3 Feet High and Rising dos De La Soul completa hoje 30 anos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] David Corio

What’s Going On de Marvin Gaye, A Love Supreme de John Coltrane, Revolver dos Beatles, Busto de Amália Rodrigues, Pet Sounds de Beach Boys, The Velvet Underground & Nico de Velvet Underground, Astral Weeks de Van Morrison, Highway 61 Revisited de Bob Dylan, Movimentos Perpétuos de Carlos Paredes, Kind of Blue de Miles Davis, Transformer de Lou Reed, Swordfishtrombones de Tom Waits, Trout Mask Replica de Captain Beefheart, Remain in Light de Talking Heads, Electric Ladyland de Jimi Hendrix, Marquee Moon de Television, Dummy de Portishead, Queen of Soul de Aretha Franklin, Low de David Bowie, Songs For Swingin’ Lovers de Frank Sinatra, Sign ‘O’ The Times de Prince… A lista pode continuar como e quanto qualquer um quiser, mas se for uma lista de melhores álbuns desse imenso território que, e à falta de melhores termos, poderemos nomear como “música popular” então será difícil que não inclua 3 Feet High and Rising, a obra prima do trio de Long Island que o mundo conhece como De La Soul. É nessa superior classe que o álbum de estreia de Posdnuos, Maseo e Trugoy deve ser arrumado. Sendo que boa parte da responsabilidade desse invejável estatuto alcançado por 3 Feet High and Rising deve ainda ser imputada a Prince Paul. Mas já lá iremos.

O álbum que hoje completa redondos 30 anos de existência foi, à entrada de 1989, o culminar de um rápido processo de evolução de uma cultura muito específica, nascida no bairro nova-iorquino do Bronx, erguida, musicalmente falando, à custa, primeiro, da elevação do gira-discos à condição de instrumento, da codificação de uma nova forma de comunicar através do microfone e de uma até aí inédita política de apropriação de material alheio. A memória impressa em vinil, recente ou longínqua, passou a ser matéria moldável nas mãos do DJ.

Ora, em 1988, quando os De La Soul deram os primeiros sinais da sua existência com a edição do single “Plug Tunin’”, “Rapper’s Delight”, o “big bang” da cultura protagonizado pelos Sugarhill Gang, tinha surgido meros 10 anos antes. A mesma distância temporal que separava Elvis Presley de Revolver, representando um processo evolutivo complexo, também se entrepunha entre o primeiro registo da banda inventada por Sylvia Robinson à porta de uma pizzaria do Bronx e o primeiro sinal dado pela interacção entre o produtor dos Stetsasonic e o DJ e MCs vindos de um subúrbio de Nova Iorque, mais concretamente de Amityville, cenário do filme de terror The Amityville Horror de 1979, realizado por Stuart Rosenberg e com o pai de Josh Brolin no principal papel. Não será difícil imaginar os três miúdos, nascidos entre 1968 e 1970, a esgueirarem-se para o cinema para verem um filme inspirado num real episódio macabro sucedido uns anos antes no seu bairro e depois, a caminho de casa, escutarem, na rádio, o arranque de um admirável mundo novo quando um qualquer DJ possa ter anunciado algo como “and now, straight outta the Bronx, this is the new sound of the streets by the Sugarhill Gang, ‘Rapper’s Delight’”… Nunca se sabe, certo? Coisas mais estranhas hão-de certamente ter acontecido. Adiante…

No mesmo ano em que se estrearam com “Plug Tunin’”, em que, referenciando a cultura de onde eram originários, os De La Soul começam logo por dizer “the first time around, you didn’t quite understand our new way of speak” (uma espécie de “não percebes o hip hop”…), a refinação desse primeiro impulso dado pelos Sugarhill Gang começava a dar resultados extraordinários: os álbuns Critical Beatdown de Ultramagnetic MC’s, It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back de Public Enemy, The Great Adventures Of… de Slick Rick, Straight Outta Compton dos N.W.A., Follow The Leader de Eric B & Rakim ou, para citar apenas mais um clássico absoluto, By All Means Necessary dos Boogie Down Productions de KRS One saíram todos em 1988, disparando para os píncaros a fasquia criativa de uma cultura que ainda nem sequer tinha formalmente entrado na sua adolescência.



Mas tal como é possível conceder que houve um significativo salto de Rubber Soul (1965) para Revolver (1966) – com os Beatles a entenderem primeiro o que conseguiam fazer no estúdio com a utilização de todas as possibilidades tecnológicas então disponíveis e depois a finalmente conseguirem aplicar o resultado pleno dessas iniciais explorações – também entre It Takes a Nation of Millions… e 3 Feet High… é possível identificar uma clara evolução.

O álbum de 1988 dos Public Enemy,  vizinhos de Long Island, com produção do colectivo Bomb Squad dirigido por Hank Shocklee, representou um primeiro pináculo na utilização criativa do sampling, sobretudo pela expansão de um pensamento específico de produção em que os diferentes samples podiam ser dispostos em “camadas”. Chuck D, em 2008, disse à Quietus que Shocklee era uma mente criativa capaz de ombrear com os maiores: “há que dar crédito a quem merece: se o Phil Spector nos deu o Wall of Sound”, explicou o MC referindo-se à técnica de saturação pela sobreposição de diferentes instrumentos obtida pelo produtor que, curiosamente, liderava uma equipa de músicos de estúdio baptizada como The Wrecking Crew, “então o Hank Shocklee inventou o Wall of Noise”. De uma parede de som erguida por uma equipa de demolição para um muro de ruído criado por uma brigada de minas e armadilhas. Faz pleno sentido.

O ruído a que Chuck D se referia e que era celebrado, precisamente, em “Bring The Noise”, segunda faixa do alinhamento do álbum de 1988, resultava da sobreposição de diferentes samples, criando uma amálgama sonora algo caótica, mas também eficaz para suportar as ferozes rimas cuspidas pelos MCs e o scratch agressivo de Terminator X. Prince Paul pegou na ideia dos diferentes samples organizados em camadas, mas deu-lhes um refinamento mais “musical”. Em 2014, Posdnuos clarificou o processo em entrevista ao Guardian: “O 3 Feet High And Rising custou 13 mil dólares e foi feito usando apenas um sampler/caixa de ritmos Casio RZ-1 e um outro aparelho chamado harmonizer da Eventide que nos permitia encaixar canções que tinham afinações diferentes – dessa forma conseguíamos pegar na voz de Daryl Hall e colocá-la sobre uma gravação de Sly and the Family Stone, era espantoso”. O rapper dos De La Soul elaborou ainda mais sobre a energia criativa em ebulição no estúdio Calliope, de Nova Iorque, em que decorreram as gravações de 3 Feet High… “As ideias chegavam rapidamente. Misturávamos três canções por dia, com cada uma a impulsionar a próxima. Pegámos em ‘I Can’t Go For That’ de Hall and Oates e transformamo-la em ‘Say No Go’, uma canção anti-drogas. ‘Eye Know’ pegou numa frase de ‘Peg’ dos Steely Dan (‘I know I love you better’) e transformou-se numa canção acerca de uma rapariga, com um bocadinho de um assobio de Otis Redding. E fizemos ‘Me, Myself and I’ rimando em cima de um loop dos Funkadelic no estilo ritmado dos Jungle Brothers”.

“Era divertido”, explicou ainda Posdnuos, “infantil e muito animado. Rimávamos sobre ‘Mr Fish swimming in a bathroom sink’. Mergulhávamos no psicadelismo ou no jazz. Desacelerávamos a voz do Eddie Murphy e acrescentávamos um carro a acelerar ou nós mesmos a fazermos yodeling. Nunca nos passou pela cabeça que o que estávamos a fazer visse a ser entendido como revolucionário”. Mas foi. E justamente.



Como se referiu anteriormente, dessa revolucionária fórmula não se pode subtrair um elemento crucial chamado Prince Paul. Nascido em 1967, Paul Edward Huston era apenas um ano mais velho que David Jude Jolicoeur, aka Trugoy The Dove, o mais velho dos membros do trio. Era por isso mesmo, fruto do mesmo caldeirão geracional, mas acumulava mais experiência do que os membros dos De La Soul tendo integrado os lendários Stetsasonic logo aos 17 anos.

Quando chegou ao estúdio para criar “Plug Tunin’” com Posdnuos, Trugoy e Maseo, Prince Paul já contava dois álbuns na sua discografia: On Fire, lançado em 1986, e outro grande clássico de 1988,  In Full Gear, álbum do enorme “Talkin’ All That Jazz”. Com a experiência, vinha igualmente uma visão informada por década e meia de fervorosa devoção à sua preciosa colecção de discos feita de marcas de um passado que Prince Paul entendia poderem ser usadas como cruciais peças de construção de um futuro.

À Complex, Prince Paul explicou em 2011 que o trabalho em 3 Feet High… foi importante porque finalmente lhe permitiu realizar uma visão que nunca foi plenamente aplicada nos Stetsasonic por causa da gestão de egos: “Quando peguei nos De La Soul eles tornaram-se o meu projecto de estimação. Podia fazer qualquer coisa que eles iriam sempre encarar-me com admiração. E isso tornou o processo criativo e o assumir da liderança coisas muito diferentes do que conhecia de projectos anteriores”.

Paul frequentou o mesmo liceu que os De La Soul e na altura já tinha conquistado o seu “hood pass” graças à reputação adquirida com os Stetsasonic. Depois de conhecer Maseo numa sessão frustrada para um artista chamado Gangsta B, o DJ dos De La Soul perguntou-lhe se lhe poderia entregar uma demo do seu grupo. Era uma primeira versão de “Plug Tunin’”: “Passei-me com a música deles”, concedeu Prince Paul à Complex. “Peguei na versão deles, fiz uns overdubs, acrescentei-lhe mais samples, fiz um novo arranjo. Quando lhes toquei a minha versão eles ficaram entusiasmados: ‘está uma loucura’”.



A química de Prince Paul com Trugoy, Maseo e Posdnuos acentuou-se, com os quatro a conseguirem comunicar de forma quase instintiva. “A produção no álbum foi feita de forma colectiva”, revelou Paul. “Foi uma daquelas cenas em que cada um tinha ideias e a mim cabia a responsabilidade de fazer acontecer, de organizar tudo”. Para lá de traduzir pensamento em acção e de ser o arranjador de serviço, capaz de orquestrar as mais absurdas ideias e de as fazer encaixar em momentos de puro delírio musical, Prince Paul ainda pode ser creditado como o principal responsável por uma das mais marcantes características de 3 Feet High and Rising: os skits. Os interlúdios que pontuavam o alinhamento – que dessa forma se estendia até às 24 faixas!! – conferiram ao álbum a espessura conceptual de um Sgt. Pepper’s… “A ideia dos skits surgiu quando já tínhamos o álbum pronto”, revelou ainda Prince Paul à Complex. O principal objectivo seria familiarizar o público com o nome dos MCs, numa era em que o culto das personalidades hoje amplificado pelas plataformas sociais ainda não existia. “Por isso pensei, ‘hey, porque não fazemos disto uma espécie de concurso televisivo?’”.

Cada um dos membros do grupo teria assim a oportunidade de se apresentar, de firmar o seu nome para a posteridade, respondendo, à medida que o álbum ia correndo, a pequenas e deliciosamente ridículas questões colocadas por Al Watts, o engenheiro de som: “ele era branco e tinha a voz perfeita”, explicou o produtor.

Al Watts: “Okay, and now we’ve met our contestants, let’s get to the game! I’m going to ask an amount of four questions, and you’ll try to answer them correctly. Now, you out there in the audience can answer along with them! How many feathers are on a Perdue chicken? How many fibers are intertwined in a Shredded Wheat biscuit? What does ‘Tuhs eht lleh pu’ mean? How many times did the Batmobile catch a flat? Now that we know the questions, we’ll let the contestants think them over, and we’ll return right after these messages…” Clássico!

E como em qualquer concurso televisivo desta época, que contava sempre com um carismático apresentador, assistentes, público, concorrentes em busca de fortuna, câmaras, luzes, música, sirenes, campainhas e outros ruídos codificados, aplausos, montagem rápida, cores carregadas e muita animação propositadamente exagerada, também aqui há uma espécie de espiral vertiginosa, algures entre a comédia nonsense e um lisérgico estado alterado, num todo que confere ao álbum uma aura muito particular. Ouvir 3 Feet High and Rising é como rever um daqueles filmes de que não conseguimos cansar-nos e com que descobrimos sempre algo de novo.



Primeiro vem aquele orgão e depois Al Watts dá-nos as boas vindas: “Hey, all you kids out there! Welcome to 3 Feet High and Rising!” E ainda hoje, 30 anos volvidos, é possível sentir aquele familiar arrepio feito de antecipação e excitamento, como se estivéssemos prestes a chegar ao topo, antes do primeiro e vertiginoso mergulho numa montanha russa de que não conseguimos fartar-nos e à qual regressamos sempre que possível.

E o primeiro mergulho não podia saber melhor. Nos três ou quatro segundos iniciais de “The Magic Number” adivinha-se já todo um incrível programa, marcas de um pensamento sem paralelo no hip hop da época: ruído de vinil, um loop de baixo pontuado por uma subtil guitarra e depois um pesado break de bateria que suporta a apresentação da magia particular deste trio. Há silêncios que sublinham a personalidade de cada MC, rimas debitadas em harmonia vocal, scratch assertivo, pormenores variados que dão uma dimensão caleidoscópica à canção, funkyness carregada e uma vibrante gestão de todos os elementos, com o recorrente uso do sample retirado a “Five Feet High and Rising” de Johnny Cash a deixar claro que ninguém aqui tem qualquer interesse em seguir normas ou obedecer a tradições limitando a pesquisa de samples ao armário onde os pais guardam os discos de soul e funk.

Claro que esse armário foi aberto e explorado até à exaustão e numa lista de samples que inclui pedaços significantes de obras de Syl Johnson, James Brown, Fatback Band, Funkadelic, Ohio Players, Edwin Birdsong, Loose Ends, Lee Dorsey, The Mad Lads, Otis Redding, Sly and the Family Stone, Detroit Emeralds, The Emotions, Wilson Pickett, Commodores, The Invitations, Bo Diddley, Five Stairsteps, Parliament, Melvin Bliss, Brother Soul, Barry White, Cymande, Maggie Thrett, Isley Brothers, Lyn Collins, Blackbyrds, Manzel, Bar-Kays, New Birth, Ben E. King, The Jarmels, Duke Williams and The Extremes, People’s Choice ou The Headhunters é possível ler uma nerdyness própria de quem vivia de ouvidos colados à rádio, mas também de quem entendia o seu lugar num devir cultural muito particular. Mas conhecer o seu lugar, não impedia os De La Soul e o seu guia Prince Paul de olharem mais além e no disco encontram-se também excertos processados e descontextualizados de discos que já seria mais difícil terem lugar no tal armário por pertencerem a artistas como Johnny Cash, Steely Dan, Daryl Hall & John Oates, Turtles, Miklos Rózsa e Walter Schumann, Bob James, Bob Dorough, Eric Burdon & War, Liberace, Monkees, Steve Miller Band, Kraftwerk, Billy Joel, The Rascals, Average White Band ou Ohama.

Há um outro dado significativo, no que aos samples diz respeito: a integração no tecido sónico de 3 Feet High and Rising de snippets de discos de Real Roxanne, Doug E. Fresh, Funky 4 + 1, Double Dee & Steinski, Public Enemy, T-Ski Valley, Just-Ice, The Sequence, Malcolm McLaren ou Krown Rulers tornam absolutamente inequívoca a ideia de que os De La Soul chegam a 1989 como estudantes atentos da primeira década de existência discográfica da cultura em que então reclamavam a sua própria posição.

Finalmente, “Cool Breeze on The Rocks”. A arte da colagem no hip hop rendeu incríveis murais de som, resultantes de exercícios de colisão entre pedaços de música de compatibilidade teoricamente discutível: de “The Adventures on The Wheels of Steel” de Grandmaster Flash à mítica série de três lições oferecida ao mundo (via Tommy Boy, nem de propósito) pela dupla Double Dee & Steinski e daí aos sete minutos de pura loucura conjurados pelos Coldcut quando desafiados a reinventarem “Paid In Full” de Eric B & Rakim (1987), uma pequena e paralela via de criação impôs-se no hip hop, sublinhando de forma carregada a importância do DJ e da sua acção e pensamento na construção do moderno edifício hip hop. O contributo de Maseo para esse menos celebrado, mas igualmente importante capítulo da história aural do hip hop é fantástico. Nos 48 segundos de “Cool Breeze on The Rocks” revela-se uma estonteante história que é contada recorrendo à palavra “rock” usada em canções ou discursos de gente como Michael Jackson, Vaughan Mason and Crew, Richard Pryor, Jefferson Starship, Tracherous Three, cerrone, Gregory Abbott, Fearless Four, Orange Crush, Crash Crew, Rock Steady Crew, Afrika Bambaataa e Soulsonic Force, Cutmaster D.C., Public Enemy, Beastie Boys, LL Cool J, MC Lyte, Steady B, The B-Boys, Run DMC ou The Real Roxanne, quase como um presciente reclamar de uma dimensão que o hip hop demoraria ainda décadas a atingir quando, no presente, é afinal de contas por muitos apontado como “o novo rock”.

Essa colagem – e todos os samples usados no álbum, na verdade… – denota ainda uma ideia de liberdade de abordagem à matéria disponibilizada em vinil, via gira-discos ou sampler, que está na base dos problemas que até hoje perseguem os De La Soul, que têm visto a sua obra afastada das modernas plataformas de streaming porque os contratos originais de licenciamento de todo esse material nunca previram esta possibilidade. Trugoy, à Rolling Stone, em 2009: “Não estávamos preocupados com aspectos legais na altura. A única coisa em que pensávamos era em fazer boa música e embora existisse um processo – mesmo naquele tempo já tínhamos samples legalizados e entregávamos muita informação acerca do material usado – a nossa editora nunca quis obter as devidas autorizações para os samples porque pensava que só irámos vender dois ou três mil discos”. O alcance foi, obviamente, muito maior do que aquele que a editora então comandada por Tom Silverman esperava.

No volume da colecção 33 1/3 dedicado a Paul’s Boutique, o álbum dos Beastie Boys que saiu alguns meses depois de 3 Feet High…, Dan LeRoy, o autor, aflora a ligação entre os dois discos e cita Dan The Automator que afirma ter ouvido das bocas dos Dust Brothers e de Mario Caldato Jr, os produtores por trás do segundo álbum dos rappers brancos de Manhattan, que a cassete do primeiro registo dos homens de “Plug Tunin’” foi ouvida até à exaustão no estúdio: “E ainda se perguntam a quem se refere o título Paul’s Boutique?”

No fantástico Check The Technique de Brian Coleman – livro de 2005 que tem por subtítulo Liner Notes For Hip Hop Junkies –, Dave – aka Trugoy – refere que o disco funcionou como “uma cápsula da inocência do trio”: “Dá para ouvir quatro indivíduos que não se preocupavam com as regras e que apenas entraram na cena e divertiram-se”. Talvez por isso mesmo, por destruir o caderno de dogmas de que o hip hop se socorreu para sobreviver à sua primeira década, 3 Feet High and Rising foi, talvez, o primeiro álbum do género a ter um impacto realmente universal e global. Ainda em Check The Technique, Tom Silverman explica que as vendas do álbum na Europa foram extraordinárias: “Foi o primeiro álbum a vender mais de meio milhão de cópias na Europa, mais ainda do que os Run DMC tinham conseguido. Musicalmente era mais acessível às pessoas de lá que estavam mais ligadas ao rock. Não foi visto como mais um disco negro e pesado de rap americano”.

Essa é, de facto, uma das marcas do disco: a sua luz particular, intensa, puramente lúdica. E totalmente pop. Por volta de 2001, aquando da edição de AOI: Bionix, a segunda parte do nunca completado tríptico que os De La Soul tinham planeado para o arranque do novo milénio, escrevia na OP. as seguintes linhas: “O primeiro álbum dos De La é uma obra prima. Os beats de Prince Paul em suspensão milimétrica sobre a história da música negra, as rimas technicolor de Posdnuous, Trugoy e Maseo, a atmosfera de “Quiz Show”, os loops imaginativos, enfim, tudo mesmo no disco é perfeito. E pop. Acessível, transparente, cantarolável e dançável. Por isso é que esse disco surge em todas as listas de Melhores de Sempre. No fundo, 3 Feet High… está para o hip hop, como What’s Going On para a soul. Ambos são discos perfeitos, com um inigualável equilíbrio entre conteúdo e forma. Mas ambos ultrapassaram as fronteiras dos géneros que os viram nascer para se colocarem numa mais alargada divisão a que, à falta de melhor termo, ainda chamamos Pop.”

E lá está, então, a estreia dos De La Soul ao lado de marcos incontornáveis criados por gente como os Beatles ou Talking Heads, Aretha Franklin ou John Coltrane, Frank Sinatra ou Tom Waits, Bob Dylan ou Jimi Hendrix, como se começou por referir logo na entrada deste texto. Como boa parte dessas obras-primas citadas – e tantas outras que poderiam ter sido igualmente nomeadas – a 3 Feet High and Rising não parecem pesar os anos e escutá-lo, hoje mesmo, continua a equivaler à rendição incondicional às tais emoções fortes suscitadas pelo embarque na montanha russa. Conhecemos-lhe cada subida, cada queda, cada loop e cada curva apertada, cada safanão… gritamos sempre nos mesmos sítios e ainda assim não conseguimos deixar de repetir a dose. E de querer convidar outros a acompanharem-nos na viagem. Basta carregar, outra vez, no play: “Hey, all you kids out there! Welcome to 3 Feet High and Rising!” E lá vamos nós outra vez. Apertem os cintos…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu