Era digital, informação à velocidade da luz. Vídeos e músicas a soçobrar pelas plataformas virtuais. Novidades emaranhadas entre si, confusão sónica, sentidos desorientados. Quem nos guia? Por onde vamos? Para onde vamos?
7 Dias, 7 Vídeos é o resgate audiovisual semanal nos terrenos do hip hop e electrónica. Filtragem de qualidade, barreira contra a poeira que nos cega com tanto de novo, com tanto para espreitar e escutar.
[Bad Bunny] Ao Vivo @ Super Bowl LX Halftime Show
Depois de ter tido os olhares do mundo inteiro apontados na sua direcção na noite passada, hoje o seu nome é tema de conversa em todo o lado. Infelizmente, a crescente intolerância que se faz sentir um pouco por todo o globo tem feito dividir as opiniões em torno da excelente e impactante performance de Bad Bunny no emblemático halftime show do Super Bowl LX — um dos melhores intervalos de sempre na história do desporto —, deixando evidente em muitos dos casos o recurso à lente do racismo na hora de avaliar uma manifestação artística. E numa altura em que pensávamos já ter visto tudo por parte de Donald Trump, eis que o presidente dos EUA teve a lata de abrir uma vez mais a tampa do esgoto para apelidar a actuação de “nojenta”. Que se foda Donald Trump. Que se foda a ICE. Que se fodam todos os burros de palas nos olhos que ainda acreditam nessa ideia falsa que teima em dividir as massas entre “puros” e “não puros”. Goste-se ou não, o novo rei da pop canta em espanhol. Aceitem, que dói menos.
[Uno & Pilha] “PARA QUE SERVE O GOVERNO?”
E se a classe política está cada vez mais empenhada em apontar o dedo à classe artística — e que se foda Luís Montenegro por decidir aplicar o seu tempo a processar um humorista em vez de resolver os problemas do SNS, da educação ou aqueles causados recentemente por uma onda de desastres naturais —, está mais do que na hora de tentar inverter esse ciclo e colocar as pessoas a pensar em questões como “PARA QUE SERVE O GOVERNO?”, já que todos contribuímos para os cofres do Estado com uma percentagem dos nossos salários e não vemos esse dinheiro a ser aplicado para realmente melhorar a nossa qualidade de vida. É esta a proposta de Uno e Pilha neste single-manifesto que volta a meter o rap underground a dar voz ao povo e que serve para antecipar um disco colaborativo entre o rapper e o produtor, ainda sem uma data de lançamento prevista.
[Puma Blue] “Mister Lost”
“Mister Lost” é feito de batidas esparsas e uma estética nebulosa que bebe de muita da essência da IDM na sua forma mais introspectiva. É este um dos muitos ingredientes que fazem parte da deliciosa receita que Puma Blue preparou para o seu mais recente álbum, Croak Dream, que é mais uma obra obrigatória para ajudar a decifrar o lado mais mutante que o R&B contemporâneo tem assumido numa altura de renovação identitária do género.
[J. Cole] “Two Six”
Se é pessoal, então tem de tocar directamente na raíz. J. Cole entregou-nos o seu mais ambicioso e introspectivo trabalho no final da semana passada, The Fall-Off, e “Two Six” é logo a primeira malha que podemos escutar após o trecho de “Carolina In My Mind”, de James Taylor, repescado para a inicial “29 Intro”, deixando logo bem clara a importância da zona onde cresceu — Fayetteville, na Carolina do Norte — no seu desenvolvimento enquanto ser humano. O título da faixa faz referência ao código usado para identificar a cidade e resolve-se num anthem empoderante com o MC a disparar para o ar algumas das suas rimas mais sagazes em cima de uma batida infalível — daquela capazes de gerar bangers instantâneos — cozinhada a seis mãos por T-Minus, Omen e Ron Gilmore.
[Elji Beatzkilla] “Rabil”
Já são mais de 10 anos na estrada a erguer a bandeira de Cabo Verde um pouco por todo o mundo, seja através de lançamentos a solo, concertos internacionais ou colaborações com artistas sediados em diferentes coordenadas. Joel Évora, mais conhecido por Elji Beatzkilla, pára para reflectir uns minutos sobre a sua própria caminhada e dedica um tema à aldeia que o viu crescer, Rabil, com um single bem quente que mistura rap cantado com ritmos e melodias típicos do arquipélago africano, orquestrados pelo próprio Beatzkilla em colaboração com as guitarras de Djodje Almeida, Khaly e Joao Lima.
[Gwen Bunn] “Extra Mile”
Cantora, autora e produtora já creditada em canções de ScHoolboy Q, Syd ou Jordan Ward, Gwen Bunn tem também pedalado a solo nessa grande encruzilhada da soul e do R&B com os trilhos da electrónica. Após nos ter mostrado a sua última PHASE em 2022, está agora a orbitar em torno de um novo projecto que está previsto chegar-nos mais lá para a frente ainda este ano. Seja qual for o resultado final, tem desde já garantida a presença enquanto parte da banda sonora da nossa pista de dança com este house bem soulful que nos puxa para dar aquele “Extra Mile”.
[Dua Saleh] “Glow” feat. Bon Iver
A cantora e actriz Dua Saleh continua a dar passos firmes no seio da editora independente Ghostly International, por mais experimental que a sua proposta sonora possa parecer. Pop, R&B, electrónica e hip hop vão continuar a andar de mãos dadas no projecto que se segue nas suas contas, Of Earth & Wires, com edição marcada para 15 de Maio, e duas das faixas do seu alinhamento já foram reveladas, ambas em colaboração com o esteta Justin Vernon, dos Bon Iver, que vai somar uma terceira aparição por entre as restantes malhas. “Glow” é um dos resultados do encontro entre ambos os artistas e nasceu de uma sessão de estúdio que Saleh descreveu como tendo sido “invulgarmente fluída”.