1996, o ano em que o rap subiu ao poder

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Mesmo na recta final de 1996, em Novembro, um artista então perfeitamente desconhecido, que assinava como DJ Shadow, lançou um álbum a vários níveis profético: Endtroducing foi o primeiro disco de hip hop criado exclusivamente com samples e é apontado como uma das pedras basilares do trip hop. Nesse álbum há uma curta faixa, um interlúdio, com um título intrigante – “Why Hip Hop Sucks in 1996?” Um sample de voz responde à pergunta levantada por Dj Shadow: “it’s the money!”

De facto, para um jovem militante da causa hip hop como DJ Shadow, que à época contava apenas 24 anos, havia muitos sinais preocupantes espalhados pelo calendário de 1996, sobretudo a “guerra” entre as costas Oeste e Este dos Estados Unidos que um par de meses antes de Endtroducing chegar às lojas tinha causado a primeira de duas notórias vítimas: Tupac Shakur morreu a 13 de Setembro na consequência de graves ferimentos causados por um ataque a tiro nas ruas de Las Vegas. Ao seu lado estava o polémico empresário Suge Knight, figura central da cena musical de Los Angeles e um dos principais arquitectos do sucesso do chamado Gangsta Rap. Knight, que diversas teorias apontam como sendo mandante das mortes de Shakur e, alguns meses mais tarde, de Biggie Smalls, o rapper de Nova Iorque também conhecido como Notorious B.I.G., foi preso pouco tempo depois do ataque a 2Pac por ter violado a sua  liberdade condicional e condenado a alguns anos de prisão (tem desde então entrado e saído da cadeia e o ano passado foi novamente acusado de assassinato depois de um atropelamento e fuga durante as filmagens de Straight Outta Compton, o filme sobre os N.W.A. onde aliás é igualmente retratado). Um remate trágico para um ano-chave na história agitada de um género que continua na ordem do dia.

 



O hip hop nasceu como uma cultura codificada num dos boroughs de Nova Iorque, o Bronx, em meados dos anos 70, mas só em finais dos anos 80 é que se começou a impor como uma força de respeito na indústria discográfica norte-americana. A década de 90 foi, por isso mesmo, a década de recolha dos frutos desse longo e tortuoso percurso que reflectia também as dinâmicas dos fluxos sociais na América. Em 1990, num artigo para o Los Angeles Times, o jornalista Robert Hilburn questionava-se sobre o impacto do hip hop: “Foi há 10 anos que “Rapper’s Delight” dos Sugarhill Gang se tornou no primeiro single de rap a entrar no Top 20. Quem então poderia prever que esta música ainda existiria em 1990 ou que seria capaz de produzir atracções que iriam concentrar tanta atenção pop como os Public Enemy ou N.W.A.?” Essa “atenção pop” reflectia mudanças demográficas no público do rap o que se traduziu igualmente numa alteração do seu sinal no radar da América conservadora. Se nos anos 80 o foco das atenções do Parents Music Resource Center (PMRC) de Tipper Gore era o “degenerado” Hair Metal que inundava os clubes de Sunset Strip, em Los Angeles, no arranque dos anos 90 foi o rap, sobretudo da Costa Oeste, que dominou os esforços das campanhas censórias dessa plataforma conservadora, com alvos como “Cop Killer” dos Body Count de Ice-T a motivarem até uma aliança de forças entre os universos do hip hop e do rock mais engajado: Rage Against The Machine ou Pearl Jam com Cypress Hill, Mudhoney com Sir Mix a Lot, Dinosaur Jr. com Del Tha Funkee Homosapien, R.E.M. com KRS One, Teenage Fanclub com De La Soul ou Sonic Youth com Chuck D são possíveis exemplos das pontes construídas durante os anos 90 entre estes dois universos.

Em meados da década, a força comercial deste género era já inegável: não só era o hip hop capaz de produzir discos multi-platinados (All Eyez On Me, disco de 1996 de 2Pac, vendeu perto de 10 milhões de cópias!), como conseguia também multiplicar as suas coordenadas geográficas empurrando para o centro do tabuleiro novas peças vindas de lugares como Atlanta – os Outkast ou os Goodie Mob – Detroit – Eminem – ou Nova Orleães – Mystikal -, provando que o género já não era um mero fenómeno regional, mas uma nova realidade de expansão nacional. E global, pois claro. A MTV garantiu que o sinal se propagasse à escala planetária, eliminando finalmente as resistências editoriais da década anterior que tinham até contornos morais duvidosos.

Uma conjugação entre a evolução da tecnologia e a crescente visibilidade comercial do hip hop apresentou igualmente novas ideias ao público: por um lado, a possibilidade de reciclagem da música (muitos dos grandes êxitos da época apoiavam-se em samples de clássicos de eras anteriores), e, por outro, a evolução do próprio conceito de músico com a imposição definitiva das figuras do produtor e do DJ como novos agentes criativos da cena musical global (ao ponto de, a dada altura, ainda durante os anos 90, um híbrido rock-rap conhecido por nu metal ter abraçado a figura do DJ com mais fervor até do que o hip hop que a dada altura parecia ter dispensado esse elemento que o prendia à “velha escola” dos anos 80).

Na verdade, o hip hop, e para voltar a pegar na crítica velada de DJ Shadow, “didn’t suck in 1996”. Muito pelo contrário. Como acontece em anos excepcionais com certos vinhos, pode argumentar-se que a colheita de 1996 tem estatuto de “vintage” e que gerou muitos clássicos que, 20 anos mais tarde, representam um dos auges de uma cultura que teima em manter-se relevante no presente.

 



O ano de 1996 arrancou numa boa nota com o regresso ao activo de The D.O.C., o rapper que foi braço direito de Dr. Dre em muitos momentos criativos e que teve um grave acidente que o deixou incapacitado após a sua auspiciosa estreia com No One Can Do It Better, álbum que escalou até ao topo das tabelas de vendas em 1989. Que D.O.C. tenha ganho recentemente novo alento (graças provavelmente a ser focado no filme Straight Outta Compton), preparando novo disco para o corrente ano e um documentário biográfico com produção Netflix só ajuda a confirmar como pistas lançadas em 1996 continuam relevantes no presente.

O segundo mês de 1996 foi particularmente prolífico com a edição – no mesmo dia 13 de Fevereiro – de dois dos maiores clássicos de sempre do hip hop: The Score dos Fugees e All Eyez On Me de 2Pac. Produtos distintos das duas Costas americanas, os dois álbuns tinham no entanto em comum o facto de terem visto o seu sucesso muito apoiado em singles que dependiam em larga parte de releituras de pérolas do passado da música negra – “Killing Me Softly” dos Fugees reactualizava o clássico de Roberta Flack ao passo que um dos elementos mais destacados de “California Love” de 2Pac era a voz modelada pela “talk box” de Roger Troutman emulando o tema “West Coast Poplock” que ele mesmo escreveu e que foi originalmente um êxito na voz de Ronnie Hudson. Troutman era um veterano da cena funk que militou nos Parliament/Funkadelic e nos Zapp sendo uma influência directa do “g-gunk”, o estilo elevado por Dr. Dre até às posições cimeiras das tabelas de vendas.

Olhando para o calendário de edições de 1996 descobre-se um verdadeiro “quem é quem” do rap dos anos 90, sinal de que se os protagonistas do género todos decidiram editar nesse ano isso só aconteceu por identificarem nesse momento um contexto de particular vibração colectiva: Busta Rhymes, a protegida dos Gang Starr Bahamadia, Beastie Boys, Geto Boys, Master P, Kool Keith, Dr. Dre, N.W.A., Too Short, Digital Underground, Nas, Kool Keith, Ice T e Kool G Rap, Jay-Z, De La Soul e A Tribe Called Quest, UGK, Cypress Hill e Outkast, os Roots, Rass Kass, Xzibit, Jeru The Damaja, Ghostface Killah, Eminem, LL Cool J, Snoop Dogg, Mobb Deep, Redman, os Three 6 Mafia, Foxy Brown, MC Lyte, Lil Kim… Nova Iorque e L.A., Atlanta, Dallas e Detroit, veteranos e newcomers, uma forte representação feminina…

 



1996 foi de facto um ano-chave de uma década que viu o hip hop transformar-se na principal fonte geradora de receitas da indústria discográfica norte-americana. Os sinais foram por demais evidentes ao longo do ano, com os números alcançados por 2Pac a tornarem ainda mais dramático o seu precoce desaparecimento: The Don Killuminati: The 7 Day Theory, o primeiro de uma aparentemente infindável lista de discos póstumos de 2Pac, lançado em Novembro de 1996 e assinado por Makaveli, alter-ego do malogrado artista, e também All Eyez On Me lideraram a lista de melhores vendas na semana de lançamento contabilizando juntos cerca de um milhão e 200 mil cópias; The Doggfather de Snoop Dogg chegou ao meio milhões de cópias na primeira semana de vendas e tanto Nas como os Fugees ultrapassaram largamente as 200 mil cópias em vendas na semana de chegada às lojas. Os números globais são ainda mais impressionantes e todos esses discos alcançaram o cobiçado 1º lugar na tabela da Billboard.

DJ Shadow viu o seu Endtroducing (que irá merecer este ano uma reedição especial comemorativa) ter um comportamento comercial bem mais modesto, mas os seus receios de que o hip hop se tornasse um pântano comercial parecem, a esta distância, não terem tido real sustentação: apesar da vertigem comercial e da respectiva cobiça que até pode ter estado na origem da morte de duas das estrelas de maior potencial que a década de 90 revelou, 20 anos volvidos o hip hop, mesmo na sua cúpula mais destacada, continua a ser um exemplo de feroz independência com alguns dos mais reputados e visíveis artistas do presente – de Kendrick Lamar e Chance the Rapper até Drake ou Kanye West – a não se deixarem encadear por números ou por fama e a manterem a sua música como alavanca de progresso e afirmação individual.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu