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5 tópicos importantes na entrevista de DJ Premier ao Genius

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Genius Level é a mais recente série da plataforma Genius que, cada vez mais, prima pelos conteúdos originais de qualidade, servidos de forma gratuita à comunidade hip hop espalhada à volta do globo. Se The-Dream tinha já sido uma aquisição de ouro para estrear um novo programa de entrevistas, o que dizer do segundo episódio na companhia de DJ Premier?

A conversa foi mediada pelo jornalista Rob Markman, da equipa do Genius, e contou também com um espaço reservado para algumas questões por parte da comunidade. Em quase uma hora de perguntas e respostas, Preemo percorreu os seus tempos de adolescente, a caminhada ao lado de Guru nos Gang Starr e um infindável leque de memórias das inúmeras parcerias que estabeleceu ao longo de mais de 30 anos de carreira. Histórias de Jay-Z, Nas, D’Angelo, Christina Aguilera ou KRS-One recordadas na primeira pessoa, que fazem de Premier um dos mais influentes produtores de hip hop de todos os tempos.

O Rimas e Batidas destaca 5 tópicos importantes na mais recente entrevista de DJ Premier ao Genius:

 


[Do Texas a Nova Iorque]

Premier é tido em consideração enquanto um dos mais influentes arquitectos sónicos do hip hop nova-iorquino. E foi provavelmente o facto de ter nascido bem longe da cidade que nunca dorme que fez com que o seu toque soasse diferente na hora de carregar nos botões da MPC. O DJ e produtor nasceu no Texas e a sua adolescência situa-se numa época em que a informação ainda não circulava a todo o gás, mesmo dentro dos próprios EUA. Em seu redor, o movimento hip hop era quase nulo. “Nas festas onde nós íamos não havia rap nem scratch. Tudo girava à volta de Barry White, Al Green, Isac Hayes, Curtis Mayfield, Aretha Franklin, Minnie Riperton, Gladys Knight & the Pips… Tudo da Motown, dos Temptations ao Stevie Wonder. Era tudo o que tínhamos. Quando se começou a desenvolver a cena do breakbeat, eu fiquei tipo ‘eu tenho este disco, e esse também, e aquele…’ Tudo isso me fez tornar no que me tornei antes de ter partido para Nova Iorque”, revelou Premier, dando ainda os devidos créditos às irmãs mais velhas, que devido à diferença de idades acabavam por escutar algumas coisas diferentes, e à mãe, que o levava às compras nas lojas de discos, também ela detentora de uma colecção de vinis que veio a inspirar alguns dos seus primeiros beats.

 


[Beats 100% exclusivos]

Nem sempre é fácil dar vida a uma canção para quem faz beats. Há uma total dependência para com um MC, que é quem serve de rosto para a música que os produtores fabricam. Cria-se o hábito em aplicar uma certa rotação aos instrumentais, que podem saltitar de rapper em rapper até serem finalmente escolhidos.

DJ Premier gosta de servir os seus mestres de cerimónias com material 100% exclusivo, e faz alusão a isso mesmo durante a entrevista dada ao Genius. “Há rumores de que eu passei beats de Gang Starr a outros artistas, mas eu nunca fiz isso. Porque toda a gente que trabalhou comigo, do Nas, ao Jay-Z, Biggie, Rakim, KRS-One, eles dizem-te. Os MCs sentam-se ao pé de mim e testemunham todo o processo ali mesmo. A música que tu ouves foi feita naquele momento”. Palavras do mestre.

Não existem fórmulas para a comercialização/cedência de beats, mas o método de trabalho adoptado por Premier certamente traz vantagens. A sensação de que tudo está a ser feito do zero, lado a lado, atribui um maior sentimento para com o produto final e cria uma maior harmonia entre o instrumental e o seu MC.

 


[Conhecer a cultura: do passado até presente]

É normal existirem gostos diferentes ou uma atracção especial por uma qualquer ramificação da cultura hip hop. Principalmente pelos que já militam no movimento há mais anos. Criam-se vícios por uma certa sonoridade e há a tendência de vir a público defender que determinado estilo é mais genuíno do que os outros, passando a limitar e a filtrar todo o tipo de hip hop que se consume.

Quer goste ou não, Preemo é um homem interessado em perceber as tendências do presente. E acompanha-as. Durante a entrevista com Rob Markman, Premier tece um comentário acerca da geração digital: “Eu gosto de todos os novos artistas que vão surgindo. Eu ouço tudo. Apenas não sigo esse estilo. És capaz de me ver a ouvi-los enquanto estou a conduzir… Eu estou sempre em cima, eu estudo, eu ouço o Flex durante uma hora todos os dias para saber o que ele anda a passar. Por isso estou a acompanhar”, mencionando ainda os sobrinhos, acabados de entrar na idade adulta, que também vão dando dicas ao tio sobre os artistas que mais ouvem. “É parte da minha cultura, é suposto eu saber disso”, remata.

 


[Os meus preciosos samples]

Como quase todos os produtores de hip hop, DJ Premier gosta de reutilizar a música de outros artistas para servir de base para as suas próprias criações. Uma das suas imagens de marca é, sem dúvida, a escolha meticulosa pelo pedaço de audio mais obscuro, que soe bem mas que seja difícil de detectar a sua origem.

A “verdade” vem sempre ao de cima com o passar dos anos. Há sempre alguém que acaba por dar de caras com os temas que vão sendo adaptados para o hip hop. Fazem-se listas em sites, compilações no YouTube ou até mesmo extensas bases de dados que fazem a ligação entre os originais e os samples que o hip hop adopta.

Preemo mostra-se indiferente para com os diggers, mas continua a zelar pelo secretismo em torno das músicas que processa na sua MPC. E não só prefere não revelar as suas fontes, como rejeita mesmo a ideia de ter alguém a vasculhar por si nos arquivos. “Eu gosto de ser conhecido por algo do género: ‘de onde é que ele desencantou aquele sample?”, revela o histórico DJ e produtor, contando ainda um episódio que se tem repetido ao longo da sua carreira: “Há gente que chega ao pé de mim do tipo ‘tenho aqui uma cena muito quente, eu sei que vais curtir’. E eu ‘nah…’ Porque sei que mais tarde se vão poder gabar de me ter passado o disco.”

 



[Revelação: uma track com A$AP Ferg a caminho?]

Percebemos que DJ Premier não se deixa enclausurar apenas no seu espectro sónico e os novos artistas também merecem uma passagem pelos seus ouvidos. E embora admita que não pretende envergar pelo caminho para o qual as novas tendências apontam, isso não é um motivo suficientemente forte para deixar de trabalhar com as vozes mais frescas do panorama do hip hop.

E é na última das três questões feitas pela comunidade do Genius que Preemo faz uma revelação curiosa. “Qual é a tua faixa favorita que ainda não viu a luz do dia?”, perguntou Skhills, um dos inúmeros membros inscritos na plataforma. E após uma breve pausa para vasculhar mentalmente o seu arquivo, a resposta é assertiva: A$AP Ferg. “Fiz uma faixa com ele. Está forte. Aquela cena crua de Nova Iorque. E ao estilo do Preemo.”

Tudo indica que vamos poder ouvir Ferg fora da sua zona de conforto. E a julgar pelas palavras do lendário produtor, a faixa em que ambos trabalharam parece ter de tudo para não deixar os fãs do boom bap decepcionados, merecendo ainda algumas comparações a malhas icónicas como “Shook Ones Pt.2” ou “Ante Up”. “Nós criámos realmente uma ligação nessa música. Não ficou o Ferg de um lado e eu do outro. Estão ali as duas partes bem misturadas”, conclui.

 


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