1º dia do Vodafone Mexefest: Hip hop is alive no Capitólio e a diva NAO conquista o Coliseu

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Ricardo Farinha [FOTOS] Sara Coelho (Valas, Mike El Nite & Nerve), Sebastião Santana (Talib Kweli, Diamond D & Large Professor) e João Fortuna/Vodafone Mexefest (NAO)

 

O primeiro dia do Vodafone Mexefest foi feita de rimas e batidas, r&b numa linguagem contemporânea e coliseu de gerações no rap nacional – já viram esta foto fantástica no nosso Facebook? A chuva não quis nada com Lisboa, felizmente, e as correrias nem foram necessárias, já que grande parte da atenção concentrou-se no Cine-teatro Capitólio.

 


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De Évora a Lisboa, Valas foi um homem feliz na cidade alfacinha, levando consigo a sua “turma”, composta por D. Beat nas backs e DJ Sims nos pratos. Preparado para outros palcos, o rapper de Évora demonstrou o porquê da aposta da Universal e, à frente de uma audiência composta, deu um concerto para sem falhas, dando até espaço para o homem que estava ao seu lado brilhar – Bigg Favz subiu a palco para cantar “2 Dogz” com D. Beat. O set terminou com “As Coisas”, o primeiro single nesta nova etapa, e “Dragões e Demónios”, canção que pertence ao projecto Nébula. O Alentexas fez-se sentir – tanto no palco como no público – e os 40 minutos sem paragens foram o primeiro sinal de real hip hop no Vodafone Mexefest.

Apesar do festival ter vários espaços e obrigar-nos a mover constantemente, Valas tocou nos “Bastidores” do Capitólio, local onde Mike El Nite & Nerve se uniam para um concerto diferente. Nerve, “não-rapper”, foi o primeiro a subir a palco e, sozinho, é poeta satírico, MC prendado e comediante a auto-retratar-se sem luz de presença ligada – só o escuro. Num mundo sempre tão seu, o “sacana nervoso”, deixou Blasph – que actua hoje com Beware Jack no Mexefest – e Capicua virem trazer um bocado dos seus estilos idiossincráticos para iluminar a sala. “Acena”, produzido por Sam The Kid, é desfile de rimas por Blasph em modo bragadoccio, que trouxe um Nerve mais expansivo, tal como “Judas e Dalilas”, a união de dois dos melhores e mais autênticos MCs sobre um beat do suspeito do costume: STK.

 


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“Música de Dança” foi a primeira estreia de noite: Nerve mais psicótico que nunca a rimar sobre uma construção sónica de Vulto..  Como o concerto tinha dois nomes no cartaz, chegava a vez de Mike El Nite subir a palco acompanhado de Diogo Sousa (bateria) e Dwarf (DJ), mas não sem antes assistirmos à segunda estreia da noite com nova canção d’O Justiceiro e de Nerve com produção do DJ de serviço e colaborador imprescindível de Mike. A acidez comum e a comicidade mórbida dos dois resultaram na perfeição em cima de um instrumental pesadíssimo que ganha ainda maior força com a bateria ao vivo.

Se Nerve trouxe dois convidados, Mike não quis ficar atrás: L-Ali trouxe “Banghello” na bagagem e, mascarado de anti-herói, desfilou versos no seu estilo monocórdico para desafiar os cérebros da plateia. Como já é habitual, ProfJam – sempre enérgico – foi convidado obrigatório com a interpretação recheada de auto-tune em “Água Fria” e o clássico “Mambo nº1”. Importante reforçar a excelente recepção para “Santa Maria”, faixa que pede emprestada “Eu Sei Tu És”, clássico dos Santamaria. Um daqueles exemplos notáveis de como o hip hop pode reavivar sem comprometer músicas sem repercussão actual. Para fechar a performance, “T.U.G.A.” com moche na frontline. O rap nacional dava o seu último sopro de vida no primeiro dia…

 


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Descemos até ao Coliseu – “a descer todos os santos ajudam” – e encontrámos uma arena a ir enchendo à medida que o concerto de NAO ia acumulando minutos. A banda (bateria, baixo, guitarra e teclados) nas suas costas tem a famosa pontualidade britânica, dando o backup ideal para a sua voz de diva. Sugestão: trocar Adele como grande diva contemporânea por NAO num futuro próximo. Cantou como poucas, dançou sem complexos a acompanhar o grupo – e apresentou-se em português, atirando um ou outro “obrigado” durante as pausas. “Firefly”, canção de Mura Masa com participação da artista, “Bad Blood” ou “In The Morning” são encanto, doçura e virtuosismo vocal. “Estou muito impressionado”, dizia um senhor à saída do Coliseu. Não era para menos…

 


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Um dos nomes mais esperados da noite era Talib Kweli. Casa praticamente cheia no renovado Cine-Teatro Capitólio para receber o rapper de Brooklyn, Nova Iorque, que é um ícone do hip hop clássico e da (pós?) golden era, mesmo que só tenha começado a carreira em 1996 e editado o primeiro disco a solo em 2002 – depois de colaborações com Hi-Tek nos Reflection Eternal e com Mos Def nos Blackstar.

Entre a plateia avistavam-se Carlão, Valete, Fuse, Bambino, Xeg ou Bomberjack. Talib Kweli é um clássico incontornável para várias gerações do hip hop nacional. Ao contrário do concerto que deu em Dezembro do ano passado em Lisboa, no Ministerium Club, onde Talib Kweli tocou num registo de best-of – tanto os êxitos antigos como os singles mais recentes –, aqui assumiu um papel de verdadeiro MC. Não MC enquanto rapper, mas como anfitrião da festa que se fez no Vodafone Mexefest, tornando a performance livre e espontânea.

Acompanhado por DJ Sarasa, Thanks Joey e Niko Is – o brasileiro emigrado nos EUA –, Talib Kweli não deixou nenhuma faixa passar do refrão e aproveitou para prestar tributo a gente como J Dilla, Sean Price, Bob Marley, Michael Jackson ou Wu-Tang Clan – enfim, a toda a música negra tantas vezes sinónimo de “luta” – “não nos podem separar da luta”, disse numa pausa do concerto. “Get By” encerrou a actuação que cativou público de todas as cores musicais.


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O hip hop e a música em geral sempre tiveram as suas desavenças, muitas vezes até pelo facto da própria cultura do rap ser resistente e estar fechada sobre si própria. Os rappers não são cantores, os produtores não são compositores… a verdade é que existem diferenças próprias de uma subcultura que ao longo dos anos, e felizmente, se têm vindo a dissipar.

Ao assistirmos à actuação dos lendários Large Professor e Diamond D, percebemos que não é apenas música. É o legado de uma cultura com 40 anos a ser representado. Foi rap no seu estado mais puro.O DJ set da dupla começou por aquecer uma sala outrora cheia que se tinha dispersado pelos vários palcos do festival – havia singles de vinil a espalharem os grooves clássicos pelo espaço.

Quando Large Professor saiu detrás da mesa e pegou no microfone, a (ainda) pequena mas calorosa casa – cheia das cabeças do hip hop – delirou. É difícil ficar mais “real” do que isto, seja lá o que isso for. Um loop groovy e contínuo serviu de tapete rolante dançável para ouvirmos perfeitamente as rimas e o discurso do MC, ou a lição do professor – rap que podia ser feito de um púlpito.

 


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