4 razões para continuar a dar ouvidos aos Public Enemy

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

 

Chuck D deu uma extensa e esclarecedora entrevista à publicação Digital Trends. Depois da edição de Man Plans God Laughs, mais um marco na continuada evolução sonora dos míticos Public Enemy, o Rimas e Batidas aponta-vos quatro razões – descodificadas a partir das palavras do líder do histórico colectivo de Long Island, Nova Iorque, Chuck D – para continuarmos a dar ouvidos a estes dinossauros.

 

[O QUE É A PRESSÃO?]

São vários os discos de ouro e platina ganhos nos primeiros anos de actividade, proeza que, nos dias de hoje, não passa de uma miragem para muitos artistas. A fasquia que esteve em tempos elevada mostra-se agora uma aliada no presente e futuro do grupo norte-americano. Graças ao número de experiências de sucesso feitas no passado, é possível olhar para trás e ver que no meio da bonança também houve espaço para erros, o que lhes dá a tranquilidade necessária para continuar a experimentar novos métodos sem ter medo de errar novamente. “Quando envelheces, olhas para as coisas que disseste na juventude e facilmente pensas, ‘Oh, eu disse aquilo? Eu devia estar completamente louco da cabeça.'” Afinal de contas errar é humano.

 

[UMA INSPIRADORA NOVA GERAÇÃO]

Não são muitos os artistas ou grupos que dão o braço a torcer quanto ao aparecimento de novos fenómenos e sonoridades, tornando-se difícil para os mesmos continuar a evoluir e encontrar o seu lugar no mercado musical. Para Chuck D é importante acompanhar os tempos que correm e absorver toda a qualidade musical que existe ao nosso dispor para encontrarmos a nossa posição e também para ter ideia do que se anda a fazer noutras ligas que possa ajudar na evolução do nosso próprio som. Quanto aos nomes que o inspiram neste momento, admite: “Para este novo disco decidimos ir para o estúdio fazer algo inspirado nos Run The Jewels (…) e talvez um pouco do que o Kendrick Lamar estava a rimar e, claro, o que o Kanye West fez em Yeezus.”


 


[MUSIC COMES…FORTH?]

O sucesso não se traduz obrigatoriamente em atingir os tops por diversas ocasiões ou gerar milhões de dólares em pouco tempo. Basta olharmos para a idade do colectivo, que leva já com 33 anos de existência e ainda dá que falar. Isso também é sucesso. E para se manterem em actividade é preciso saber acompanhar os tempos sem nunca se desligarem dos seus princípios. Falamos do conceito de álbum e nos métodos de divulgação e venda do mesmo. “Fizemos um álbum de 60 minutos porque o apetite para tal na altura era, ‘eu quero mais rap!’ (…) Agora é o oposto, os álbuns são mais curtos porque o apetite está saciado.”

Para Chuck D, o rap está em todo o lado e a fome do público por um álbum já não é tanta dada a constante edição de novos trabalhos. Para isso basta adoptar o conceito de EP. Em vez de lançar 60 minutos de música por ano de uma só vez, divide-se o tempo em duas ou três partes para poder ir alimentando os ouvintes com maior frequência. Quanto à distribuição, o streaming já não mete medo e tem vindo a confirmar cada vez mais a sua importância na divulgação e na rentabilidade dos trabalhos dos artistas. Mas não é tudo, o truque está em saber jogar em várias frentes. Assim como o streaming, existe ainda o CD no que toca a edições digitais, o vinil para os amantes do calor analógico e ainda um formato WAV de alta qualidade para os mais entusiastas. Sem esquecer também o campo dos vídeoclipes, onde continuam a dar cartas e até já apostam na tecnologia 4K, num universo onde o áudio já não é tudo. “Quando falas de artistas musicais do presentes, englobas digitalismo, visão, som e estilo. O som não está definitivamente em primeiro; provavelmente está em segundo ou terceiro ou até quarto lugar [das prioridades].”

 

[A IDADE É SÓ UM NÚMERO]

Aos 55 anos, Chuck D considera que a sua banda é uma espécie de The Rolling Stones do rap. A idade não os faz abrandar nem ter medo de se sentirem deixados para trás. Até porque são eles próprios quem faz para que a sua música continue a evoluir e a ter espaço no mercado dos dias de hoje. Sonha ainda em partilhar o palco com os próprios Stones, algo que já conseguiram fazer com os U2, por exemplo.

No que toca ao físico, o MC lembra que a sua forma é muito importante para continuar a conseguir entregar-se a cem por cento aos espectáculos ao vivo, de onde salta uma expressão curiosa. “Ou tu fazes as músicas, ou as músicas fazem-te.”

Parar é morrer e eles estão aí para as curvas.

 

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira