7 Dias, 7 Vídeos

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Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?

7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal no terreno do hip hop. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto novo, com tanto por onde espreitar e escutar.

 


 

[PUBLIC ENEMY] “No Sympathy From The Devil”

O mítico grupo de Long Island presenteou-nos recentemente com o seu décimo terceiro álbum e chega-nos agora às mãos o seu mais recente videoclipe. A critica social encontra-se bem enraizada neste tema, tal como nos habituaram, desde cedo, através do seu estilo duro e cru acerca da realidade americana aos olhos da classe média/baixa. Ainda assim não nos soa a algo repetitivo, já que os restantes ingredientes sofreram as alterações necessárias para acompanhar os tempos que correm, e ainda bem. A batida evoluiu e isso também abriu portas a novos flows. Um loop de bateria constante e muito bem trabalhado do ponto de vista da mistura com muito corte e costura de samples distorcidos e glitchy mais direccionados para a electrónica futurista.

O vídeo também acompanha a evolução, chegando a uma resolução máxima de 4K, mas com toda a essência de outros tempos. Problemas sociais, guerra, catástrofes, violência policial ou manifestações. Um vasto registo da actualidade nos Estados Unidos comandado pelas vozes desejam despoletar a revolução e ecoar em todas as colunas e headphones.

 


 

[RICH KULTURE] “BANG!!!”

Pegar num instrumental que foi hit em 2011 e dar-lhe uma nova a vida é arriscado. Rich Kulture não vai de modos e agarra com unhas e dentes este “CBat” de Hudson Mohawke como base para um novo single. Não são muitos os casos de MCs que conseguem vingar em cima de um beat que ganhou protagonismo por si próprio dentro da cena bass. A receita seria previsível à partida, dando resultado a um club banger para ouvir pela noite fora, mas não foi esse o caso. Rich Kulture recusa atravessar um trilho que à partida parece lógico e, com o seu cunho pessoal, dá-nos este “BANG!!!” que nasce de um meio lowlife e salta directamente para os nossos monitores com toda a pujança de um single mainstream. Não nos faz saltar no meio de um festival, como o seu original, mas apela a um abanar da cabeça no meio dos bombos e tarolas, sem perder de vista a letra nesta nova versão.

 


 

[JOELL ORTIZ FEAT. !LLMING] “Lil’ Piggies”

Novo single da dupla que editou Human o mês passado vem carregado de rap hardcore que aponta o dedo aos fakes do movimento. Num vídeo onde reinam imagens que poderiam ter sido retiradas de um filme de terror, Joell Ortiz dá inicio a um massacre lírico orquestrado pelas desafinações do instrumental de !llmind que nos criam na mente todo um ambiente de thriller e suspense. Ortiz vai fazendo vitimas a cada rima debitada e não se parece importar com os danos causados. Os porquinhos andam por ai, escondidos daqueles que, tal como o MC, os querem ver fora do jogo.

 


 

[THE GAME FEAT. DRAKE] “100”

Este era provavelmente a faixa mais aguardada do (ainda por editar) The Documentary 2, que junta um Game à procura de se afirmar novamente com um grande álbum, à semelhança de The Documentary, a um explosivo Drake que tem vivido debaixo dos holofotes nos últimos tempos, o que o torna numa participação bastante desejável para um álbum. O resultado foi bastante positivo: num ambiente chill out, falam-nos da competição agressiva que se vive actualmente no rap, por entre bons versos, flows e esquemas rimáticos fora do comum. Para Drake, “ser 100” significa sermos reais com nós próprios e, principalmente, com os outros. Sermos, cara-a-cara, o mesmo que somos nas costas. São dois competidores que se encontram aqui em grande forma. Ambos têm noção de que precisam de se manter rodeados apenas naqueles em quem podem confiar, porque, a esta altura, uma ‘facada’ pelas costas pode alterar muita coisa na cadeia alimentar do rap americano.

 


 

[EARL SWEATSHIRT] “Off Top”

Earl Sweatshirt surpreendeu-nos novamente com um álbum, infelizmente curto, que trouxe ao mundo uma persona mais voraz do MC dos Odd Future. Cada vez mais intenso, depressivo e competitivo. “Take the bus, take a niggas seat like it was made for me”. Deambula com um flow preguiçoso em cima dos malabarismos de percussão de Left Brain, ele que é o único produtor convidado a participar no álbum. Barras carregadas de sentimento escritas de forma singular, onde até os retratos mais tristes podem ser descritos de uma maneira bela e exótica.

 


 

[STRAIGHT OUTTA COMPTON – BEHIND THE SCENES]

Um olhar sobre as gravações deste que vai ser, provavelmente, o filme dedicado ao hip hop do ano. Toda a história de um dos grupos mais controversos do planeta, que lutou contra todas as tentativas de censura de modo a fazer ouvir a sua voz. A constante luta contra os abusos policiais e o racismo de que o seu povo sofria num país onde o choque de culturas ainda é visível pelas notícias que nos chegam. O legado dos N.W.A. nunca foi tão explorado como agora no grande ecrã. É o revisionismo de um importante período na carreira de artistas como Ice Cube, Dr. Dre ou Easy-E, que são hoje figuras históricas incontornáveis desta cultura, pais do gangsta rap mais nasty que a América já viu nascer.

 


 

[HOLLY FLO LIGHTLY] “DooBeeDoo (Prod. Termite)”

Newcomer feminina traz-nos a melancolia do jazz embrulhado em introspecção vindos do coração da Inglaterra. Uma prova de que há por aí muita mulher a carregar a chama do hip hop. Malha de piano lenta, com algumas notas de trompete e Holly a cantarolar “DooBeeDoo”. Banda sonora perfeita  para um scotch e um cigarro, luzes no mínimo e um televisor ligado em mute.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira