36 Chambers e Midnight Marauders: 25 anos de memórias hip hop com Wu e Tribe

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Convenhamos: estes dias de celebração de uma memória hip hop alimentados pelo redondo aniversário de peças cruciais do puzzle de álbuns clássicos – como são, sem quaisquer dúvidas, Enter The Wu-Tang (36 Chambers) e Midnight Marauders – diz muito mais da força presente do género do que qualquer outra coisa. Folheando a imprensa musical de 1993, facilmente se percebe que eram outras coisas que então concentravam as atenções: trabalhos de bandas como Yo La Tengo, Tindersticks, Lemonheads, Pearl Jam, Mudhoney ou, para citar apenas mais um par de exemplos, Guns N’ Roses e Nirvana ofereciam pano para mangas a uma imprensa mais em sintonia com a flanela de Seattle do que com as Timberlands que calcorreavam as ruas de Nova Iorque.

Assinalar agora os 25 anos do trabalho de estreia dos Wu-Tang Clan e do terceiro álbum dos A Tribe Called Quest significa, portanto, que o hip hop se encontra hoje numa posição privilegiada, por um lado, mas também que há finalmente uma História (a maiúscula é propositada) que urge contar. É que a indústria da memória que sempre sustentou a imprensa musical e que hoje, mais do que nunca, se manifesta nas incontáveis edições especiais em torno dos Beatles e de David Bowie, dos Led Zeppelin ou de Bruce Springsteen, dos Pink Floyd ou dos Rolling Stones, sempre forçou essa ideia de que o rock tem um fértil legado (que inegavelmente tem) e que o hip hop, pelo contrário, vive num eterno presente, sem memória e sem futuro.

Em abono da verdade, o próprio hip hop nunca enjeitou essa condição de eterno presente e se pelo menos desde a explosão comercial dos CDs, precisamente no arranque dos anos 90, que a constante reembalagem do passado, em edições especiais e box sets de luxo, deu ao passado rock uma aura de natural glória, foi praticamente necessário esperar pelo aparecimento da Get on Down para começar a ver o hip hop ser alvo do mesmo tratamento arquivista: caixas de luxo para clássicos dos Cypress Hill, Boogie Down Productions, Raekwon, MF Doom, Pete Rock & C.L. Smooth e, pois claro, Wu-Tang e Tribe ofereceram ao hip hop a mesma perspectiva arqueológica que há muito se sabia existir noutros géneros.

E agora, 25 anos depois, é portanto possível celebrar clássicos e começar a lidar com o facto do hip hop estar a caminhar para ter também os seus Jaggers e McCartneys, os seus Sgt Pepper’s e Pet Sounds.

E 1993 foi, de facto, ano de grande colheita para o hip hop, um ano “vintage”, para manter a metáfora vinícola: os Pharcyde e Dr. Dre, KRS One e os Digable Planets, 2Pac e os Geto Boys, Onyx, Beatnuts, Mobb Deep, Freestyle Fellowship, Masta Ace e os The Coup, os Roots, Guru, Cypress Hill, Biz Markie e De La Soul, Black Moon, Eazy E, Ice Cube… todos editaram álbuns, muitos deles hoje tidos como clássicos. Que diabos, os Souls of Mischief declararam, certeiramente, 93 ‘til Infinity!

Mas o dia 9 de Novembro foi de facto especial porque viu duas bombas aterrarem nos escaparates das lojas: Enter The Wu-Tang (36 Chambers) e Midnight Marauders, produtos de dois colectivos especiais de Nova Iorque, de Staten Island e Queens, dinamitaram, cada um à sua maneira, convenções e regras, impondo ainda mais o hip hop como uma sólida área de criação artística, com argumentos para conquistar o futuro.

 



Os Wu-Tang Clan, para começar, eram absolutamente originais: RZA e GZA, Method Man e Raekwon, Ghostface Killah, Inspectah Deck, U-God, Masta Killa, Cappadonna e Ol’ Dirty Bastard eram de facto um enxame sedento de triunfo, mas inabalável na sua determinação de conquistar o mundo à sua maneira.

Em primeiro lugar, a aura: o grupo projectava uma imagem de gangue fechado, hermético, um circulo inquebrável que parecia impossível de descodificar e de corromper, um bloco granítico de força, bravado, talento e carisma.

Depois a filosofia: os clássicos mais ou menos obscuros de Kung Fu produzidos pelos Shaw Brothers em Hong Kong que se faziam de heróis improváveis, capazes de inacreditáveis feitos atléticos, cada um capaz de dominar diferentes estilos, invariavelmente aperfeiçoados até à exaustão num qualquer mosteiro remoto onde teriam sido moldados por ideais de honra e coragem que os serviam na hora de irem contra inimigos sempre muito mais poderosos, mais numerosos.

A estética sonora: RZA encontrou em velhos singles de soul, de que extraía loops aparentemente primários, pedaços significantes de drama e tensão, com uma aura particular tintada de sépia, e conseguia, paradoxalmente, fazer com que os seus beats soassem profundos, diferentes e como se fossem também maquetes gravadas em cassete com equipamento primitivo.

E finalmente a dimensão lírica: dura como uma presa de elefante, afiada como uma espada de Shaolin, com mais escárnio ou mordacidade, com mais humor absurdista ou mais violência metafórica, o grupo começava por declarar guerra ao universo, assumindo a postura de combate que sempre os caracterizou. Um exército de parcas unidades, mas de amplo poder destrutivo.

No mesmo dia em que os miúdos agarravam cópias em vinil, CD ou, mais provavelmente, em cassete de 36 Chambers, podiam também agarrar e levar para casa o terceiro álbum dos A Tribe Called Quest, Midnight Marauders. Um bicho de uma espécie muito diferente…

 



Os Tribe de Phife Dawg, Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad e Jarobi White, que integravam as Native Tongues ao lado dos De La Soul e Jungle Brothers, pareciam bem mais interessados no Egipto do que em Shaolin, mais próximos de uma ideia mais expansiva de jazz do que em reduzir a soul até uma densa e balsâmica concentração de notas sombrias. Se os Wu-Tang eram o colectivo unido em cyphers atrás do pavilhão de desporto, os Tribe eram os marrões a debaterem política no átrio da biblioteca; se os Wu-Tang eram os mauzões que obrigavam toda a gente a mudar de passeio quando surgiam no início da rua, os Tribe eram os tipos simpáticos que ajudavam a avózinha a levar as compras para casa quando iam a caminho do café com livros de James Baldwin debaixo do braço.

Em Midnight Marauders, Ali Shaheed e Q-Tip conjuram um universo sonoro carregado de linhas de baixo ondulantes e ecos de jazz conseguidos à custa de uma rica salada de samples extraídos de discos de Minnie Riperton e James Brown, Cal Tjader e Roy Ayers, Weldon irvine e Charles Earland, Meters, Bob James, Lou Donaldson, Lee Morgan, Bola Sete ou, entre outros, George Duke. Uma selecção bem mais “progressiva” do que a que RZA conjurou a partir de rodelas dos Charmels, Gladys Knight, Melvin Bliss e Syl Johnson, Otis Redding e New Birth…

Por outro lado, dos três clássicos com que os Tribe assinalaram o seu arranque de carreira, Marauders é provavelmente aquele em que Q-Tip mais eleva a pressão do jogo lírico do grupo, aperfeiçoando o jogo de contrastes com o estilo de Phife, oferecendo quase dois lados de uma mesma moeda enquanto debatem questões sociais e quotidianas, usando uma linguagem que pode ser tão sofisticada quanto crua. Mas tecnicamente, ao nível da musicalidade dos flows, do encadeamento das metáforas, não há dúvidas de que o álbum exala uma confiança natural conquistada à custa de muito trabalho. O grupo estava de facto numa digressão triunfal, a recolher os frutos de uma visão muito particular.

Em 1993, pegar nestas duas cassetes e metê-las no walkman a caminho de casa equivalia a abrir dois excitantes portais para diferentes dimensões do universo hip hop, talvez mais nocturna uma, mais solarenga a outra, mas certamente ambas desafiantes, capazes, como aliás hoje se prova, de desafiarem o tempo, conquistarem as décadas e afirmarem-se como autênticos marcos de um percurso que continua, todos os dias, a desenrolar-se diante dos nossos olhos. E, sobretudo, dentro dos nossos ouvidos. Dois clássicos para arrumar na prateleira das obras-primas, ao lado das pérolas dos Beatles e de Bob Dylan.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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