20 anos de carreira de DJ Kwan no Estúdio Time Out: Festa de arromba com celebração do passado, presente e futuro do hip hop tuga

[TEXTO] João Marques [FOTOS] Sara Hawk

Kwan é um emblemático DJ do hip hop tuga: seguiu de perto o início do movimento como espectador e mostrou-se mais tarde atrás das mesas e das turntables. Hoje é uma figura incontornável a celebrar 20 anos de carreira passados entre setlists em noites de hip hop, discos editados pela Loop:Recordings, participações em discos de nomes como KESO ou Link, por exemplo, e enquanto membro dos Mundo Complexo.

Foram 20 anos celebrados com pompa e circunstância num Parkbeat muito especial no Estúdio Time Out com Kappa Jotta, Estraca, Holly Hood e os DJs Big (o irmão mais novo) e Glue. Houve espaço para estreias, convidados-surpresa e B-boying no palco, diversão que durou até às quatro da manhã.

É uma festa que não teve ontem a primeira edição, mas que desta feita aconteceu “fora de casa”. O Park mudou-se da Calçada do Combro para o Estúdio Time Out no Cais do Sodré para homenagear a carreira de Kwan. O alinhamento já era conhecido e a festa abriu com um sempre “on pointSam The Kid DJ set. Sem falhas, conciso e bastante confortável nos pratos, STK, aquele que é provavelmente o mais aclamado rapper e produtor português no hip hop, entreteve o público com muito hip hop tuga — obviamente que sem conseguir contornar os seus próprios êxitos. Isto até mudar a pele, “o meu nome é Samuel Mira e vou ser o vosso Júlio Isidro para esta noite”, anunciou com o microfone na mão, já na posição de mestre de cerimónias (um papel que lhe cai como uma luva, como todos sabemos). “Grande DJ Kwan. Vinte anos verdadeiros”, disse com uma tónica ritmada, própria apenas de quem passou muito tempo de microfone na mão a rimar, antes de apresentar a segunda actuação – Estraca, um artista que (nas palavras host de serviço) “tem barras, tem rimas e tem atitude”.

 



Foram cerca de 20 minutos de um dos mais promissores nomes do hip hop nacional, que incluíram os principais hits de uma carreira que leva já dois álbuns e alguns singles que lhe valeram comparações com Valete. “Planeta Novo”, “Palavras” e “Trajetória” foram alguns dos temas que lhe valeram a reputação de crítico e lhe reuniram uma audiência considerável, como tal não podiam ficar de fora do alinhamento. Isto em frente a um público que não parecia o seu, e que ainda só preenchia meia casa, mas que alinhou e cantou as punchlines de “Palavras”. Mais do que um concerto foi uma afirmação. Estraca, de apenas 21 anos e já uma das maiores promessas do rap nacional (nunca é demais dizer) está bem integrado entre os mais velhos e merece o seu respeito.

Mas o melhor ainda estava para vir, e a casa aqueceu certamente com Kappa Jotta e Bad Tchiken. Segundo o host, “ele é conhecido pela maneira como interage com o público”, e, para quem nunca tinha visto Kappa ao vivo, não tardou muito para perceber o que Sam queria dizer. Com DJ Maskarilha na mesa e encarregue de aquecer o ambiente, o MC entrou em palco depois de quase 10 minutos do aquecimento que poderia claramente ter sido melhor. À entrada do rapper, mudança instantânea de ambiente. Kappa Jotta é alguém que sabe estar no palco, o à-vontade é notável e a diversidade das suas músicas permite mesmo mexer com o público. Há para todos os gostos, menos mexidas e sentimentais ou hinos que motivam o mosh, o que foi motivo de consulta ao público. “Malta, vocês são família, por isso isto é mesmo assim”, disse antes de informar que tinha de eliminar uma música do alinhamento. “Vocês querem que corte o som mais pesado ou o mais calminho”? O público fez-se ouvir e Kappa deu-lhes mais um motivo para o caos.

Muitas mãos no ar, o primeiro mosh da noite e a estreia ao vivo do novo single. “Tribo” tinha sido lançado no YouTube a 7 de Dezembro, com vídeo de John Doe Shotz – um dos pontos altos da noite com toda a tribo no palco. Uma performance energética do rapper da linha de Cascais.

 



Seguiu-se Holly Hood, com o trabalho facilitado por Kappa Jotta que se encarregou de pôr Lisboa aos saltos e a cantar refrões. Uma energia diferente, mas que não deixa de ser energia. Afinal, “foi rap de barba rija”. Ladeado pelos habituais Stones Jones, e Here’s Johnny, o rapper da Superbad não veio com paninhos quentes, e se o reportório até lhe permitia (à semelhança do que fez o seu antecessor no palco) brincar com as emoções do público, Holly não o fez. Foi pesado do início ao fim num concerto que teve vários moshs e todos os êxitos. “Miúda”, “Fácil”, “Qualquer Boda”, “Cartas da Justiça” e “Ignorante”, sons em que até os décibeis debitados pelas colunas foram abafados pelo clamor das vozes que vinham da frente. O público cantou a plenos pulmões as músicas de Holly Hood que não deixou de anunciar que aquele não era um momento só seu: “é um concerto da Superbad”, a crew que inclui os principais convidados do rapper da linha da Azambuja, No Money e L-Ali. O concerto acabou com uma dedicatória ao aniversariante. “Cúmplices” foi posta a tocar nas colunas enquanto se fizeram as despedidas.

Terminados os concertos, deu-se uma valente rotação na plateia. Saíram muitos e entraram menos, abrindo a casa que estava cheia. Havia espaço para mexer os pés, finalmente, e para ir ao bar buscar uma bebida, fumar um cigarro sem o apagar acidentalmente nas calças de alguém. O ambiente também mudou. A população do Estúdio Time Out diversificou, a idade média aumentou — envelheceu uns bons 20 anos quando o público dos rappers saiu — e entraram outros fãs de hip hop tuga. Era a deixa dos DJs, com Big a iniciar as movimentações no dancefloor.

“Não vela a pena brincar ao hip hop tuga comigo”, afirmou o mais novo. E era verdade, muito rap nacional, quase uma overdose. Big mostrou aquilo que é ser DJ: a música é uma ferramenta, o que importa é que o público se divirta, e foi isso que aconteceu. De microfone no suporte ia provocando o público e mostrando que de facto não estava ali para brincadeiras. Total domínio da mesa de mistura e dos pratos, como não podia deixar de ser. Não se limitou a preparar uma playlist, Big misturou ao vivo. Como é bonito ver o crossfader ser usado mais do que de três em três minutos.

 



Depois de Big veio Glue com o seu som mais electrónico. O DJ, que já partilhou cabines com grandes gira-disquistas como Shadow, manteve-se no hip hop pelo menos durante 95 por cento do tempo, e não tem mal nenhum, mas saiu daquela que parecia ser a zona de conforto de todos os presentes, o hip hop tuga e o boom bap. Mas não sem antes incluir um pequeno mash-up de clássicos do género em português, em resposta às “provocações” de Big. Depois ouviram-se clássicos internacionais e até mesmo êxitos mais recentes como “SICKO MODE”, de Travis Scott. O estúdio tornou-se numa pista de dança para gente dos 18 aos 50 anos.

A actuação de Glue culminou num b2b com o aniversariante. Kwan entrou em palco sem que boa parte do público se apercebesse. De repente tínhamos dois DJs no púlpito a trocar faixas e picardias saudáveis. Mais que uma batalha pelo domínio do espaço, foi uma partilha do tempo de antena. Uma simbiose na música entre animadores e público. Glue acabou por se afastar eventualmente e, depois de alguns 10 minutos de Kwan, que por si só já seria bom, houve um novo ponto alto. A música baixou e o DJ pegou no microfone para anunciar o que dissiparia qualquer tipo de dúvidas sobre o que se estava ali a passar, isto se ainda persistissem na cabeça de alguém. Faltou só o grafitti, uma vez que agora eram os B-Boys em cima de palco que continuavam a festa. E ainda levou Dino D’Santiago e os membros dos Mundo Complexo a palco…

Uma festa de hip hop com (quase) todas as vertentes presentes e um alinhamento que prova que na nova geração ninguém “tá ao brincas”.

 


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