sway Calloway. Não lê rimas do telemóvel como muitos (até faz uma piada com isso) e arrisca num improviso em jeito de egotrip onde refere que ‘mata’ qualquer um dos que já se chegaram à frente daquele microfone para mandar uns versos no programa de Sway. Quatro minutos sem se engasgar, sem paragens, e nem com os brilhantes dos dentes a sair se atrapalha. É caso para o discurso já conhecido dos seguidores: “You wack rappers (…) come up here prepared too”. É esta a garra que Sway, e, no fundo, todos nós, procuramos.

 


 

[EKLIPSE] “Jaw Dance (Prod. Swiftstar)”

O lado mais negro da fusão entre a bass music e o grime. Egotrip sem papas na língua, é assim que Eklipse se dirige à concorrência. 808s carregados e pratos de choque com sabor a trap fazem desta faixa um modelo a seguir para todos os dub rappers. “All these other brothers must be ready for disaster”, avisa e faz acontecer. Linhas sombrias e agressivas que percorrem o beat, deixando estragos a cada segundo como se de um tornado se tratasse. Este é o segundo single retirado da próxima mixtape do MC sediado na zona este londrina. #DarkMatters promete dar um abanão na cena UK underground e este é, sem duvida, um rapper para acompanhar.

 


 

[RES ONE FEAT. BLABBERMOUF] “Wreck Shit (Prod. Truffel)”

Flows e rimas para todos os gostos num egotrip que segue as directrizes clássicas do boom bap. Os dois MCs assentam que nem uma luva no beat e a química que existe entre ambos é bem visível. Dá vontade de abanar a cabeça e pedir por mais uma jam. Muito talento a borbulhar em Inglaterra esta semana, desta vez é Res One do colectivo de Bristol, Split Prophets, a rasgar com BlabberMouf num instrumental feito à medida com um baixo simples, mas possante, e leves toques de trompete só para condimentar a receita. É mais um single do recente Delph Efficacy, que veio para martelar os nossos headphones, com bombos e tarolas a fazer lembrar DJ Premier, por entre malabarismos líricos de se tirar o chapéu.

 


 

[PHONYPPL] “Smoke To Get Sober”

Viagem psicadélica pelos cantos da nu soul que herdou vários elementos do hip hop e R&B contemporâneos. Acordes de teclas deliciosos que nos fazem pairar em órbitras completamente diferentes das sugestões anteriores. Fumar até ficar sóbrio? Eu alinho se for ao som deste sexteto americano que lançou o álbum Yesterdays Tomorrow no início deste ano, de onde foi retirado este tema. A voz doce de Elbee Thrie vagueia pelas ondas dos restantes instrumentos e guia-nos numa estória melódica cheia de cores. Uma malha que nos deixa a fantasiar por dias melhores, relaxados, na companhia do fumo. Melhor ainda com amigos e um copo (ou dois) à mistura pela noite dentro.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira