Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?
7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal nos terrenos do hip hop e electrónica. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto de novo, com tanto para espreitar e escutar.
[Apollo G] “Tubarão Azul” feat. Plutonio
A primeira participação de sempre de Cabo Verde num Campeonato do Mundo de Futebol é um marco histórico que toda a lusofonia deve celebrar. Apollo G e Plutonio, dois MCs portugueses de raízes africanas, uniram esforços para criar aquele que pode muito bem ascender a hino oficial da seleção nacional de um dos arquipélagos mais bonitos e culturalmente ricos do globo. “Tubarão Azul” chuta a negatividade para o lado, fala de respeito, crença e orgulho numa terra que pode aspirar ser ainda maior do que já é aos olhos do resto do mundo.
[MIKE & Surf Gang] “Back Home”
Há camadas sobre camadas no mais recente pacote artístico apresentado por MIKE, Earl Sweatshirt e Surf Gang. POMPEII // UTILITY é o disco duplo protagonizado por estas três entidades, um laboratório de experiências não apenas ao nível do som, mas também da estética visual, como nos temos vindo a aperceber através dos diferentes conteúdos que têm vindo à tona. “Back Home” faz parte da primera metade do projeto, conduzida por MIKE, e coloca o rapper a falar para “dentro” — para a estrutura da sua editora 10k e para aqueles que lhe são mais próximos — de forma a relembrar o estatuto alcançado por este que é um dos principais guias espirituais do indie rap contemporâneo.
[Xzibit, B-Real & Demrick] “This Thing of Ours”
Dois veteranos e um newcomer. É essa a receita que dá origem a Serial Killers, o surpergrupo formado por Xzibit, B-Real e Demrick que tem como missão trazer a estética do hip hop da West Coast de volta à grande montra da indústria musical. Após uma tríade de trabalhos de menor dimensão, estrearam-se com o álbum Summer of Sam em 2020 e estão agora a apontar a um novo LP, This Thing of Ours, que chega já esta sexta-feira, 10 de Abril, e que viu revelado na semana transacta o seu quinto (e homónimo) single.
[Yazz Ahmed] “She Stands On The Shore” @ A COLORS SHOW
No panorama do jazz moderno, há espaço não só para as mulheres como também para as referências sónicas menos óbvias. O A COLORS SHOW sabe disso e, fiel aos seus traços de equitividade, deu destaque a uma artista que representa essa pluralidade com que abordámos o início deste parágrafo: Yazz Ahmed trouxe até à plataforma alemã a sua particular visão de jazz expansivo e de fusão com tradições do Médio Oriente através de uma prestação imaculada de “She Stands On The Shore”, uma das composições mais marcantes do longa-duração que editou no ano passado, A Paradise In The Hold.
[Nero & Nelassassin] “Deixa a Maré Vazar”
O veterano DJ e produtor Nelassassin lançou duas novas faixas em menos de uma semana, mas parece ter planos ainda maiores para os tempos que se seguem. Depois do instrumental “Arrows (That Way)”, fez-se ladear de Nero (dos ORTEUM) para uma dose de rap cru que é como uma onda que ajuda a varrer os falsos e a deixar apenas os reais de pé num movimento hip hop que começa a soar cada vez menos autêntico. E ao que tudo parece, é uma das peças de um novo álbum que está a caminho.
[That Mexican OT] “Still Virgil”
That Mexican OT é hoje um dos nomes mais sonantes do rap vindo do Texas. Influenciado pela estética sulana — do Memphis rap ao chopped and screwed — e pelo legado chicano na cultura, tem vindo a conquistar o seu lugar com um rap criativo alicerçado sobre batidas forjadas por 808s. Apesar do sucesso que tem vindo a alcançar — estatuto que já o levou a contracenar, por exemplo, com Fred again.. ou Denzel Curry —, reafirma a sua essência com um novo single pós-Recess em que diz continuar a ser o mesmo Virgil René Gazca de sempre.
[corto.alto] “WHODIS” feat. Mick Jenkins
Desde cedo que corto.alto dava a ideia de estar talhado para voos de maior alcance que extravasassem o “continente” do jazz. O seu álbum de estreia Bad With Names (2023) colocou o seu nome nas bocas do mundo a apresentou-nos um multi-instrumentista e produtor capaz de dialogar com legados tão díspares quanto os de Pharoah Sanders ou J Dilla. A eclética Ninja Tune percebeu que tinha no escocês um diamante para lapidar e rapidamente procedeu à sua contratação, jogada que parece estar a abrir ainda mais portas para o jovem músico: depois de receber a prodigiosa franco-senegalesa anaiis em “APRIL”, assegurou um feature do reputado MC que tem recolocado Chicago no mapa do rap mais autoral, Mick Jenkins.