Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?
7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal nos terrenos do hip hop e electrónica. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto de novo, com tanto para espreitar e escutar.
[Genesis Owusu] “STAMPEDE”
Na última década, Genesis Owusu tem emergido na cena punk-rap e criado algum culto em torno do seu nome. O artista ganês-australiano teve como mais recente capítulo discográfico o álbum STRUGGLER (2023), o seu segundo nesse formato, e está neste momento a preparar um terceiro, REDSTAR WU & THE WORLDWIDE SCOURGE. O momentum para a chegada desta nova obra tem vindo a ser semeado desde a segunda metade do ano passado, altura em que nos deu a conhecer “PIRATE RADIO” e “DEATH CULT ZOMBIE”, e parece estar cada vez mais próximo de atingir o seu pico, dado o novíssimo “STAMPEDE” com que nos brindou na semana transacta. Apreciadores de Deki Alem, Paris Texas, Teezo Touchdown ou Jean Dawson: têm aqui uma nova coordenada para circular no mapa.
[Jill Scott] Ao Vivo @ Tiny Desk Concert
Um momento para os fãs celebrarem e para as novas gerações se sintonizarem na sempre pertinente arte musical de Jill Scott. Na sua estreia no emblemático e minimal palco do Tiny Desk Concert, “Jilly from Philly” aproveitou para promover o seu recentemente editado To Whom This May Concern, o primeiro LP da diva da soul e do R&B em mais de dez anos, sucedendo a Woman de 2015. Selado pela sua própria Blues Babe Records, este registo é muito mais do que o regresso de uma sonoridade que marcou uma era passada e serve de actualização estética para a cantora norte-americana, que se fez ladear de um impressionante (e surpreendente) leque de convidados e colaboradores, desde DJ Premier e Tierra Whack. Na sua passagem pela rubrica da NPR, trouxe algum desse novo material para o palco-escritório, mas não se esqueceu de clássicos como “A Long Walk” e “The Way”, aproveitando para largar um ligeiro perfume de D’Angelo pelo meio.
[The Scythe] “The Scythe”
Estamos cada vez mais perto de testemunhar a homenagem que os The Scythe vão protagonizar ao rap sulista norte-americano em Strictly 4 The Scythe. O EP de estreia do grupo liderado por Denzel Curry chega no dia 6 de Março e teve nos últimos dias o segundo tema do alinhamento revelado, o self-titled “The Scythe”, no qual participam também TiaCorine e FERG. Rap abrasivo e de magnitude imensurável dentro dos parâmetros que guiam a Escala de Richter que promete criar réplicas um pouco pelos túneis subterrâneos de todo o mundo.
[Holly Hood] “Amazónia”
A passada sexta-feira ficou marcada pelo regresso de um dos mais refinados rappers da Linha da Azambuja, símbolo incontornável da geração que catapultou o hip hop nacional a fenómeno mainstream. 10 anos depois de O Dread Que Matou Golias e da sequela Sangue Ruim, Holly Hood deu-nos o tão esperado terceiro capítulo que finda a trilogia de álbuns que tinha idealizado numa fase ainda inicial da carreira, Opressionismo, onde a técnica lírica em que assenta um dos importantes pilares da arte do MCing se alia a uma profundidade poética apenas ao alcance dos agarram o microfone com a vontade de honrar a caneta com que escrevem cada verso. O novo disco já tinha gerado vários singles e “Amazónia” foi a última peça visual a ser extraída desse universo, que serve também de mote para o grande concerto em nome próprio que o rapper tem agendado para o dia 14 de Março no Coliseu de Lisboa.
[xtinto] “Dividir”
Apesar de ter surgido alguns anos depois, xtinto é feito da mesma fibra que Holly Hood e representa uma nova vaga de criativos que tem a Zona Centro como berço. O sangue e suor gastos na escrita renderam-lhe aclamação à escala nacional, sendo hoje um dos MCs com mais estofo no panorama do hip hop português. Também ele nos entregou um novo longa-duração na sexta-feira transacta, em sonhos, é sabido, não se morre, o segundo da carreira e o primeiro enquanto artista a defender as cores da Sony Music Entertainment Portugal. Com um cunho ainda mais autoral do que nos projectos anteriores, xtinto é já um forte candidato a autor de disco do ano, e nem a estética visual é descurada nesse salto qualitativo que a sua música deu. Este seu prato está “no ponto”, tal e qual um cozinhado de Henrique Sá Pessoa, que protagoniza um cameo neste acompanhamento visual para “Dividir”.
[Thundercat] “She Knows Too Much” feat. Mac Miller
“Gentlemen, you had my curiosity, but now you have my attention.” A famosa quote de Django encaixa que nem uma luva nas boas novas que nos têm chegado do planeta Thundercat. O multifacetado músico não só anunciou que tem um álbum na calha para mais uma edição pela Brainfeeder, como revelou o quarto single, que é nada mais, nada menos do que uma colaboração com o malogrado Mac Miller. “She Knows Too Much” volta a fazer-nos recordar o talento de obras como The Divine Feminine (2016) ou Swimming (2018) e encurta o caminho até Distracted, cujo lançamento acontece daqui a sensivelmente um mês, dia 3 de Abril.
[Cali Agents] “We Here Now” (prod. Marco Polo)
O título da faixa fala por si. “We Here Now” vem descansar os fãs da dupla Cali Agents, formada pelos veteranos Rasco e Planet Asia, que no vierar do milénio deixou marca na cena rap californiana através de LPs como How the West Was One (2000) e Head of the State (2004). 16 anos depois de Close to Cash Pt.1 (2010), o par volta a carga com uma grande dose de experiência acumulada devido aos trajectos a solo de ambos os MCs, e faz deste “We Here Now” um aviso para a chegada iminente de The Greatest Story Cali Told, aqui com a produção do também experiente Marco Polo, que dá o ingrediente instrumental perfeito para estética de recorte clássico que sempre caracterizou os Cali Agents.